A oratória sedutora de Barack Obama

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

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Obama deu uma aula completa de oratória do começo ao fim. Sem dúvida, o presidente americano é hoje um dos maiores oradores de todo o mundo. Sabe como ninguém cativar, emocionar e sensibilizar o público com sua capacidade de comunicação.

A começar pelo traje. Num domingo à tarde no Rio de Janeiro nada mais apropriado que um orador se vista sem gravata, mesmo se tratando do presidente dos Estados Unidos. Ao se apresentar com traje menos formal, Obama deu sinal claro de que estava à vontade e que sua intenção era a de se aproximar dos ouvintes.

Ao chegar à tribuna foi longamente aplaudido. Simpático, sorriu demonstrando que estava feliz com a receptividade. Agradeceu em português. Ora, um "obrigado" saído da boca de alguém tão importante no contexto mundial se transforma em música para os ouvidos dos brasileiros. Ponto positivo para Obama antes mesmo de iniciar o discurso.

Cumprimentou a plateia com um "oi, Rio de Janeiro". Alguém respondeu "oi". Demonstrando ter entendido a brincadeira retribuiu com um sorriso. Em seguida, depois de uma pausa bem medida, continuou com "olá, Cidade Maravilhosa". Mais aplausos e gritos de alegria dos ouvintes. Não parou por aí. Sempre com sorriso aberto e amigo disse "boa tarde a todo povo brasileiro". Mais aplausos e mais sorrisos.

Aproveitando a acolhida, Obama se valeu do momento para falar de como ele e a família foram bem recepcionados e receberam o calor e a generosidade do espírito brasileiro. Outro obrigado em português. E mais aplausos.

Em um minuto Obama já havia conquistado a todos. Esse é o primeiro conceito importante da arte de falar em público: conquistar os ouvintes logo nos primeiros momentos da apresentação. Usou para isso um dos recursos mais eficientes da técnica oratória – ser simpático, demonstrar envolvimento e interesse pelo ambiente onde se encontra e elogiar com sinceridade a plateia.

Não contente, agradeceu especialmente às pessoas que compareceram ao Theatro Municipal. Reconheceu o sacrifício que estavam fazendo, a partir de um comentário bem-humorado, citando o jogo que seria realizado à tarde entre Vasco e Botafogo.

Ouviu algumas vaias, provavelmente de torcedores de outros times. Com inteligência, sorriu e chegou a gargalhar, demonstrando assim que tinha consciência de que cutucava os ouvintes. Jogo de cintura e presença de espírito que só os grandes oradores possuem. Mais um tento de Obama.

Mesmo tendo já a plateia nas mãos, continuou com o processo de conquista. Fez referência ao primeiro contato que teve com o Brasil a partir do filme que assistiu com sua mãe quando era muito pequeno, "O Orfeu da conceição". Falou de como sua mãe se encantou com o filme e com a favela que serviu de cenário para a história.

Fez referência ao Theatro Municipal dizendo que a estreia havia sido naquele local. Aproveitou dessa forma uma circunstância de lugar, recurso que ajuda a estabelecer identidade entre o orador e os ouvintes.

Obama continuou elogiando o povo e as paisagens brasileiras. Sempre de forma pausada, sem pressa, mas com bastante expressividade. Toda vez que o público aplaudia ele parava de falar.

Não retomava imediatamente para não interromper o momento de emoção, mas também não deixava que os aplausos cessassem totalmente para não desperdiçar aquele instante. Quando o ruído dos aplausos começava a diminuir, voltava a falar aproveitando da melhor maneira possível a reação do público.

Citou Jorge Ben jor para dar sequência aos elogios que fazia às belezas brasileiras. Lembrou de D. Pedro. Falou de forma elogiosa da presidente Dilma. Incluiu frases de Paulo Coelho. Sempre com o objetivo de agradar e conquistar não só quem estava presente, mas também a todos que o assistiam pela televisão ou ouviam pelo rádio. Não foi sem motivo que mencionou paulistas, baianos, mineiros, homens do campo.

Obama alinhavou seu discurso falando das conquistas sociais do Brasil, da Copa do Mundo e dos Jogos olímpicos que serão sediados no nosso país. Brincou mais uma vez com a plateia quando disse que o Brasil não era o seu preferido para os jogos.

O público ficou em silêncio. Após pausa bastante prolongada e sorrindo complementou que, como os jogos não puderam ser realizados em Chicago, não havia lugar melhor para realizá-los que o Brasil.

Com sua habilidade oratória, mencionou que o Brasil não é mais o país do futuro, pois o futuro já chegou no Brasil. Uma frase que tem sido repetida por políticos brasileiros em diversos momentos e que é, portanto, familiar a todos.

Foram cerca de dez minutos envolvendo e cativando os ouvintes. Só depois é que introduziu temas da sua mensagem central, começando pelas parcerias que poderiam ser realizadas pelos dois países. Falou de como o mundo deve existir sem armas nucleares.

A ajuda que os americanos estão dando aos japoneses não foi assunto esquecido. Enalteceu a democracia que proporciona o crescimento e o desenvolvimento do Brasil e dos Estados Unidos. Destacou a importância da inclusão social não só no Brasil, mas também em todo o mundo.

Resguardou a imagem dos americanos e sem mencionar a abstenção do Brasil no episódio da Líbia declarou que devemos lutar em defesa da democracia e da soberania dos países.

Quase no final elogiou o Brasil como exemplo de um país que mostrou ser possível sair da ditadura e viver numa democracia. Relembrou que do lado de fora do teatro, na Cinelândia, as pessoas se reuniram para exigir a liberdade e a democracia.

Mencionou explicitamente o papel da presidente Dilma nessa luta e de como foi presa por causa de seus ideais até que conseguisse a vitória.

Encerrou falando sobre os obstáculos que os dois países terão pela frente, mas como tudo poderá ser superado. Foi aí que usou a frase de Paulo Coelho e agradeceu em português. Obama foi aplaudido de pé longamente e agradeceu com acenos se movimentando de um lado para o outro da tribuna.

Barack Obama leu o discurso com auxílio do teleprompter. Ficou tão à vontade diante do aparelho que em nenhum momento deu impressão de estar lendo. Aproveitava as pausas para ler em silêncio as frases seguintes e só voltava a falar olhando para a plateia. Por sinal, a comunicação visual foi um dos pontos altos da sua apresentação.

Nos 24 minutos em que discursou em nenhum momento deixou de olhar para os ouvintes. Todos tiveram a impressão de que ele olhava em sua direção.  Seus gestos foram perfeitos, firmes quando a mensagem era contundente, moderados quando a informação era suave.

A fala foi pausada e o volume da voz suficientemente alto para demonstrar o sentimento que desejava transmitir. As pausas medidas é o meio que usa para seduzir os ouvintes. Valoriza sempre as informações que acabou de transmitir, cria expectativa sobre o que vai falar e demonstra domínio dos temas que desenvolve.

Quem esteve presente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro na tarde de domingo teve o privilégio de ver em ação um dos maiores e mais competentes oradores de todos os tempos. Que bom que está usando sua oratória para se aproximar do Brasil. 

SUPERDICAS DA SEMANA

- Use o início para conquistar os ouvintes
- Nas primeiras palavras, elogie com sinceridade o público
- Comente fatos recentes da realidade dos ouvintes para se aproximar da plateia
- Se o tema permitir, comece a fala de forma simpática e bem-humorada
Livros de minha autoria que tratam desse tema: "Assim é que se fala", "Como falar corretamente e sem inibições" e "Superdicas para falar bem", publicados pela Editora Saraiva também em formato digital

Reinaldo Polito

Autor de 21 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.



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