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22/09/2009 - 07h18

Recessão muda tendências de consumo de moda na Grã-Bretanha

A recessão que atinge a Grã-Bretanha causou mudanças na forma como as britânicas consomem roupas, acessórios e artigos de luxo, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

Analistas de tendências de consumo e a imprensa especializada de moda apontam uma preocupação maior com qualidade, ao invés de quantidade.

Segundo Maurice Mullen, editor de Moda, Fragrâncias e Artigos de Luxo do jornal britânico Evening Standard, ao invés de comprar várias roupas baratas por impulso, ou de gastar fortunas em peças de marcas caras, as britânicas estão preferindo planejar com antecedência e adquirir uma única "peça de investimento", uma roupa coringa.

Essa peça, de valor mais elevado, é então combinada com artigos mais baratos, ou que as consumidoras já tenham no guarda-roupa.

Além disso, as britânicas estão aproveitando a enorme gama de opções mais em conta que existem no país.

"O número de versões baratas de peças de marcas famosas, lojas de desconto e também liquidações tanto nas ruas quanto na internet é tão grande que as pessoas não estão realmente enfrentando problemas para adaptar suas compras às suas novas circunstâncias financeiras", disse Mullen.

Socialmente aceitável
O professor de Marketing e Psicologia do Consumo da University of Wales Institute Paul Buckley concorda.

"Com a crise, se tornou socialmente aceitável fazer compras em lojas mais baratas, para as quais muita gente torceria o nariz antes da recessão", disse Buckley.

Esse fenômeno, chamado por aqui de "trading down" (trocando para baixo, em tradução-livre) também pode ser observado no mercado de artigos de luxo, que no passado havia escapado sem grandes arranhões de outras crises financeiras.

Marcas como Rolex e Cartier perderam valor em 2009, enquanto a loja de roupas de preço médio Zara teve valorização, segundo uma pesquisa da consultoria Interbrand e da revista BusinessWeek
"Quem compra artigos de luxo continua fazendo no patamar mais alto, mas quem estava em busca de objetos de luxo na fatia mais barata do mercado está adiando a aquisição até tempos melhores ou buscando alternativas mais baratas", disse Mullen, do Evening Standard.

Segundo ele, os consumidores que estão procurando relógios de 250 mil libras (cerca de R$ 760 mil), por exemplo, continuam comprando, mas quem estava considerando comprar um relógio de cinco mil libras (R$ 15 mil) provavelmente mudou de idéia.

O professor Paul Buckley explica que isso acontece porque os artigos de preços mais baixos do mercado de luxo são geralmente adquiridos por pessoas que precisam ganhar seu dinheiro todos os meses, enquanto que as maiores extravagâncias são feitas por aqueles que têm recursos sobrando.

Mullen acrescenta que as compras de luxo costumam ser planejadas com antecedência e são as primeiras a ser cortadas quando o orçamento aperta.

Mas ele diz que isso não quer dizer necessariamente que os consumidores estão abandonando completamente essas compras, mas em muitos casos procuram lojas que oferecem parcelamentos ou opções mais em conta.

Pesquisando
Essa opinião é embasada por uma pesquisa do site de comparação de preços europeu Ciao. Segundo a pesquisa, um em cada cinco britânicos não fará uma compra importante sem antes pesquisar preços na internet.

Outra pesquisa, do site de buscas Google, analisou as palavras-chave usadas pelos consumidores britânicos no mês de agosto.

Segundo a pesquisa, buscas pelo termo "presentes de luxo" caíram 29% se comparadas ao ano passado, enquanto a procura por "roupas de marca" sofreu redução de 10%.

Por outro lado, os consumidores estão atrás de pechinchas, com as buscas por "cupons de desconto" tendo aumentado 65%.

As consumidoras britânicas também estão trocando luxos caros, como viagens internacionais ou noitadas fora, por pequenos agrados, como chocolates ou sapatos, segundo os especialistas.

A fabricante de chocolates Cadbury, por exemplo, registrou aumento de 12% nas vendas na primeira metade do ano.

Depois da crise
Mas o que acontecerá quando a economia britânica retomar seu crescimento?
Para Paul Buckley, as pessoas tendem a manter os hábitos que adquirem e levará tempo até que o consumo volte aos padrões anteriores à crise.

Boa notícia para as lojas mais baratas, nem tanto para quem ocupa o topo do mercado.

"Meu conselho para a indústria da moda é continuar a se promover", diz Mullen, do Evening Standard.

Segundo ele, por causa de questões de imagem, muitas marcas de moda e de luxo não querem oferecer descontos.

"Para essas empresas, pesquisas consistentemente mostram que manter a presença forte através de publicidade e relações públicas durante a crise ajuda a navegar a tempestade financeira de forma mais eficiente."
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