! Crise faz jovens espanhóis buscarem emprego nas Forças Armadas - 17/06/2009 - BBC Brasil
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17/06/2009 - 07h31

Crise faz jovens espanhóis buscarem emprego nas Forças Armadas

A Espanha tem a mais alta taxa de desemprego entre os países da União Europeia, mas não são todos os espanhóis que estão reclamando. Um dos grandes beneficiados pela crise econômica no país são as Forças Armadas. Com a taxa de desemprego entre a população jovem atingindo cerca de 36%, a mais alta da Europa, o número de recrutas quase dobrou. Pouco antes das 9h da manhã, jovens já começam a formar uma fila em um posto de recrutamento das Forças Armadas, no centro de Madri. Assim que as portas são abertas, eles passam por uma inspeção de segurança e entram em fila em um escritório espaçoso decorado com cartazes que mostram jovens sorridentes usando uniformes.

Eles vieram para se encontrar com representantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, na esperança de descobrir um novo futuro.

A maioria daqueles que busca a carreira militar foi trazida pela dura realidade econômica da Espanha.

"Estou aqui por causa da crise", diz Emilio, de 18 anos.

"Eu preciso de um emprego e isto (a carreira militar) paga um salário fixo. Eu era serralheiro, mas eles me demitiram há quatro meses. Meu dinheiro está acabando e estou aqui porque preciso comer", diz. "Neste momento, não há muitos empregos, então o Exército é bom porque é um trabalho estável", diz Felipe, que também tem 18 anos. "Tudo que encontrei até agora era temporário, então estou em busca de algo mais seguro", diz.

Outro candidato, Jorge, de 20 anos, já tem um bom emprego perto de sua casa, mas quer se tornar um paraquedista ou se juntar às forças especiais. "No meu caso, é uma vocação, diferente de muitas pessoas que veem isso como mais um emprego". Oportunidades Não são apenas os espanhóis que buscam trabalho nas Forças Armadas do país. Robert, de 19 anos, veio do Equador. Ele quer se juntar às Forças Armadas porque as vê como uma oportunidade de estudar gratuitamente. "Gosto do que fazem aqui, há muito esporte e tenho a oportunidade de estudar informática", diz.

Outros imigrantes enxergam as Forças Armadas como uma maneira de conseguir a cidadania espanhola. Uma cota de 9% do efetivo das Forças Armadas espanholas pode ser formada por nativos da América Latina.

Procura Em Madri, as inscrições para fazer parte das Forças Armadas aumentaram em cerca de um terço. Segundo o coronel Juan Carlos Aneiros Gallardo, o aumento na procura se deve a melhorias nas condições de vida, de treinamento profissional e perspectivas de carreira para jovens recrutas. "Naturalmente, estamos felizes, porque isto permite que as Forças Armadas façam uma melhor seleção e aumentem não apenas a quantidade, mas também a qualidade de nossos soldados".

Em outras partes da Espanha, há cerca de quatro candidatos para cada vaga.

O aumento na procura fez com que, pela primeira vez desde que a Espanha aboliu o serviço militar obrigatório, em 2001, as Forças Armadas não precisem batalhar para atingir o seu efetivo total de 86 mil homens.

Julian Perez, do sindicato dos oficiais, afirma que eles também estão detectando um aumento do interesse de jovens em se juntar às Forças Armadas.

"Este ano, tivemos 40 mil candidatos, no ano passado foram 27 mil", diz Perez.

"Não estamos surpresos de forma nenhuma. A situação econômica os forçou a fazer isso. Toda vez que temos uma crise econômica, as pessoas buscam segurança".

Empregos Três horas da tarde. Hora do almoço na cantina da Universidade Complutense de Madri, uma das principais da Espanha. No grande campus da universidade, 80 mil estudantes frequentam cursos que vão de artes a engenharia. Um estudo recente mostra, no entanto, que 93% dos estudantes espanhóis estão preocupados com suas perspectivas de emprego. Carlos Pascual se formou na Complutense há dois anos. Ele também estudou na Holanda e trabalhou em Praga, na República Checa, por um tempo.

Mesmo assim, Pascual está desempregado há três meses, depois de ter sido demitido de uma agência de viagens de Madri por causa da crise econômica. Sua vida não está como ele imaginava.

"Eu estudei na universidade por cinco anos, viajei para o exterior para aprender inglês. Pensar em trabalhar em uma fábrica ou como garçom de um bar é um tanto deprimente", diz.

"Decidi ir para a casa dos meus pais por que não quero pagar aluguel. Comecei uma pequena parte de minha vida como adulto e tenho que recomeçar", afirma.

Ele filosofa sobre o futuro de sua geração: "Espero que seja um futuro bom, mas estamos um pouco perdidos agora".

Lourdes Garcia, chefe do centro de orientação vocacional da universidade afirma que muitas pessoas que se formaram há alguns anos estão voltando em busca de aconselhamento.

"Vemos várias pessoas que foram demitidas de órgãos de imprensa, assim como de áreas como publicidade e arquitetura. Estamos também aconselhando alguns administradores e executivos que tinham posições boas, bons currículos, mas que perderam seus empregos".

Preocupação Em uma noite quente, jovens se reúnem em uma praça no centro de Madri.

Passa da meia-noite, mas o clima ainda está quente. Cerca de 200 jovens estão sentados de pernas cruzadas no chão, reunidos em pequenos grupos. Eles comem pizza e bebem cerveja em lata. A todo momento, comerciantes chineses passam oferecendo mais cerveja. Arancha e seus amigos são estudantes perto de se formar na universidade. Quando perguntados sobre como veem seu futuro, sempre pronunciam a palavra "medo".

"Tenho medo do meu futuro. Eu vou continuar estudando, mas é difícil, não tem emprego, dinheiro, nada", diz Arancha. "Minha irmã se formou há dois anos e também está nervosa, porque todo mundo que ela conhece está sendo demitido".

"Quando penso no futuro, sinto frustração e medo, medo de não conseguir trabalhar com algo que eu realmente queira fazer, que me faça feliz", diz Tere.

Já Daniel afirma estar pensando em procurar emprego fora do país. Para ele, nos próximos anos, será difícil que existam empregos para todos os jovens que se formam na Espanha.

"Há muitos jovens e, durante alguns anos, será impossível absorver todos eles, porque as empresas não terão se recuperado. É momento de procurar trabalho fora", diz.

Apesar da preocupação, este não parece ser um assunto sobre o qual queiram falar no momento. "Aqui na Espanha gostamos de ir com calma. Está calor, estamos todos aqui, tentando não pensar muito sobre isso", diz Arancha.

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