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14/09/2009 - 04h55

"G8 não tem legitimidade para discutir crise econômica", diz Lula

Américo Martins

Editor-executivo da BBC para as Américas
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, criticou duramente os "países ricos", o G8 e outros organismos internacionais, e responsabilizou os governos de países desenvolvidos pela crise econômica mundial.

"Os governos dos países ricos são os culpados (pela crise) por que não cuidaram da regulamentação do mercado", disse o presidente, em entrevista exclusiva à BBC sobre o colapso do sistema financeiro global.

Lula se posicionou como uma espécie de porta-voz informal dos países em desenvolvimento desde o começo da crise. Ele vem defendendo o que acredita ser os interesses dos pobres em lugares como América Latina, África e Ásia, pedindo mudanças no sistema financeiro global.

Na entrevista com a BBC, Lula afirmou que os governos dos países ricos "sabiam como dar palpite em tudo sobre a economia dos países em desenvolvimento. Agora, quando a dor de barriga aconteceu com eles, eles não sabiam como agir".

Suas críticas também foram dirigidas a instituições econômicas internacionais: "O FMI não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. O Banco Mundial não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. E os governos também não tinham!"

"Banqueiros de olhos azuis"

O presidente Lula também insistiu em afirmar que a crise foi criada por banqueiros brancos de olhos azuis no mundo rico. A expressão causou polêmica quando o líder brasileiro a pronunciou pela primeira vez, em março deste ano, ao lado de Gordon Brown, durante visita do primeiro-ministro britânico a Brasília.

Àquela época, Lula foi criticado por ter usado a expressão, considerada por muitos como inapropriada, quase racista. Durante essa entrevista, gravada para a série especial "The Love of Money", da BBC 2, o presidente disse que não se arrependia, e voltou a falar da mesma forma.

"Aquilo que eu queria dizer está mais forte hoje do que estava na época. O que eu quis dizer era que não eram os índios ou os negros que deveriam pagar a conta (pela crise), mas sim os responsáveis pela crise, que eram os banqueiros de olhos azuis. E que não jogassem a culpa em cima dos pobres do mundo, como sempre acontece quando tem uma crise econômica", disse Lula.

O presidente, entretanto, parece muito confiante em que os líderes do G20 (o grupo das 20 maiores economias do mundo) consigam encontrar soluções para a crise, se continuarem a trabalhar juntos.

Eles se encontrarão novamente para discutir a crise em Pittsburgh, nos EUA, nos dias 24 e 25 de setembro, e o Brasil espera influenciar o debate, pedindo a consolidação do grupo e mais mudanças no sistema financeiro.

Lula defendeu o grupo, afirmando que o G20 está se tornando um fórum extremamente importante para debater e encontrar soluções para a economia. Ele também argumenta, entretanto, que o grupo deve ampliar seus objetivos e começar a discutir e implementar políticas para acelerar o desenvolvimento de países pobres.

"Espero que não seja um fórum apenas para resolver o problema da crise. Os pobres do mundo, os emergentes do mundo são chamados apenas para resolver o problema da crise e, quando a crise terminar, acaba-se com o G-20 e volta ao G-8".

De acordo com o presidente brasileiro, o G8 não tem credibilidade para lidar com os novos desafios da economia global.

"O problema é que o G-8 é um clube fechado. Do ponto de vista da discussão da crise econômica, acho que o G8 não tem legitimidade", disse ele. Leia abaixo a entrevista do presidente Lula à BBC.

BBC - Dia 15 de setembro de 2008. O banco de investimentos Lehman Brothers quebra. O senhor pode me contar como foi informado da quebra? Como o senhor recebeu a notícia? Qual foi o impacto dela?
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
A notícia foi dada com muito destaque em todos os meios de comunicação do Brasil. Lembro que no dia seguinte fizemos uma reunião com o Ministério da Fazenda e o Banco Central para discutir os efeitos da quebra do Lehman Brothers. E, na verdade, o que constatamos é que a quebra do Lehman Brothers era apenas o resultado de um modelo econômico que estava falindo, de um modelo baseado na especulação financeira, que tinha dado sinais muito fortes (de fragilidade) um ano antes. Lembro que estava no Panamá quando saíram as primeiras notícias do subprime, dos títulos imobiliários americanos, eu estava numa reunião empresarial. Alguns empresários ficaram preocupados, alguns brasileiros, e comecei a brincar, perguntando se alguns deles tinham dinheiro aplicado no subprime. A partir dali fazíamos reuniões mensais (de avaliação da crise do subprime) no Brasil, até que quebrou o Lehman Brothers. Aí acho que chegamos ao ápice da crise porque, com a quebra do Lehman Brothers, a sequência natural foi a extinção do crédito internacional. Acabou o crédito para todo mundo, sumiram os dólares que estavam passeando pelo mundo. Diziam que havia trilhões e trilhões de dólares atravessando o oceano e, de repente, desapareceram esses dólares. Não tinha mais crédito no mundo e isso teve, inclusive no Brasil, efeitos muito desastrosos.

BBC - Especificamente no dia ou no dia seguinte, com quem o senhor conversou? Em que momento o senhor entrou em contato com os Estados Unidos, por exemplo? Quem é que lhe deu a notícia?
Lula
Na verdade não entrei em contato com os EUA porque havia contatos do ministro da Fazenda brasileiro com o ministro americano, do presidente do Banco Central brasileiro com o do Banco Central americano. Minha conversa era diretamente com o pessoal da área econômica brasileira. Começamos a sentir problemas mais sérios, como a falta de crédito. Empresas como Petrobras, Vale do Rio Doce, tinham problemas de tomar dinheiro lá fora. Nossos exportadores começaram a ter problemas e problemas. Antes fazíamos uma avaliação de que a crise chegaria no Brasil com um efeito muito pequeno. Não apenas economistas do governo, mas economistas da oposição. Todo mundo dizia que por conta do subprime a crise seria muito pequena no Brasil. Até que quebra o Lehman Brothers. O que aconteceu? Tivemos em setembro, outubro, novembro e dezembro muito pânico junto ao empresariado brasileiro, aos meios de comunicação.

Acho que houve um exagero de setores empresariais brasileiros. Como a indústria automobilística, que deu férias coletivas no final do ano, ficou praticamente um mês sem produzir para desovar o estoque. (Isso) causou um impacto muito grande no PIB industrial, coisa que não precisaria ter causado. Alguns empresários que estavam com projetos de investimentos já aprovados pelo BNDES pararam para ver o que estava acontecendo. E aí todo mundo começou a ficar com medo. Fui à TV no dia 22 de dezembro convocar o povo a comprar, porque dizia-se que se o povo comprasse, fizesse dívida e ficasse desempregado, não teria como pagar. Eu fui dizer que se ele não comprasse poderia perder o emprego, porque a economia ficaria atrofiada. O dado concreto é que no comércio varejista continuamos crescendo. Ninguém reclamou. O povo continuou consumindo e o Estado continuou fazendo seus investimentos, ou seja, a crise se deu exatamente na iniciativa privada, no sistema financeiro, no crédito internacional. Porque também os bancos brasileiros não estavam subordinados à especulação como estava a economia internacional. Porque nós temos uma regulamentação em que o sistema financeiro só pode alavancar até 10 vezes seu patrimônio líquido, quando no exterior você poderia especular 30 vezes, 35 vezes.

BBC - Voltando um pouco, presidente, em que momento exatamente o senhor se deu conta de que crise poderia bater forte no Brasil?
Lula
O momento mais duro foi quando vi a Petrobras ir à Caixa Econômica tomar dinheiro emprestado, competindo com pequenos empresários. E por que a Petrobras foi à Caixa Econômica? Porque não tinha crédito fora (do Brasil). Agora imagine você, uma empresa como a Petrobras, com valor patrimonial de mais de US$ 200 bilhões, não conseguir empréstimo no exterior é porque a coisa estava realmente muito ruim. Bem, depois disso, eu acredito que tomamos algumas decisões importantes. É importante lembrar que havíamos criado o PAC em 2007. Não se falava em crise quando adotamos o maior programa de investimentos em obras de infraestrutura já feito no Brasil. Eram US$ 304 bilhões previstos até 2010 na área de infraestrutura, na área de saneamento básico, na área de habitação. Quando a crise se aprofundou, começamos a tomar medidas anticíclicas, que permitiram que a economia brasileira fosse analisada como a que tinha entrado por último na crise, e que poderia sair primeiro da crise. E isso nos deixou mais otimistas. Alguns setores empresariais começaram a fazer mais investimentos.

Em reuniões com o BNDES provoquei meu amigo Luciano Coutinho (presidente do banco) para que chamasse os empresários que tinham investimentos financiados pelo BNDES a começar a tocar as obras. Em todas as obras de infraestrutura, acordamos para que as empresas contratassem dois ou três turnos, para que a gente pudesse gerar os empregos que a economia precisava. E penso que isso conseguiu estabilizar. No primeiro semestre de 2009, por exemplo, a indústria automobilística vendeu mais que no mesmo período de 2008. Porque nós demos incentivos. Abrimos mão de determinados tributos para fomentar a linha branca, geladeira, máquina, fogões, carros, material de construção civil. Lançamos um programa muito grande de construção, de um milhão de casas, para incentivar a construção civil. Tudo isso permitiu que nós, sem abrir mão de nenhum centavo na política social, sem abrir mão de um centavo no PAC, criássemos mais políticas de investimento para enfrentar a crise. Porque nós também entendíamos que era uma crise diferente. Não era uma crise de contenção ou de ajuste fiscal, era uma crise de investimento. Era uma crise na qual o Estado deveria aparecer como sujeito da história. O Estado precisava fazer aquilo que a iniciativa privada não conseguia fazer. E, graças a Deus, nós conseguimos dar passos importantes.

BBC - Na sua opinião, quais foram os fatores que levaram a essa crise?
Lula
Acho que a primeira coisa foi a falta de regulamentação do sistema financeiro. Quando você tinha crise na Ásia, na Rússia, no Brasil ou no México, eram crises de países em desenvolvimento. As pessoas não davam muita importância, exigiam que os países fizessem ajustes fiscais muito fortes, a economia ficava atrofiada, até falamos de década perdida. No fundo foram duas décadas perdidas na América do Sul. Essa crise acontece quando todos os países da América do Sul, da América Latina, vivem um momento excepcional de crescimento. E a especulação, bancada pelos países ricos, é que levou a essa crise. Não havia nenhuma regulamentação no sistema financeiro. O que justificou o preço da soja e de outras commodities subirem de forma astronômica, sem nenhum critério, a não ser a especulação financeira? As pessoas estavam fugindo do subprime e entraram no mercado futuro de commodities. Quando os preços das commodities começam a voltar à normalidade, começa a especulação imobiliária nos Estados Unidos. E, depois disso, começamos a saber que os bancos não tinham a menor regulamentação. Acho que foi uma lição de vida para todo mundo. O sistema financeiro não pode deixar de ter regulamentação. E o Estado não pode deixar de ter um papel importante, de indutor e regulador da economia dos países. Aquela tese do Consenso de Washington de que o Estado tem que ser mínimo, de que o Estado não pode nada, de que o Estado atrapalha e de que o mercado podia tudo acabou! Acabou porque, quando o sistema financeiro quebrou, quem era o paizão que tinha que ajudar? Era o Estado. Foi o Estado americano que teve que colocar dinheiro, o Estado brasileiro que teve que colocar dinheiro, o Estado alemão que teve que colocar dinheiro. Penso que agora as pessoas estão percebendo que o Estado tem um papel extraordinário no equilíbrio das relações econômicas internas e externas.

BBC - Essas foram as causas. Quem são os responsáveis por isso?
Lula
São os governos. Os governos, que não cuidaram da regulamentação.

BBC - Que governos especificamente?
Lula
Veja, não tem uma pessoa. É um sistema. Não era possível que os bancos continuassem ganhando dinheiro sem produzir uma caneta, uma folha de papel, um sapato. Apenas especulando, especulando. Era o papel A que passava para a mão do banqueiro B, depois o papel C passava para mão do B, ou seja, o mesmo papel fazia muita gente ganhar dinheiro sem produzir uma peça qualquer.

BBC - Sim a culpa é dos governos. Mas de todos os governos? Ou dos governos dos países ricos?
Lula
Acho que nesse caso é dos países ricos. Por quê? Porque acreditaram durante décadas que o mercado por si só resolveria todos os problemas. Aí quando o mercado se mostrou frágil, incompetente, aí os Estados começaram a perceber que tinham que agir. E agir fortemente. E no Brasil nós não vacilamos. No Brasil nós tomamos as medidas que tínhamos que tomar para permitir que a economia se recuperasse mais rapidamente. Os países ricos são os mais culpados porque sabiam dar palpite em tudo sobre a economia dos países em desenvolvimento.

Agora, quando a dor de barriga aconteceu com eles, eles não sabiam como agir. O FMI não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. O Banco Mundial não tinha solução, não tinha certeza e não tinha resposta. E os governos também não tinham! Daí a importância das decisões que foram tomadas, de articular o G20. O G8 já não resolvia mais o problema da crise econômica, até porque eram os países do G8 que tinham a maior responsabilidade pela crise financeira. E eles sabiam que a irracionalidade do sistema financeiro deles ia causar prejuízos mais fortes nos países mais pobres, sobretudo nos países da África, e aí se criou o G20, que, acho, começou a encaminhar soluções importantes para o problema da crise econômica.

BBC - Do seu ponto de vista, o Brasil fez toda a lição de casa, estava num grande momento, ia explodir e acontece a crise. Como o senhor pessoalmente se sentiu quando percebeu que, apesar de ter feito toda a lição de casa...
Lula
Essa é uma coisa muito engraçada porque, no mês de junho (de 2008), fizemos uma reunião da equipe econômica e da coordenação de governo, nós estávamos preocupados com o excesso de crescimento do Brasil. Ou seja, estávamos com um olho na inflação e, ao mesmo tempo, com um olho no alto consumo brasileiro. A indústria automobilística estava vendendo muito, o povo estava comprando muito, e eu sei que me foi feita a sugestão de que a gente começasse a fazer um pouco de contenção no consumo. E eu dizia que a gente não poderia fazer contenção no consumo, porque se a gente aumentasse o preço do carro, diminuísse a quantidade de prestações, criasse o IOF, a gente ia dar injeção na veia para desativar a economia brasileira, e eu não queria. E aí veio a crise, sabe, desativou por conta própria. Eu diria um pouco porque ela foi muito forte e um pouco porque muitos empresários brasileiros ficaram com medo. Essa é a verdade. Nós tivemos 50% ou 60% de crise e nós tivemos 40% de pânico. Muitas pessoas agiram de forma precipitada no enfrentamento da crise, sobretudo os investidores. E no governo nos resolvemos, então, tomar as medidas que tínhamos que tomar.

BBC - Mas como o senhor se sentiu, pessoalmente, quando o senhor percebeu...
Lula
Eu me senti decepcionado. Porque depois de 20 anos sem crescimento econômico, depois de o Brasil fazer tudo o que tinha que fazer, depois de a gente estabilizar a economia brasileira, depois de a gente controlar a inflação, depois de a gente lançar um programa de desenvolvimento... Não apenas o Brasil mas toda a América do Sul e América Latina vinham vivendo um momento de ouro. As economias cresciam acima de 5% em todos os países e, de repente, nós, que passamos a vida inteira sofrendo a amargura da instabilidade, quando estávamos estáveis, o mundo rico, que parecia estável, estava instável. Houve uma mudança de comportamento nas crises e foi muito decepcionante para países da América do Sul, países africanos, da América Latina, porque nós estamos sendo vítimas da irresponsabilidade dos países ricos.

BBC - Vamos então para o G20, um assunto que o senhor já tocou. Antes da reunião do G20, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, visitou o Brasil, numa preparação para o G20. E, ao lado dele, o senhor deu aquela famosa declaração de que a responsabilidade da crise é dos banqueiros brancos de olhos azuis. O que o senhor queria dizer com aquela frase, dita ao lado do primeiro-ministro da Grã-Bretanha?
Lula
Aquilo que eu queria dizer está mais forte hoje do que estava na época. Porque o que é que tem acontecido na Europa? Muitos países, para resolver o problema da crise, estão dificultando a vida dos imigrantes. Ou seja, os pobres do mundo que trabalham no mundo rico são as primeiras vítimas da crise econômica. Tem muita gente que faz até campanha, dizendo que é preciso diminuir a migração para que sobre emprego para os europeus em detrimento aos pobres do mundo que estão aqui (na Europa). O que eu quis dizer era que não eram os índios ou os negros que deveriam pagar a conta mas sim os responsáveis pela crise, que eram os banqueiros de olhos azuis. Ou seja, não eram os índios, não eram os negros, sabe, não eram os asiáticos que estavam aqui, não era povo pobre do mundo árabe. Eram os ricos que tinham sido responsáveis pela crise. E que não jogassem a culpa em cima dos pobres do mundo, como sempre acontece quando tem uma crise econômica.

BBC - Tinha algum significado especial o senhor falar aquela frase ao lado do primeiro-ministro Gordon Brown? O tom da pergunta é porque na Grã-Bretanha isso foi interpretado como um sinal de fraqueza do Gordon Brown. Ele vai visitar o mundo e encontra um líder de uma grande nação criticando os países ricos. Ele não tem olhos azuis, mas é branco e tido como um dos responsáveis pela crise...
Lula
Eu jamais teria a intenção de ofender o Gordon Brown, por quem tenho um profundo respeito. Foi um homem que, enquanto ministro da Economia do Reino Unido defendeu o Brasil e foi solidário com meu governo desde o momento em que tomei posse. Eu jamais teria interesse em fazer qualquer ofensa ao Gordon Brown. O que eu fiz foi uma relação entre os pobres do mundo, que iriam ser vítimas da crise, e os ricos do mundo, que causaram a crise.

BBC - Dias 2 e 3 abril deste ano. Reunião do G20 em Londres. Qual era a sua expectativa para a reunião. Chegando a Londres para a reunião, o que é que o senhor tinha em mente? O que o senhor esperava?
Lula
Antes da reunião de Londres tivemos a reunião nos Estados Unidos. Fui para a reunião com um certo ceticismo. Era a primeira vez que os países emergentes eram convidados a participar de um fórum superior ao G8 mais G-5, e que tinha como pauta principal a crise econômica. Nós fizemos um avanço já na Cúpula de Pittsburg (na verdade, a reunião foi em Washington) e depois chegamos a Londres. A reunião de Londres superou as expectativas. Eu fui muito cético e lá, no auge dos debates, das discussões, percebemos que tinha uma coisa importante numa reunião de chefes de Estado: ninguém tinha certeza de nada. Não tinha mais um Estado superior ao outro, porque, quanto mais rico, mais (o país) tinha sofrido o revés da crise. Então, estava todo mundo muito humilde, todo mundo querendo ouvir, todo mundo querendo aprender e eu acho que as decisões que tomamos foram extraordinárias. Primeiro, discutimos a necessidade da regulamentação do sistema financeiro; depois, a necessidade de democratizar mais o FMI e o Banco Mundial, de aportar mais recursos para essas instituições; depois a necessidade de fiscalizar os paraísos fiscais, de não permitir a existência de paraísos fiscais. Foram passos importantes que agora começam a ser executados.

Por isso, eu estou convencido de que o G20 passa a ser um fórum extremamente importante, e espero que não seja um fórum apenas para resolver o problema da crise. Os pobres do mundo, os emergentes do mundo são chamados apenas para resolver o problema da crise e, quando a crise terminar, acaba-se com o G20 e volta ao G8. Cria-se um grupo de amigos e a vida continua. Não! Nós vamos brigar, é uma decisão já dos Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia e China), é uma decisão de países importantes como a França. Penso que o próprio Gordon Brown está convencido de que o G20 precisa continuar. Talvez faltem países importantes. O que é sagrado nessa história é que todo mundo agora quer ser ouvido e todo mundo tem condições de dar o seu palpite, sua opinião. Ninguém pode discutir a economia hoje e esquecer que existe uma China. Ninguém pode esquecer uma Índia. Ninguém pode esquecer um Brasil, uma África do Sul, um México, uma Indonésia. São países importantes que têm que ser levados em conta na discussão

BBC - Nesse sentido, o G8 não tem mais representatividade para resolver um problema como esse da crise econômica?
Lula
O problema é que o G8 é um clube fechado. Do ponto de vista da discussão da crise econômica, acho que o G8 não tem legitimidade. Acho que é preciso, além do G20, se incluir outros países importantes, porque estamos tomando decisões não para amanhã. Estamos tomando decisões para o século 21. Estamos tomando decisões que podem durar cem anos, 50 anos. Temos que mudar as coisas que não deram certo no século 20 para aprimorá-las no século 21. E aí nos temos que ouvir os outros atores da política mundial, que não estão apenas no G8.

BBC - Nesse sentido, então, é necessário que se crie uma nova arquitetura econômica, como o senhor vem dizendo?
Lula
Estou convencido de que precisamos mudar a arquitetura mundial. A base dela foi a conversa que tivemos no G20, foi um bom início. Mas é preciso que o G20 tenha uma maior densidade de funcionamento. É preciso que nossos ministros da Economia se encontrem sempre, é preciso que os bancos centrais se encontrem sempre, é preciso que os ministros das Relações Exteriores se encontrem sempre. Esse fórum G-20 não pode ficar apenas discutindo a crise econômica. Temos que discutir a política econômica dos próximos cem anos, dos próximos 30, dos próximos 40. Temos que discutir não apenas a crise, mas discutir desenvolvimento. Vamos continuar tratando a África como tratamos no século 20 ou vamos colocar dinheiro para o desenvolvimento da África? À medida que aparecem mais chineses no mundo comendo, mais indianos comendo, mais africanos comendo, mais brasileiros comendo, nós precisamos aumentar a produção de alimento. Onde é que tem terra para aumentar essa a produção de alimento? Obviamente que é na América Latina e na África. Então é preciso acabar com essa política meramente assistencialista de dar um dinheirinho para isso, dar um dinheirinho para aquilo. É preciso que a gente coloque dinheiro em projetos de desenvolvimento, que a gente construa parcerias com os países africanos para que eles possam ser donos do seu nariz, produzir seus alimentos. E aí tem que ter um acordo na Rodada de Doha na OMC. Porque é preciso que a gente desbloqueie os subsídios europeus e americanos para os produtos agrícolas dos países mais pobres.

BBC - Quais são os riscos de o G8 resistir e isso não acontecer? De essa nova arquitetura não acontecer?
Lula
Acho que eles vão resistir um pouco, mas acho que terá pouca duração. Porque, veja, o Sarkozy defende não mais o G8. O Gordon Brown já defendeu mais que o G8. A Alemanha defende mais que o G8. O Obama já falou mais que o G8. Já não tem mais sentido o G8. A não ser que você queira criar um clube de amigos. Mas se quiser discutir a sério a produção, o consumo e a economia do mundo, inclusive a paz, não podem prescindir dos países emergentes. Tem que levar em conta esses países porque são grandes produtores e grandes consumidores. Esses países têm muita coisa a ver com a tranquilidade que nós queremos para o mundo.

BBC - Voltando ao G20, que foi uma reunião histórica. O senhor sentiu que aquela foi a reunião que mudou a percepção que os grandes líderes tinham do Brasil, por exemplo? Houve uma mudança ali?
Lula
Na verdade não sei se foi ali que houve a mudança sobre o Brasil. O Brasil vem trabalhando seriamente há muito tempo para que as pessoas o levem mais em conta. E você só é levado em conta se agir com seriedade. Eu aprendi, no mundo sindical, que um interlocutor só respeita o outro se ele se respeitar. O Brasil vem conquistando com seu procedimento, com o trabalho dos ministros, com o trabalho do governo, com o trabalho dos empresários. O Brasil vem crescendo, com sua imagem positiva no cenário mundial. Era preciso todo mundo pegar no remo e remar. Eu lembro que o Obama começou a reunião dizendo o seguinte: olha, eu sou novo no governo, eu vim aqui para aprender.

Você imagina, o presidente americano falar isso numa reunião. Ou seja, demonstra que houve mudança substancial na visão que os Estados Unidos ou que o presidente Obama tem do mundo. A partir daquela reunião, o Obama várias vezes vem falando em construir parceria com os países africanos, com a América Latina. Não é aquela visão hegemônica de uma grande nação, mais poderosa militarmente falando, a mais poderosa economicamente falando. Mas é mais aquela coisa de aparecer sempre por cima. O Obama está dizendo: eu quero construir uma parceria, quero uma coisa mais sólida, uma coisa de mais confiança, em que os americanos não sejam vistos como os inimigos a priori.

BBC - Naquela mesma reunião, o presidente Obama disse que o senhor era o político mais popular do mundo, que o senhor era "o cara". Isso reflete esse peso do Brasil?
Lula
Não, acho que Obama foi apenas gentil. Mas independente disso, a verdade é que o Brasil ganhou muita credibilidade nos últimos anos. Basta que você converse com qualquer brasileiro que visite o exterior, basta que você acompanhe a imprensa no exterior. Antes você viajava o mundo e, para sair uma matéria de pé de página do Brasil na visita de um presidente, haja sacrifício... Hoje eu acredito que os embaixadores brasileiros, que o governo brasileiro, que os empresários brasileiros e que os jornalistas brasileiros estejam vendo que nunca saiu tanta matéria positiva sobre o Brasil como tem saído nos últimos tempos. Às vezes dão até mais importância do que a própria imprensa brasileira.

BBC - Presidente, o senhor pode fazer um paralelo entre essa crise que nós estamos vivendo agora, uma crise que começou nos países ricos, e a crise do final da década de 90, que foi muito forte no Brasil, por exemplo?
Lula
Essa crise foi infinitamente mais forte do que a crise da década de 90. Se você pegar a crise asiática, a crise do México, a crise da Rússia e a crise da América Latina, que envolve o Brasil, o montante de dinheiro envolvido não chega a 10% do que foi essa crise agora. Naquela crise você falava em bilhões. Nessa crise você fala em trilhões. E não se sabe se foram 10 trilhões, 15 trilhões, 20 trilhões, 7 trilhões... Porque todo mundo ainda está fazendo avaliações. Até agora. Até agora não se deu o número razoável dos títulos tóxicos, ou seja do chamado crédito podre que existe na praça. Até agora não sabemos o total. Mas que são trilhões e trilhões de dólares, são. Porque muitos bancos importantes quebraram. Eu acho que isso foi infinitamente superior a tudo que nós conhecemos em crise, a não ser a crise de 1929. Possivelmente no montante de dinheiro, esta foi maior. Só que essa pegou os países pobres mais organizados. Imagina se nós não estivemos organizados? Imagina se a economia dos países pobres não tivesse estabilizado, se não estivesse crescendo a economia nos países da África, da América do Sul, na América Latina, no Brasil? Se nos estivéssemos na UTI, como passamos toda a década de 80, teríamos morrido. O dado concreto é que quando essa crise veio, o Brasil estava sólido, com alto crescimento, boas reservas, e até hoje nós continuamos com a reserva de US$ 207 bilhões, coisa impensável cinco anos atrás.
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