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16/09/2009 - 07h53

Crédito limitado protegeu bancos brasileiros de crise

Concessão de crédito limitada, grande aversão ao risco e altas taxas de juros, características que poderiam ser consideradas fraquezas do sistema financeiro brasileiro, acabaram protegendo o país dos efeitos mais nocivos da crise econômica mundial.

Os bancos brasileiros atravessaram a fase mais aguda da crise sem sofrer os abalos registrados em outros países.


"O impacto da crise no setor financeiro em geral no Brasil, e sobretudo no setor bancário, foi bem menor (do que em outros países)", diz o economista Ricardo Carneiro, professor da Unicamp.

"Para começar, por uma razão muito simples: a proporção da concessão de crédito, comparativamente a outros países, é muito mais reduzida", afirma.

Para Carneiro, a crise deixou claro que "os defeitos do sistema bancário continuam os de sempre": spread (diferença entre os juros que os bancos pagam na captação de recursos e o que cobram dos clientes nos empréstimos) muito alto, taxa de juros muito alta e um descomprometimento com financiamento de longo prazo.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde o excesso de crédito ofertado sem garantias, os chamados ativos tóxicos, e a alta inadimplência provocaram grandes prejuízos aos bancos, no Brasil a própria regulação impediu as instituições de operar com ativos perigosos.

"O Brasil não participava muito da globalização dos mercados, dos instrumentos derivativos, desses vínculos entre banco de crédito, banco comercial, banco de investimentos", diz o economista Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating.

"Não tinha uma engenharia financeira tão sofisticada como nesses países, o que acabou sendo favorável", afirma Santacreu.

Ranking
Enquanto nos Estados Unidos muitos bancos precisaram recorrer a socorro financeiro ou quebraram e, no primeiro semestre deste ano, continuaram a perder bilhões de dólares, no Brasil o setor bancário foi o mais lucrativo nesse período, segundo estudo elaborado pela consultoria Economatica.

De acordo com a Economatica, entre 303 empresas de capital aberto do país, o setor bancário foi o que registrou maior lucro nos primeiros seis meses de 2009, com R$ 14,3 bilhões, equivalentes a 23,5% do lucro consolidado de todas companhias avaliadas.

Um ranking elaborado pela mesma consultoria com os 20 maiores bancos de capital aberto da América Latina e dos Estados Unidos revela que as três instituições com maior rentabilidade sobre patrimônio no primeiro semestre são brasileiras: Banco do Brasil, Bradesco e Itaú Unibanco.

Alguns economistas afirmam que, como os bancos brasileiros ganham nas taxas de juros, ainda consideradas altas apesar dos cortes feitos na Selic ao longo do ano, não precisaram assumir riscos com outras operações, como fizeram países em que os juros eram muito baixos e as margens menores.

"(O brasileiro) é um sistema que consegue remunerar o capital pagando também as contas da operação bancária com as altas taxas de juros praticadas cronicamente durante anos e anos", diz o economista Paulo Rabello de Castro.

"O sistema tem um grau de exposição a clientes infinitamente mais baixo do que colegas do resto do mundo", afirma. "É só ver que os graus de alavancagem nos Estados Unidos e na Europa facilmente passavam de 30 vezes. No Brasil, mal e mal chegam a 11. Isso, em banco, é a diferença entre a vida e a morte."

Recuperação
O setor bancário brasileiro sofreu uma crise de liquidez a partir de setembro de 2008. No entanto, já em meados de fevereiro essa crise começou a ser regularizada.

O fato de a atual crise econômica não ter se originado no Brasil e ter encontrado a economia brasileira estabilizada é apontado por economistas como um fator positivo para o bom desempenho dos bancos.

Especialistas ouvido pela BBC Brasil dizem também que o sistema bancário brasileiro estava bem estruturado depois de planos de recuperação de bancos na década de 90, como o Proer e o Proes.

Segundo Santacreu, no auge da crise os bancos brasileiros agiram com prudência e aumentaram suas provisões, as estimativas de perdas, e agora que a economia dá sinais de recuperação, saem com a liquidez restabelecida e retomando gradualmente as atividades de crédito.

Sua previsão é de que, em 2010, o sistema financeiro brasileiro esteja praticamente normalizado. "Com menos inadimplência, mais crédito e juros mais baixos", diz Santacreu.

* Colaborou Paulo Cabral
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