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Deficit na Europa assombra mundo; entenda o que são os Piigs

Andressa Rovani

Da Redação, em São Paulo

Um conjunto de cinco países europeus tem tirado o sono de economistas do mundo todo. Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, batizados de Piigs (acrônimo depreciativo criado para denominar as cinco economias, e que em inglês tem sonoridade e escrita semelhante a "porcos"), provocam temor em investidores quanto à capacidade desses governos de conter o alto deficit fiscal e honrar suas dívidas. O deficit ocorre quando um país gasta mais do que arrecada.

A possibilidade de calote desses países é considerada a maior ameaça já enfrentada pelo euro, a moeda única europeia, desde sua criação. Além disso, esse cenário tem deixado o euro vulnerável e levado a quedas nas principais Bolsas do mundo nas últimas semanas.

"Os Estados Unidos estão se recuperando da crise porque são mais flexíveis. Na Europa, a institucionalidade da economia é mais rígida. Ao mesmo tempo em que regras amortecem a queda, elas dificultam a recuperação desses países", afirma o professor Carlos Eduardo Soares Gonçalves, da FEA/USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo).

Gonçalves explica que esses países já apresentavam, antes do início da crise financeira mundial, uma piora nos gastos fiscais em relação aos demais países da Europa. "A chegada da crise fulminou o orçamento dos Piigs, porque exigiu mais gastos em um momento em que caía a arrecadação, aumentando o deficit", explica. "A situação deles é muito frágil."

Como esses países fazem parte da zona do euro, não podem desvalorizar suas moedas para baratear a dívida e poder pagá-la, estratégia adotada por parte dos países que já passaram por situação semelhante. Seria preciso que os Piigs deixassem de ter o euro como moeda e criassem a sua própria para depreciá-la, em situação que lembra o que ocorreu em 2001 com a Argentina, que tinha sua dívida pública atrelada ao dólar. "Eu duvido que isso aconteça", afirma Gonçalves.

A Grécia é o país de maior evidência no grupo. O deficit público do país, de 12,7% do PIB, é o pior entre os Piigs e é mais de quatro vezes maior do que o permitido pelas regras da zona do euro impostas aos 16 países da União Europeia que adotam a moeda, de 3%.

Em uma tentativa de acalmar os mercados, a Grécia anunciou uma série de medidas para aumentar as receitas e diminuir esse deficit. O plano inclui o congelamento das pensões acima de
€ 2.000 no setor público e um imposto de até 40% sobre a renda anual acima de € 60 mil. Ainda assim, o país precisará de ajuda externa para que a economia entre nos trilhos.

Ajuda

Esse auxílio será discutido pelos ministros de Finanças da zona do euro. Se a ajuda for aprovada, será o primeiro resgate de um membro da zona do euro em 11 anos de história da moeda única europeia.

A contrapartida, porém, deverá estar à altura. "Não se tem apoio de graça. Isso iria simplesmente lançar as bases para novos desequilíbrios e crises. Temos instrumentos para fornecer isso em troca de compromissos claros de que eles (os gregos) irão cumprir suas responsabilidades", disse Joaquín Almunia, que está deixando o cargo de comissário europeu de Assuntos Monetários.

O ministro das Finanças de Portugal, Fernando Teixeira dos Santos, cujo país também foi atingido pelas turbulências do mercado, disse à Reuters que tem certeza quanto à ajuda para a Grécia se isso for necessário, embora os tratados da União Europeia não antevejam tal assistência.

Para Gonçalves, da USP, a ajuda deve vir de um organismo multilateral, como o FMI (Fundo Monetário Internacional). "Acredito que os países mais fortes da Europa, França e Alemanha, que também enfrentam dificuldades devido à crise, não queiram tributar ainda mais a população para poder bancar o auxílio. É uma equação politicamente complicada", explica. "A exigência de ajuste fiscal deve vir do FMI."

Efeitos para o Brasil

O principal efeito da turbulência europeia no Brasil deve continuar sendo a aversão a risco dos investidores internacionais.

Essa posição deve fazer com que os estrangeiros prefiram investir em áreas mais seguras, como o dólar e títulos americanos, vendendo suas participações na Bolsa brasileira e, com isso, colaborando para sua queda.

Até 5 de fevereiro, os investidores estrageiros haviam tirado da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) R$ 2,5 bilhões. Entenda o motivo.

Outro impacto poderá ser sentido pelos exportadores brasileiros, que devem verificar queda na demanda europeia por commodities e produtos manufaturados.

(Com informações da Reuters, Efe e BBC Brasil)

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