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09/09/2009 - 07h31

Capital da ardósia em Minas Gerais sofre com a crise

O mundo inteiro sentiu o impacto da crise financeira. Mas a cidade de Papagaio, no interior de Minas Gerais, foi um daqueles lugares em que a batida foi de frente.

A economia da cidade depende em cerca de 80% da produção de ardósia. E mais de 90% da produção da pedra eram exportados para a construção civil nos Estados Unidos e na Europa - exatamente os setores mais afetados pela crise.

Neste último ano, foram fechadas 3,2 mil postos de trabalho dos cinco mil que existiam nas mineradoras e serradoras do município, o principal da chamada "província da ardósia de Minas Gerais".

"O impacto aqui foi imediato. Em agosto do ano passado começou a crise lá e já em agosto nossas vendas começaram a despencar", diz a presidente da Associação dos Mineradores e Beneficiadores de Ardósia de Minas Gerais (Amar-MG), Raquel Capanema.

O empresário Emilio Bouza foi um dos mineradores que suspenderam as atividades na pedreira por conta da queda na demanda.

"O que eu conseguia vender não cobria meu custo de operação e ainda ia acabando com a mina. No ano passado, o setor exportou mais de US$ 100 milhões, mas este ano não vamos nem chegar aos US$ 50 milhões", disse Emilio.

Problema social A pacata cidade do interior já começa a conviver com mais freqüência com problemas velhos conhecidos nas grandes metrópoles.

"Já se percebe um aumento na criminalidade e na violência no município, mais uso de drogas, tanto licitas como ilícitas", relata o prefeito Mario Reis (PSDB).

O motorista Sergio Silva contou sobre um assalto recente à casa de um vizinho.

"Isso nunca acontecia por aqui agora tem cada vez mais. A gente também nunca via gente catando resto no lixo e isso agora também já acontece", disse.

Falta de opção Uma grande dificuldade é a pouca qualificação de grande parte dos trabalhadores na mineração de ardósia. Com a economia concentrada só num produto, fica difícil encontrar emprego quando as mineradoras demitem.

"Aqui não tem outro serviço, é só ardósia mesmo. Tem umas fábricas de cerâmica que estão começando mas tem pouco emprego ainda", conta o desempregado Carlos Alexandre.

Muita gente de fora que tinha vindo trabalhar em Papagaio já voltou para suas cidades de origem e agora o município começa a perder seus próprios cidadãos.

"Eu vou embora para Pirapora (de Minas, também no interior do Estado) para trabalhar em construção. Não adianta, aqui em Papagaio não tem trabalho e daqui a pouco meu seguro desemprego acaba", disse Antônio Marcos.

Cigarros Quem fica acaba tendo que sobreviver na informalidade. É o caso de Sebastião da Costa, que serrou ardósia por 20 anos até ser demitido seis meses atrás.

"Eu já estava meio doente e não era fácil aquele serviço pesado, mas se não tivessem me demitido eu estaria ainda lá, trabalhando", disse.

Hoje ele recolhe palha de milho nas plantações da região, para a mulher fazer cigarros com fumo de rolo e vender no bairro.

"Alguma coisa a gente tem que fazer pra viver porque emprego não tem. Precisa entrar um dinheiro para eu pagar meu aluguel, que já está três meses atrasado, e para poder ir no armazém fazer uma boa compra para encher a pança dos meus filinhos", disse Sebastião.

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