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28/04/2010 - 15h58

Muita energia no trabalho nem sempre é bom e pode prejudicar a carreira

SÃO PAULO – Parece o profissional perfeito. Dá sugestões e quer participar de todos os projetos que aparecem, mas, para desenvolvê-los, ultrapassa seu escopo de trabalho e delega para si responsabilidades que não lhe cabem e, mesmo com uma infinidade de tarefas sob a mesa, ainda quer mais.

Ser uma pessoa “pilhada” no trabalho nem sempre é bom. E o que parece ser o ideal pode ser prejudicial para os dois lados: para o profissional com esse perfil e para a empresa que não consegue identificá-lo. Diferentemente da hiperatividade, a energia que muitos profissionais apresentam pode esconder muitos aspectos.

Para a psicóloga e vice-presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida, Sâmia Simorro, é complicado generalizar. “Precisamos avaliar cada caso”. Para ela, existem diversos fatores que podem levar os profissionais a serem muito enérgicos, incluindo o próprio ambiente de trabalho. Mas dois ganham destaque: a insegurança e a demanda de tarefas.

Além desses, esse perfil também pode mascarar a falta de organização do profissional. É o que acredita a diretora da Consultoria da Ricardo Xavier Recursos Humanos, Neli Barboza, que define essa disposição exacerbada de síndrome da onipotência. “Por mais energia que você tenha, é difícil manter um planejamento ao longo do dia do trabalho”, afirma.

Energia demais pode mascarar problemas

“Algumas pessoas são de fato comprometidas e não possuem uma equipe que pode ajudá-las nas tarefas e, por isso, tomam para si muitas responsabilidades. Outras absorvem tarefas por insegurança”, avalia Sâmia. Ela acredita que, nos casos em que o profissional é inseguro, é possível detectar ainda um perfil centralizador. “Algumas pessoas querem estar por dentro de tudo o que acontece, porque querem ser indispensáveis”.

Sâmia explica que esse profissional, além de centralizador, é extremamente competitivo. Nesse caso, a competitividade não é saudável, porque esconde uma necessidade de o profissional mostrar à empresa que pode executar tarefas que, muitas vezes, não consegue, para mostrar que é competente - o que pode não dar certo.

Além de lotar a própria mesa de tarefas, essas pessoas não as repassam para outros membros da equipe. “Isso não é bom, porque as pessoas não conseguem cumprir as tarefas”, afirma a psicóloga. E, nesse cenário, até a empresa pode sair perdendo. “Se essa pessoa sai da equipe, ela acaba levando todo o conhecimento com ela e a empresa vai demorar para conseguir reverter isso”.

Um profissional com tamanha iniciativa pode se prejudicar no trabalho, principalmente nos ambientes corporativos atuais, que já requerem profissionais “multitarefas”, como explica Neli. “Se a rotina for fixa, essa característica pode ser positiva, mas isso é muito difícil de acontecer hoje. Dentro do planejado, se houver qualquer alteração, isso gera muita frustração”. Frustração do líder, que não viu resultados, e do profissional, que não conseguiu cumprir as tarefas.

Neli ainda ressalta que não é só insegurança que está por trás dessa característica enérgica do funcionário. Para ela, ficar delegando tarefas para si também pode mostrar incompetência de planejamento. “Pode ser insegurança, medo de não agradar, mas é principalmente a falta de autopercepção, de planejamento”, completa.

Canalizando a energia de modo saudável

Para Sâmia Simorro, também cabe aos gestores e líderes identificarem o quanto a energia de determinado funcionário pode se tornar prejudicial. “Ele deve direcionar essa energia de forma positiva”, afirma. A tarefa não é fácil. Mas, para Neli, é possível. “Basta que a empresa aponte o problema para o funcionário”.

Isso porque, segundo ela, muitas vezes esse perfil mais centralizador do profissional "pilhado" pode não ser tão evidente para ele mesmo. “Nem sempre é consciente. Se for, é possível identificar no momento da contratação, na entrevista”, diz. Se não for, somente durante o desempenho do profissional é que essa característica ficará mais evidente, até para ele.

Para fazer essa identificação, o líder precisa ter um olho clínico e muita experiência com a equipe. Questões práticas também ajudam. “Ele deve acompanhar o processo de trabalho”, acredita Sâmia. Isso significa que o gestor deve delegar as tarefas para cada subordinado e acompanhar o andamento de cada uma delas.

Nesse processo, o líder deve verificar se o profissional executa as tarefas pedidas ou se mesmo com elas em andamento ele toma para si mais responsabilidades. O gestor precisa saber os motivos pelos quais esse funcionário delegou para si mais tarefas. Como afirma a psicóloga, isso não é simples, até porque os processos de trabalho são diferentes em cada ambiente profissional e caberá à empresa avaliar caso por caso. “Para conseguir fazer isso, ele precisa saber gerenciar conflitos e mediar cada caso”, avalia Sâmia.

Ultrapassando barreiras profissionais

Para o profissional que se considera “pilhado”, as consequências de uma energia acima do comum podem sair pela porta do escritório e entrar na vida pessoal. Pessoas com muita energia, mas que não chegam a ser hiperativas, podem ter problemas em seus relacionamentos interpessoais e até de saúde.

A psicóloga explica que, como elas são muito ansiosas, chegam a ter problemas de sono e concentração – o que prejudica ainda mais a carreira, como em um círculo vicioso. “Esse profissional nunca relaxa, está sempre tenso”, diz Sâmia.

Além disso, ela acredita que, como são centralizadoras, essas pessoas podem não dar espaço para o outro existir, dificultando ainda mais o relacionamento fora - e dentro - do ambiente de trabalho.

Aprendendo a dizer “não”

Mudar essas características não é nada simples, mas é possível. Para Neli, o profissional deve ter ciência do seu comportamento dentro da empresa, uma vez que existem líderes que podem não querer investir na solução do problema desse funcionário. “Ele precisa olhar o ambiente de trabalho e perceber qual é o acúmulo de tarefas que ele tem”, aconselha Neli.

Fazer um planejamento com base nessa análise é fundamental. Aprender a dizer “não” também. Para Neli, se um profissional tem uma lista de tarefas a ser executada, ele deve cumpri-la e, na medida do possível, recusar mais responsabilidades até que as anteriores estejam totalmente resolvidas. “Dizer 'não' é uma questão de consciência”, diz, explicando que, ao delegar para outros membros da equipe tarefas que ele sabe que não conseguirá cumprir, o profissional passa ao seu gestor a percepção de segurança, de organização e até de liderança.

“Essas pessoas precisam exercitar o equilíbrio emocional”, acredita Sâmia. Para a psicóloga, elas precisam entender que tomar para si tarefas e mais tarefas no trabalho não vai garantir o emprego nem vai provar que elas são competentes. “O ideal é você fazer o que lhe cabe, da melhor forma possível”. Adquirir mais responsabilidades, a partir daí, é uma consequência natural.

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