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23/06/2008 07h00

Remédio que acaba com o medo

Reinaldo Polito
O medo é um mecanismo de defesa que existe para nos proteger de algo que poderá nos prejudicar ou nos fazer mal. Quando ficamos com medo as glândulas supra-renais liberam adrenalina para aumentar a pressão arterial.

Esse processo prepara os músculos para fugirmos mais rapidamente, enquanto o hormônio é metabolizado. Se nós não fugimos, a adrenalina não é metabolizada como deveria se os músculos estivessem se movimentando depressa.

Como conseqüência ocorre um excesso de energia provocado pela adrenalina, que não é consumido pela atividade física da fuga. Há um descontrole generalizado no organismo, e daí surge o nervosismo. Um desconforto do qual quase todos querem se livrar.

Por isso cada vez mais em minhas aulas e palestras as pessoas me perguntam se o nervosismo que sentem por causa do medo de falar em público poderia ser afastado com o uso de betabloqueadores.

Os betabloqueadores são drogas que ajudam a combater os efeitos do medo. São usados especialmente por pessoas que ficam nervosas diante do público, com o objetivo de melhorar o controle das ações físicas e diminuir a ansiedade.

Estudos desenvolvidos por Liebowitz e outros pesquisadores entre os anos 1980 e 1990, concluíram que, controlados os sintomas do nervosismo, o desempenho diante do público melhorava por causa da diminuição da ansiedade.

Por se tratar de um assunto que exige autoridade médica, entrevistei uma especialista com conhecimentos científicos sobre o tema, a dra. Mellysande Pontes Faccin. Minha entrevistada tem estudado a droga e convivido há anos com a aplicação terapêutica dos betabloqueadores.

Fiz a ela as perguntas que normalmente são levantas pelos alunos em sala de aula e pelos leitores dos meus artigos. Selecionei as questões que despertam maior interesse e que ajudam a esclarecer os pontos mais relevantes da questão.

Dra. Mellysande, o que são e como funcionam os betabloqueadores?
Os betabloqueadores são drogas que reduzem a ação da adrenalina no organismo. Logo, diminuem o batimento cardíaco, a sensação de pânico, a pressão arterial, os tremores nas mãos, só para citar alguns dos seus efeitos.

Esse grupo de drogas surgiu na década de 1970. Seu protótipo, o propanolol, revolucionou a farmacologia na época, a ponto de o seu descobridor, James Black, ganhar o prêmio Nobel.

Para que são usados normalmente?
O betabloqueador é utilizado na medicina como anti-hipertensivo, antiarrítmico, para tratamento de insuficiência cardíaca, cefaléias e alguns casos de síndrome do pânico. É fundamental no tratamento do infarto do miocárdio.

Uma pessoa que tenha medo de falar em público poderá utilizá-los?
Sim, suas ações bloqueadoras são interessantes até para quem precisa fazer uma apresentação em público e tem uma liberação da adrenalina muito acentuada.

Entretanto, como nenhuma droga é isenta de efeitos colaterais, o propanolol mal utilizado pode levar a risco de morte. Se a pessoa tem algum tipo de fobia, precisa ser bem tratada, e, na maioria das vezes, nem é com betabloqueador.

Quem tiver interesse em fazer uso do betabloqueador a quem deverá recorrer?
O tratamento dessas situações de fobia social é feito por um médico, em geral o psiquiatra. Vale muito a pena: tanto pela potencial chance de cura ou de entendimento da doença, como porque essa manifestação do medo pode ser um sintoma de outros desajustes.

Há contra-indicações? Quais os perigos da automedicação? Alguém que se apresente em público todos os dias pode fazer uso do betabloqueador diariamente?
É uma droga que não deve, de maneira alguma, ser tomada sem receita médica, independentemente do motivo da sua utilização. É contra-indicado para pessoas com asma, bronquite, bloqueios cardíacos e, ainda, deve ser utilizado com cuidado em diabéticos.

Os pacientes que utilizam propanolol para hipertensão, por exemplo, tomam a droga por vários anos seguidos. Mas, caso seja tomada todos os dias, não deve ser suspensa abruptamente.

As pessoas podem ficar viciadas com os betabloqueadores?
Não, a droga não gera dependência, nem psíquica, nem física. O organismo também não desenvolve tolerância à medicação. Meu conselho, todavia, é que não use o propanolol como "muleta". Há outros meios para se sair bem diante do público.

Com base nas orientações da Dra. Mellysande, fica claro que os betabloqueadores só deverão ser receitados por profissionais especializados, pois os perigos da automedicação podem até comprometer a vida.

Mesmo sendo recomendados por diversos especialistas, ainda não há confirmação científica de que os betabloqueadores sejam sempre eficazes no combate aos sintomas do medo de falar em público.

Embora não exista o risco de alguém ficar viciado na droga, ela poderá atuar como espécie de "muleta" psicológica, ou seja, pode ocorrer de a pessoa julgar que se saiu bem na apresentação só por causa da droga, sem que tenha havido influência dela.

Bem, por essa discussão você já deve ter percebido que não existe mágica para superar o medo de falar em público e que para enfrentá-lo deverá se dedicar às orientações que já dei em outro texto aqui mesmo no UOL, ou o que realmente vai funcionar -fazer um bom curso de oratória.

SUPERDICAS DA SEMANA
- Não use betabloqueadores sem orientação médica
- Procure combater o medo de falar em público sem uso de medicamentos
- Para combater o medo, conheça o assunto, ordene as idéias e pratique bastante
- O nervosismo bem controlado pode ser útil para você falar bem em público
Livros de minha autoria que tratam desse tema: "Vença o medo de falar em público", "Como falar corretamente e sem inibições" e "Superdicas para falar bem" (também em audiolivro), publicados pela Editora Saraiva
Reinaldo Polito

Reinaldo Polito é mestre em ciências da comunicação, palestrante e professor de expressão verbal. Escreveu 19 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares

Site: www.reinaldopolito.com.br
e-mail: polito@uol.com.br

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