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América Latina deve ter mais fusões de bancos, diz "Financial Times"

Stephen Fidler, Jonathan Wheatley e Adam Thomson

As economias latino-americanas ainda estão pagando o preço das crises bancárias domésticas do passado. Mas essas crises, por acidente ou intencionalmente, permitiram aos bancos da região suportarem a atual turbulência financeira global em relativo conforto.

Alguns bancos, particularmente os menores, sofreram com o acesso reduzido aos fundos. Mas banqueiros, analistas financeiros e autoridades do governo dizem que os mercados de financiamento domésticos continuam em grande parte a funcionar, apesar da desarticulação nos mercados dos países industrializados.

Todavia, o resultado provavelmente será tempos mais magros para os bancos e, em conseqüência, mais fusões entre os emprestadores da região. Apesar dos executivos dizerem que a fusão entre o Banco Itaú e o Unibanco não ocorreu em conseqüência direta da crise, analistas dizem que bancos menores provavelmente serão comprados por seus pares maiores no Brasil e em outros lugares.

Em geral, entretanto, os bancos latino-americanos estão provando ser bastante resistentes. Isto se deve em parte porque, apesar da aceleração do crescimento do crédito nos últimos anos, os sistemas bancários da região são relativamente pequenos.

Apenas no Chile, que sofreu sua última crise bancária há um quarto de século, o empréstimo bancário ao setor privado ultrapassa 75% do produto interno bruto. No Brasil e no México, que sofreram crises bancárias em meados dos anos 90, ele representa cerca de 40% e 20% respectivamente.

Na Argentina, cujo mais recente trauma bancário ocorreu no início desta década, ele mal ultrapassa 10%.

No Brasil, perto de 30% dos depósitos bancários são retidos pelo Banco Central como depósito compulsório, lhe dando uma ferramenta, quando necessária, para adicionar liquidez aos bancos. O Banco Central também autorizou os bancos públicos, incluindo o Banco do Brasil, a adquirirem participações acionárias em bancos privados e comprarem suas carteiras de empréstimos. Enquanto isso, segundo a lei brasileira, os acionistas controladores dos bancos enfrentam responsabilidade ilimitada em caso de falência de um banco.

No México, os bancos estrangeiros fornecem mais de 70% do crédito ao setor privado. O Banorte, o quarto maior, é o único banco de propriedade mexicana a sobreviver entre as cinco maiores instituições, que também englobam subsidiárias do BBVA e do Santander da Espanha, Citibank e HSBC.

Algumas empresas se queixaram de redução da oferta de crédito pelos bancos visando repatriarem fundos para a matriz. Mas Guillermo Ortiz, o presidente do banco central, disse ao "Financial Times" que o Banco do México assegurou que os emprestadores mexicanos "permanecessem longe desses produtos tóxicos" que prejudicaram os bancos americanos.

"No sistema bancário doméstico, nós tivemos poucos problemas em comparação aos outros países. É claro que temos algumas preocupações específicas em relação ao crescimento de obrigações vencidas em cartões de crédito e assim por diante. Mas isso não representa um risco ao sistema", ele disse.

Segundo o CNBV, o regulador do setor bancário do México, o capital dos bancos é de mais de 15% dos ativos ponderados pelo risco - quase o dobro da quantidade exigida. "O sistema bancário é muito forte", disse um membro do CNBV. "Ele tem uma base sólida de ativos, ele continua a conceder crédito, está bem capitalizado e conta com reservas abundantes."

No Brasil, nove bancos - em breve se tornarão oito- são responsáveis por quase 90% dos depósitos em dinheiro e três são estatais. Mas isso significa que mais de 150 instituições menores são altamente dependentes do financiamento no atacado.

Ao longo do último mês, o Banco Central adotou uma série de medidas visando melhorar a liquidez para os bancos menores. Ele liberou mais de R$ 100 bilhões do depósito compulsório, liberando os bancos menores de manter a reserva.

Na quinta-feira, ele disse que deixaria sem remuneração o depósito compulsório por tempo indeterminado.

"Agora os bancos têm um incentivo real para emprestar", disse uma autoridade do governo ao "FT". "Há muitos bancos de pequeno e médio porte que querem tomar empréstimo, especialmente aqueles de propriedade de fabricantes de automóveis."

Subsidiárias de empresas como GM, Ford, Fiat e Volkswagen abriram bancos no Brasil para emprestar aos clientes que desejam financiar uma compra de automóvel.

A autoridade do governo disse que a medida de deixar de pagar juro é apreciada pelos bancos menores, mas irrita os maiores.

Márcio Cypriano, o presidente do Bradesco, descreveu a medida como uma "punição" e disse que o banco provavelmente elevará as taxas de juros aos seus clientes para compensar a perda da remuneração.

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