! Análise: crise financeira pode atenuar impacto econômico da gripe - 01/05/2009 - BBC Brasil
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01/05/2009 - 04h48

Análise: crise financeira pode atenuar impacto econômico da gripe

Muitas pessoas no mercado e em outros lugares estão tentando estimar quais serão os eventuais custos para a economia global do surto de gripe suína. Com certeza, nenhuma dessas pessoas tem ainda alguma noção do tamanho que podem ter essas perdas.

Para alguns, o impacto pode ser bem grande, porque a economia global já se encontra em um estado de fragilidade por causa da crise financeira.


À primeira vista, esse argumento parece sensato. Poderíamos até dizer que o sistema imunológico da economia global está muito debilitado para lidar com acabar com esta doença (a crise).

Mas o oposto também pode ser verdadeiro. O custo econômico do surto desse vírus pode ser, na verdade, menor do que se ele tivesse acontecido em um momento diferente.

Isto porque grande parte dos ganhos de produtividade que poderiam ser perdidos por causa do vírus já foi perdida para a recessão econômica.

Para colocar de modo mais simples: se, por causa da epidemia, pessoas desempregadas são obrigadas a ficar em casa por algumas semanas, isto tem um custo econômico menor do que se elas estivessem empregadas.

Além disso, se, graças à crise econômica, as pessoas já estão indo menos a restaurantes, cinemas, entre outras coisas, a queda no consumo por causa da gripe acaba sendo menor do que se ela tivesse aparecido em outra época.

É claro que não podemos ir muito longe com este argumento. Qualquer pandemia que mate milhões de membros da população economicamente ativa teria um enorme impacto de longo prazo em nossa produtividade potencial, não importando se elas estivessem empregadas ou não.

Mas, supondo que este surto seja parecido com o da Sars (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2003, com uma interrupção ampla, mas de curto prazo, na atividade econômica normal, é possível que o impacto econômico -em meio a uma recessão- seja menos visível do que se isto tivesse acontecido há alguns anos.

Pessimismo
Muitos dos analistas que afirmam que as perdas econômicas podem ser altas se baseiam em um estudo feito pelo Banco Mundial no ano passado, que aponta que uma epidemia de gripe global poderia custar cerca de 5% do PIB mundial, ou seja, mais de US$ 3 trilhões.

Esta previsão se baseia na suposição de que a eventual epidemia tenha as proporções da chamada "gripe espanhola", de 1918, que infectou quase um terço da população mundial e matou cerca de 50 milhões de pessoas.

O estudo diz que um surto desta magnitude levaria o mundo a uma depressão. É claro que é possível que isto ocorra. Mas alguns especialistas sugerem que as chances de uma catástrofe do tipo são pequenas.

Atualmente, nós temos drogas antivirais que não existiam na época. Além disso, segundo eles, outras versões do vírus da gripe já afetam dezenas de milhões de pessoas todos os anos, matando cerca de meio milhão, sem levar a uma pandemia desta escala.

No caso da recente e menos alarmante Sars, na China e em Hong Kong, mais de 700 pessoas morreram e, de acordo com o Banco de Desenvolvimento da Ásia, as perdas em produção para a economia da região foram entre US$ 18 bilhões e US$ 60 bilhões -ou entre 0,5% e 2% do PIB regional.

Segundo Julian Jessop, economista-chefe da consultoria Capital Economics, mesmo no caso da Sars, os custos para a economia acabaram sendo menores do que se temia inicialmente.

Se analisarmos os dados sobre as vendas no varejo da China na época, ela provocou uma pequena interrupção, e nada mais que isso. Muitas das perdas foram recuperadas mais tarde, quando as pessoas fizeram as aquisições que haviam adiado anteriormente.

Otimismo desinformado não é melhor que pessimismo desinformado. Mas, se estivermos observando agora uma epidemia na escala da Sars, minha aposta é que o mesmo vai ocorrer. Os custos serão menores do que muitos temem.

De qualquer forma, com a economia global fraca como está, seria muito melhor que não tivéssemos que enfrentar uma ameaça como esta.

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