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Inflação ainda não recuou o bastante para corte de juros, dizem analistas

Ana Carolina Lourençon

Em São Paulo

Embora os índices de inflação venham mostrando abrandamento nos últimos meses, impulsionados principalmente pela desaceleração nos preços dos alimentos no atacado e no varejo, o Copom (Comitê de Política Monetária) não deve optar por um afrouxamento do aperto monetário em breve.

"Existem alguns grupos dentro da inflação como vestuário e serviços, por exemplo, que costumam reajustar seus preços de forma preventiva, não porque subiram os custos, mas por um medo de que ocorra a aceleração da inflação. O BC quer justamente evitar a ocorrência deste movimento na economia", afirma o professor de derivativos e riscos do Ibmec São Paulo Alexandre Jorge Chaia.

A preocupação do Banco Central deve se refletir em mais duas elevações na taxa básica de juros até o fim do ano, segundo economistas consultados.

Nas reuniões do Copom que restam em 2008, em 28 de outubro e 9 de dezembro, o BC deve optar por reajustar a Selic em 0,5 ponto percentual, deixando a taxa em 14,75% no término de 2008. A taxa hoje está em 13,75% ao ano.

"O BC ainda está alerta ao cenário de inflação porque as taxas mais brandas vistas no IPCA de agosto e setembro devem ser diluídas daqui para frente. A queda no grupo alimentos foi reflexo da acomodação de preços das commodities no exterior, mas não podemos esquecer que ainda existe pressão na demanda interna", diz o economista da LCA Consultoria Fábio Romão.

Pressões
No IPCA-15 de setembro, que desacelerou para 0,26% contra 0,35% de agosto, entre os nove grupos pesquisados, cinco deles apresentaram aceleração no ritmo de alta comparado ao mês anterior: artigos para residência, vestuário, transportes, saúde e despesas pessoais.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), responsável pela apuração dos dados, entre os itens que pressionaram a taxa do mês de setembro, os destaques foram cigarro (3,67%), telefone fixo (0,85%), empregado doméstico (0,94%) e taxa de água e esgoto (1,05%).

Com base nessas categorias, explica o professor do Programa de Varejo da Fundação Instituto de Administração (FIA) Nuno Fouto, o Copom precisará manter o aperto monetário, mesmo porque no acumulado dos últimos 12 meses até agosto, o IPCA atingiu 6,17%, ficando bem próximo, portanto, do teto de 6,5% estipulado pelo BC para 2008.

"Como o Copom pensa lá na frente, ele precisa fazer com que desinfle o acumulado da inflação. E é sabido também que, se os índices de forma geral deram uma trégua nos últimos meses, foi mais por conta dos alimentos, que têm um período cíclico de preços, do que pela atividade interna, que ainda não mostrou freio e deve preocupar bastante", afirma.

Crise global
Por outro lado, o aumento na taxa de juros também é justificado pelo agravamento da crise financeira global.

"Com esse problema de restrição de crédito no mundo, o BC deve continuar com a contração econômica para garantir um ganho do real frente a outras moedas e também para manter o Brasil como um porto seguro de investimentos, trazendo recursos para o país", afirma o economista-chefe da UpTrend Consultoria, Jason Vieira.

Mas, no ano que vem, o BC já deverá trabalhar com uma taxa de juros estável, podendo reduzi-la a partir do segundo semestre, quando sinais mais evidentes do efeito da política de aperto de juros deverão surgir.

"Provavelmente, a desaceleração econômica mundial e as duas elevações na taxa Selic daqui para frente já devem ser suficientes. A partir do início de 2009 devemos ver uma demanda doméstica com menos fôlego e taxas de desemprego mais próximas das de 2007, que estavam mais altas do que as observadas ao longo de 2008. Então, a Selic deve parar de subir", diz Romão.

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