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20/07/2010 - 13h52

Área de atuação diferente da de formação: situação pode ser vantajosa para carreira

SÃO PAULO – Quando Sabrina Regiane Colla, 33, formou-se em Propaganda e Marketing, o mercado de trabalho não estava muito bom. O ano era 1998 e ela não conseguiu um espaço na sua área de formação. E esse fato foi decisivo para que hoje ela atue como guia de turismo. Sabrina não é a única que trabalha em uma área distinta da de formação.

Essa realidade é mais comum do que se imagina e diversos fatores ajudam a compor o cenário. “Muitas vezes, após formados, os profissionais não encontram oportunidades no mercado”, afirma a consultora em Recursos Humanos do Grupo Soma Desenvolvimento Corporativo Jane Souza. Além disso, muitos profissionais já desistem de atuar na área de formação antes mesmo de terminar a faculdade, por já estarem em outra área ou mesmo por descontentamento. Para o diretor executivo da Ricardo Xavier Recursos Humanos, Marshal Raffa, mesmo descontentes, muitos profissionais continuam estudando para completar a formação.

O descontentamento foi o principal motivo que levou Rita Santander, 31, a desistir do Jornalismo. “Desde que eu me formei, não tinha encontrado um trabalho que me satisfizesse”, afirma. Formada em 2002, ela começou a mudar de área em 2005, quando foi chamada para ser sócia em um estúdio de fotografia. E hoje, ela é artesã. “Esse era um projeto antigo”, diz Rita.

A realização pessoal também é apontada pelos especialistas como um motivo para a existência de tantas pessoas trabalhando em um mercado tão diferente daquele de formação. Esse fator também pesou na decisão de Sabrina. “Eu já tinha essa ideia de ser guia antes mesmo de me formar em Publicidade”, conta.

Aproveitando oportunidades

A união de mercado saturado, desejos não realizados e talentos escondidos criam, na avaliação dos especialistas ouvidos, um contingente de profissionais que atuam em uma área mesmo graduados em outra. E isso é ruim? Não. Diante de situações difíceis, buscar outros caminhos (e se dar bem) é sinal de versatilidade.

“Sempre temos de buscar alternativas e o profissional que está nessa situação pode tentar alinhar pontos em comum entre as áreas de formação e de atuação”, explica Jane. “Ele não precisa jogar essa formação fora e, dependendo da área em que ele atua, isso pode ser até um diferencial”, completa a consultora.

O diretor da Ricardo Xavier lembra que o mercado está em constante mudança. “E mudanças criam oportunidades”, diz. “Isso permite, muitas vezes, no meio do caminho, descobrirmos talentos escondidos”, ressalta Raffa. Para ele, não existem tempos perdidos e, assim como reforça Jane, aliar os conhecimentos teóricos, adquiridos na faculdade, com a prática de outra área só agrega ao profissional.

Rita sabe bem o que isso significa. Ela aproveitou a oportunidade de ser sócia de um estúdio de fotografia e só ganhou com isso. “Com o tempo livre que tinha, comecei a me dedicar mais ao artesanato”, afirma. Sabrina também não se desesperou pelo fato de não ter conseguido uma colocação na área de formação. Depois de formada, ela abriu uma franquia e atuou nesse mercado por oito anos. Só depois de ter adquirido um pouco mais de estabilidade econômica começou a investir no desejo de ser guia de turismo.

Para as duas, o conhecimento adquirido na faculdade só as ajudou a trabalhar melhor hoje. “O Jornalismo ajudou muito na questão do modo de tratar as pessoas, a me comunicar com elas”, afirma Rita. “Até para criar um produto viável, a faculdade me ajudou muito. Minha formação não foi perdida”, completa a artesã.

E ainda que os profissionais não utilizem os conhecimentos vistos na faculdade, eles formam uma bagagem cultural importante não só para a carreira como para a vida pessoal. “Toda a informação transformada em conhecimento se torna capital intelectual”, reforça Raffa. “É possível tirar proveito de toda essa informação de alguma forma. Esse conhecimento pode ser um facilitador em alguma situação. No mínimo, é um agregador”, completa.

A hora de voltar

Sabrina e Rita estão contentes com o que trabalham hoje e nem pensam em voltar para as profissões de graduação. Mas, se vários fatores fazem muitos desistirem (às vezes, forçados) de atuar na área de formação, outros tantos fazem com que profissionais queiram retornar às origens. Contudo, o caminho para eles é mais difícil que para um recém-formado. “Essa questão é delicada”, diz Raffa. O diretor da Ricardo Xavier explica que é preciso cuidado ao querer voltar depois de uma longa experiência em outras áreas.

Isso porque o mercado pode encarar esse profissional como uma pessoa versátil ou como alguém que ainda não sabe o que quer, cuja carreira ainda não tem foco. “É uma questão que a gente levanta durante o processo de seleção”, afirma Jane, do Grupo Soma. “Durante as entrevistas, vemos se essa situação decorreu por questões pessoais ou por indecisões e, assim, conseguimos perceber se existe consistência no entrevistado”, reforça.

“O que de fato ele quer?”. Para Raffa, essa é a primeira pergunta que o profissional deve fazer antes de deixar o trabalho atual para tentar entrar na área de formação. Depois disso, é preciso observar o mercado - para perceber se, de fato, existem oportunidades - e se atualizar. “Essa volta é possível, mas quem quiser fazer isso tem de entender que vai competir com profissionais que já estão na área”, lembra Jane.

“Ele deve buscar o mercado ciente de que vai voltar em um patamar abaixo”, diz Raffa. Isso significa uma remuneração menor que a atual. Por isso, para aqueles que se encontram nessa situação, Jane aconselha a fazer uma análise da situação financeira.
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