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Disparada do dólar pressiona conta de luz e deve impedir alívio em tarifas

Impactos devem ser sentidos principalmente por clientes de distribuidoras das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul - iStock/Devonyu
Impactos devem ser sentidos principalmente por clientes de distribuidoras das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul Imagem: iStock/Devonyu

Luciano Costa

06/03/2020 18h14

SÃO PAULO (Reuters) - A recente disparada na cotação do dólar deve pressionar as contas de luz no Brasil e impedir que consumidores tenham alívio tarifário em 2020, revertendo cenário mais positivo esperado em meados de 2019, disse à Reuters uma empresa especializada em tarifas.

Os impactos devem ser sentidos principalmente por clientes de distribuidoras das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul, que recebem parte de sua energia da hidrelétrica binacional de Itaipu, cuja produção é cotada em dólares.

Se o dólar seguir acima dos R$ 4,60, as tarifas das distribuidoras de energia dessas regiões atendidas por Itaipu devem ter uma elevação média no ano de 2%, contra cenário praticamente de estabilidade esperado em janeiro (+0,4%), segundo projeção da empresa de tecnologia TR Soluções.

A consultoria Thymos Energia vê cenário semelhante. A empresa havia projetado em setembro que as tarifas poderiam cair 2%, em média, mas agora trabalha com cenário de estabilidade ou leve aumento, principalmente para as distribuidoras cujos reajustes acontecem mais à frente no ano.

Já a TR Soluções apontava em setembro a tendência de que as tarifas caíssem ligeiramente em 2020, o que interromperia ciclo de altas consecutivas desde 2016, quando as contas de luz recuaram depois de uma disparada vista em 2015, ano em que os reajustes foram superiores a 50%.

Na época da projeção mais otimista, as expectativas do mercado apontavam para dólar a R$ 3,85 em 2020, segundo o boletim Focus. Havia também previsões levemente mais positivas para as chuvas na região das hidrelétricas, principal fonte de geração do Brasil, disse o diretor da TR Soluções, Helder Sousa.

Na última quinta-feira, a moeda norte-americana tocou máxima histórica nominal de R$ 4,66, em meio a impactos do coronavírus sobre a economia global e expectativas no mercado por um possível novo corte de juros no Brasil, impulsionadas por interpretações de operadores sobre um comunicado do Banco Central.

Agora, se a moeda brasileira seguir no atual nível até a reta final do ano, os maiores impactos serão sentidos por distribuidoras de energia das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul, cujos reajustes ou revisões tarifárias ocorrem no segundo semestre.

Um dólar a R$ 4,60 levaria a aumento médio de 3,78% nas tarifas dessas empresas, um grupo que inclui importantes companhias de energia elétrica como Enel São Paulo, Elektro, Enel Goiás, EDP São Paulo e Energisa Sul-Sudeste.

Se a moeda dos EUA ficasse em R$ 4,10, nível esperado em janeiro, os reajustes médios dessas concessionárias seriam de 1,78%, de acordo com simulações da TR Soluções. "São 2 pontos percentuais, esse seria o maior impacto, e isso considerando só o dólar, mantidas outras variáveis", disse Sousa.

O comportamento do dólar já era apontado pela TR Soluções no ano passado como componente que poderia pesar sobre as tarifas de energia em 2020, mas os temores de estavam associados aos efeitos de uma disputa comercial entre China e Estados Unidos.

A produção de Itaipu corresponde a em média de 15% a 20% do volume de energia contratada pelas empresas de distribuição do Sudeste, Centro-Oeste e Sul, segundo a TR Soluções.

A influência é maior para empresas com processos de reajuste tarifário no segundo semestre porque as empresas primeiro arcam com o dólar mais alto que o previsto em suas compras de energia e depois buscam autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para repassar o custo às tarifas.

Fora o dólar, outro fator que pode impactar as contas de luz e gerar aumentos de custos é o volume de chuvas na região das hidrelétricas.

As chuvas começaram o chamado período chuvoso de 2019/20 em níveis bastante abaixo do esperado, mas têm registrado recuperação na região dos principais reservatórios desde o final de janeiro, o que ajuda a elevar o nível dos lagos das hidrelétricas.