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Como não falar na vida corporativa

Reinaldo Polito

Em casa, conversando com amigos e familiares até dá para manter um papo chororô ou falar sobre temas pessoais. Não que os parentes gostem desse tipo de ladainha, mas como são próximos fingem estar interessados e toleram a chateação. Nessas situações o risco para a imagem é quase zero.

Já não se pode dizer o mesmo sobre a consequência desse tipo de conversa na vida corporativa. No ambiente profissional há uma linha amarela que limita a liberdade de expressão. O jeito de falar pode determinar os rumos da carreira e estabelecer quais as perspectivas de progresso.

Vamos analisar alguns comportamentos que se tornam repetitivos e devem ser evitados para que você possa ampliar suas chances de crescimento profissional. Não são regras inflexíveis, mas ajudam a refletir sobre a conduta mais conveniente quando o assunto é comunicação.

Oh, Deus, oh, vida. Quantas pessoas você conhece que se habituaram tanto a reclamar da vida que, antes mesmo de se perguntar “como vai?”, já se sabe qual será a resposta: “Está tudo cada vez mais difícil; estou trabalhando demais; pareço um condenado (essa parte da resposta é que não consigo entender - condenado onde?).

E não para por aí. Estou sempre correndo; não tenho tempo nem para respirar; tudo de ruim acontece comigo; a vida tem sido uma madrasta. E o mais interessante da história é que são sempre as mesmas pessoas. Com a mesma forma lamuriosa de expressar sua história e de encarar a vida.

Se você entrar nesse alçapão, especialmente no relacionamento profissional, esteja preparado para se livrar dele. Mude sua maneira de falar e adote uma postura diferente. Veja a vida por outros ângulos e reflita se é verdade mesmo que os fatos ocorrem sempre da mesma maneira.

Se for sincero com você mesmo, verá que sua história e a maneira de falar da vida poderá ser modificada. E se quiser dar uma reclamada de vez em quando vá em frente, que ninguém é de ferro. Deixe para resmungar, entretanto, no aconchego do lar, onde poderá encontrar colo para seus desassossegos.

No fim tudo vai dar certo. Por mais animadora que seja essa expressão, em determinadas circunstâncias mais atrapalha do que ajuda. Você ali com aquele problema de tirar o sono e sair da mesa sem tocar no prato de comida e chega aquele tomado pelo complexo de eterna Poliana dizendo: “No fim tudo vai dar certo”.

Ele não sabe bem qual é o assunto e muito menos o que efetivamente nos preocupa. Mas, acostumou-se tanto a dizer que no fim tudo vai dar certo, que essa será sempre a sua mensagem, independentemente do assunto tratado e do tamanho do problema que precisa ser resolvido.

Se no dia a dia da vida corporativa você tropeçar nessa outra armadilha, reflita sobre a possibilidade de poder se inteirar mais do assunto antes de fazer sua profecia. Talvez descubra que naquele determinado momento o comentário mais apropriado seria: “Rapaz, que problemão! Eu na sua pele não saberia nem por onde começar”.

Você poderia dizer: mas você não está se esquecendo da importância do otimismo? Não, não estou fazendo culto ao pessimismo, só estou pedindo para refletir sobre a inadequação desse otimismo automático, vazio, sem respaldo, desenvolvido pela força do hábito, que nos escraviza e nos obriga a adotar sempre o mesmo discurso.

Minha última viagem. Essa conversa nem a família aguenta. E o pior é que não é apenas a última, mas também a penúltima, a antepenúltima e tantas viagens quantas puder encaixar no tempo disponível para seus relatos. É só aparecer a pessoa e já sabemos que o assunto será o mesmo do princípio ao fim - viagens.

O hábito às vezes é tão forte que mesmo você dizendo que já visitou aquele lugar diversas vezes, não haverá cristão que o remova da intenção de falar daquela que ele fez. Já presenciei pessoas tão apaixonadas pelas próprias viagens que chegam, numa mesma conversa, a contar sua aventura mais de uma vez.

Se você for picado pelo vírus do Marco Pólo, jogue a âncora e resista à tentação de falar somente sobre viagens. Falar de uma viagem de vez em quando também não estraga a festa de ninguém, ao contrário, poderá ser até um assunto muito estimulante. O que não se pode é adotar essa narrativa no ambiente de trabalho e pensar que só existe esse assunto e que todas as pessoas irão se interessar por ele.

Meu último projeto. É muito bom ouvir pessoas falando com entusiasmo sobre o trabalho que desenvolvem. Além de termos a oportunidade de aprender um pouco sobre suas atividades, também descobrimos como elas contornaram situações profissionais delicadas, informação que nos poderá ser bastante útil.

Daí a adotar, todavia, esse assunto como narrativa permanente, nem gerente de RH vai aguentar. O trabalho consome a maior parte do nosso tempo e é lógico e muito natural que falemos das nossas atividades profissionais. Alguns, entretanto, acordam trabalho, almoçam trabalho, jantam trabalho e dormem trabalho. Por isso, na hora de falar só existe um assunto que conseguem abordar - trabalho.

Reflita como você tem se comportado com relação a esse tema e analise se não está exagerando na sua narrativa profissional. Se perceber que está aprisionado a esse tipo de discurso, principalmente na convivência com os colegas da empresa, vire o disco e passe a tocar outras músicas.
 

SUPERDICAS DA SEMANA

Não fale só sobre trabalho
Não fale muito de suas viagens
Não desenvolva o hábito de reclamar
Não diga o tempo todo que tudo vai dar certo
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Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: “O que a vida me ensinou”, “Como falar corretamente e sem inibições”, “A influência da emoção do orador” e “Superdicas para falar bem” (também em audiolivro), publicados pela Editora Saraiva
Reinaldo Polito

Reinaldo Polito é mestre em ciências da comunicação, palestrante e professor de expressão verbal. Escreveu 19 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares

Site: www.reinaldopolito.com.br
e-mail: polito@uol.com.br

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