Secretário do Tesouro dos EUA lamenta falta de ferramentas durante a crise, diz "FT"

Krishna Guha
Em Washington (EUA

Por três vezes nos últimos seis meses, diz Hank Paulson, ele temeu que o sistema financeiro mundial estivesse sob risco de um colapso total.

A primeira vez, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos contou ao FT em uma entrevista, foi em agosto, quando percebeu que a Fannie Mae e Freddie Mac, as gigantes americanas de hipotecas com US$ 5,4 trilhões em obrigações pendentes de investidores ao redor do mundo, estavam em sério risco.

A segunda vez foi em meados de setembro, com o colapso do banco de investimento Lehman Brothers e a série de outras instituições financeiras que estavam à beira da falência.

A terceira vez foi no final daquele mês, quando a Câmara dos Deputados inicialmente rejeitou seu fundo de resgate de US$ 700 bilhões para escorar o sistema financeiro.

"Para mim aquele momento foi o fundo do poço, porque eu disse que estávamos olhando para o abismo caso não pudéssemos fazer nada", ele disse.

Paulson lembra de Barney Frank, o mordaz presidente democrata do comitê de serviços financeiros da Câmara, tentando tranqüilizá-lo de que nem tudo estava perdido.

"Ele diz, 'eles vão voltar. Às vezes as crianças precisam fugir de casa e ficar com fome antes de voltarem'." Foi, segundo Paulson, o único momento leve em um dia péssimo.

Para o ex-rei de Wall Street, o último ano e meio foi uma experiência difícil. Ele assumiu o cargo esperando modernizar a regulamentação americana e tornar Nova York um centro financeiro mais competitivo, mas acabou liderando uma série gigantesca e freqüentemente confusa de intervenções do governo visando resgatar o sistema financeiro e agora a indústria automotiva americana.
Como muitos de seus antigos pares, o ex-presidente da Goldman Sachs às vezes teve dificuldades pata lidar com a força da crise de crédito e, apesar de ainda respeitado, não mais parece o mestre do universo da lenda de Wall Street.

Ele nunca experimentou nada parecido em sua carreira. "Ao meu ver, isto é realmente histórico em termos da natureza dos desafios e dos poderes inadequados com os quais tivemos que lidar em algumas dessas situações", ele diz.

Paulson, que deixa o cargo em 20 de janeiro, diz que por algum tempo ficou surpreso com a ferocidade da crise, mas que, desde agosto, acreditava ter compreendido plenamente quão severa ela era, à medida que os problemas da Fannie e Freddie ameaçavam se somar aos futuros resultados de setembro das instituições financeiras.

"Se você tivesse me perguntado há seis meses se eu estava surpreso com a magnitude do desafio, a resposta teria sido 'sim'. Mas estivemos por algum tempo na situação frustrante de perceber mais do que a população ou mesmo do que o Congresso a magnitude do que estamos enfrentando."

O secretário do Tesouro diz que foi forçado a enfrentar a crise por muitos meses "sem toda os poderes que um grande país como os Estados Unidos precisam".

Apenas no início de outubro, quando o Congresso autorizou o Programa para Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês), ele conseguiu empregar capital público tanto nas operações de resgate quanto no apoio ao sistema financeiro como um todo.

Até aquele momento, diz um assessor, o "Tesouro não podia fazer muito, fora declarar um feriado bancário com a aprovação do presidente... Certamente, o secretário do Tesouro ficou frustrado com isso". Até ser concedida a autoridade do Tarp, tudo o que ele podia fazer era tentar liderar, coordenar e tentar convencer as agências independentes de que ele tinha poderes para combater a crise.

Paulson diz que "teria sido bom" se os poderes do Tarp tivessem entrado em vigor mais cedo. Mas "não havia a menor chance" de obter amplos poderes do Congresso antes de setembro. "Nós quase não os conseguimos quando estávamos no meio da crise", ele diz.

Ele descreve sua abordagem geral como uma "intervenção agressiva. Nós fizemos coisas que, sob circunstâncias normais seriam, e ainda são, condenáveis, mas são melhores do que a alternativa".

Os críticos acusam Paulson, que é notoriamente pragmático, de carecer de uma estrutura estratégica abrangente, em parte porque abordava as crises empresariais como um negociador de acordos. "Toda a operação carece de conceito", disse um ex-diretor do Fed (Federal Reserve, o banco central americano).

Eles alegam que as políticas são inconsistentes -primeiro em relação às condições sob as quais o governo deve resgatar as instituições financeiras individuais, depois em relação ao uso do fundo de resgate de US$ 700 bilhões, que inicialmente visava a compra de ativos e depois passou para injeções de capital.

John Taylor, um professor de Stanford e ex-subsecretário do Tesouro, diz que "a falta de uma estrutura previsível para a intervenção" alimentou a incerteza do mercado e minou o impacto das políticas de intervenção.

Paulson não tenta insistir que erros não foram cometidos. "Eu estou certo que olharei para trás... e pensar em todas as coisas que gostaria de ter feito de modo diferente."

Em termos estratégicos, os assessores dizem que Paulson percebeu desde cedo a necessidade dos bancos levantarem mais capital e os pressionou a fazê-lo, mas não podia forçá-los a agir. "É preciso conter esta série de falências antes que se possa trabalhar visando a estabilização", ele diz.

Ele não sofreu pressões da Casa Branca. O presidente George W. Bush "não abordou isto com nenhuma inclinação ideológica. Ele foi bastante pragmático... Ele me usou como seu general em tempos de guerra e me delegou um grande poder de decisão".

Paulson diz que há "uma grande confusão" em relação à sua posição durante a crise do Lehman Brothers. Apesar dele ter adotado uma posição dura de negociação de não empregar dinheiro público na crise do fim de semana -para incômodo de diretores do Federal Reserve como o futuro secretário do Tesouro, Tim Geithner- ele diz que nas etapas finais das negociações sobre um possível resgate pelo Barclays Bank britânico, ele deixou claro que o governo americano faria o que pudesse para ajudar a fechar o acordo.

"Eu disse, 'nos dêem seus melhores termos'. Nós não deixamos implícito, nós estávamos dizendo que tentaríamos algo."

Outros altos funcionários americanos disseram que com Wall Street preparada para contribuir com cerca de US$ 40 bilhões para ajudar a financiar um pool de ativos indesejados do Lehman, as autoridades examinaram formas de ajudar a financiar o balancete, mas que de nada adiantou já que o acordo fracassou.

Após o fim de semana do Lehman, diz Paulson, "nós não estávamos pulando e dizendo que estávamos perdidos, que não tínhamos qualquer autoridade para lidar com isso, porque tínhamos outros bancos de investimento com os quais nos preocuparmos".

Ele diz que sua resistência inicial à idéia de usar o dinheiro do Tarp para adquirir participação acionária nos bancos ocorreu porque "eu não queria ver um programa como o programa inicial britânico, onde era semelhante a uma nacionalização ou punição".

A abordagem de Paulson a respeito do Tarp foi afetada por sua experiência tentando elaborar um resgate para a Fannie Mae e Freddie Mac um mês antes. Ele foi ao Congresso para pedir pelo que chamou de "bazuca" -o direito de investir nas empresas- apesar de ter dito aos legisladores que provavelmente nunca a usaria.
O pedido quase fracassou em meio à discussão em torno das políticas de execução hipotecária. Quando foi concedido, os novos poderes assustaram os acionistas da Fannie e do Freddie, que temiam uma diluição imensa em caso de um resgate pelo governo, forçando Paulson a disparar sua bazuca e fazer com que o governo assumisse o controle de fato das empresas.

Ela mantém que não é autocrítico em relação à "mudança de estratégia" para injeções de capital em termos bons para o mercado. O fundo de US$ 700 bilhões "é um recurso limitado" e o Tesouro poderia obter um retorno maior ao investir em participação acionária ou ao fornecer capital de risco em apoio ao financiamento pelo Fed do crédito ao consumidor.

Ao ser perguntado sobre como foi o último ano em termos pessoais, ele diz: "Foi incomumente intenso. E geralmente quando você está lidando com períodos intensos, a duração deles é breve". O Tesouro, ele diz, está fazendo "todo o possível" desde julho.

Enquanto se prepara para transferir o cargo para seu sucessor, Paulson oferece muitos elogios à nova equipe. "Eles possuem uma grande equipe e não precisam de conselho. Eu realmente acredito nisso."

"Não há virtualmente nada que eu tenha feito aqui que Tim Geithner não entenda, além dele ter feito virtualmente parte de tudo. Larry Summers (o próximo chefe do Conselho Econômico Nacional) entende de todas estas questões."

Paulson diz que tudo o que pode dizer é sobre a importância da coordenação e comunicação entre todas as agências americanas e internacionais. Isso, e a "capacidade de se mover rapidamente, de agir quando for necessário".

Gestão da crise

17 de março: O Bear Stearns é vendido ao JPMorgan

6 a 8 de agosto: Tanto o Freddie Mac quanto a Fannie Mae relatam o quarto trimestre consecutivo de prejuízo e cortam dividendos

7 de setembro: O governo resgata a Fannie Mae e o Freddie Mac

15 de setembro: O Lehman pede falência

16 de setembro: O Tesouro apóia um acordo de US$ 85 bilhões para evitar o colapso da seguradora AIG

23 de setembro: Ben Bernanke e Hank Paulson buscam apoio para o plano de resgate de US$ 700 bilhões para compra de ativos "tóxicos"

29 de setembro: A Câmara dos Deputados rejeita o pacote
3 de outubro: A Câmara aprova o plano revisado

7 de outubro: O Grupo dos Sete países industrializados concorda em tomar "todas as medidas necessárias"

14 de outubro: Paulson diz que começará a comprar participações acionárias dos bancos

12 de novembro: Paulson abandona o plano de compra dos ativos tóxicos

16 de novembro: Os líderes do G20 prometem uma ação unida em relação à crise global

Tradução: George El Khouri Andolfato
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