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28/01/2010 - 19h49

Mantega: 'Ainda há condições políticas de impor controle aos bancos'

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta quinta-feira que "ainda há condições políticas" de impor controles mundiais aos bancos para frear as atividades financeiras de alto risco e reduzir a vulnerabilidade do sistema econômico.
"Eles (os bancos) não gostam disso, é claro que cada um quer fazer o que bem entende. Mas ficou provado que assim não funciona. O setor financeiro, por sua natureza, precisa ser regulamentado", disse o ministro a jornalistas brasileiros na capital da Suíça, Zurique, onde fez uma parada antes de participar do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

O tema está suscitando uma divisão em meio aos participantes do Fórum, entre os que apóiam planos de impor restrições aos bancos - incluindo o pacote recém-anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama - e os que acham que uma maior regulação poderia interromper a já lenta recuperação econômica.

Para o ministro brasileiro, a melhora na economia global pode reduzir o "empenho" por reformas no sistema, mas o tempo para essa tarefa ainda não foi perdido.

"O ferro se malha enquanto está quente. Se esfria, fica mais dificil. Quente é quando todo mundo está desesperado, e daí fica todo mundo mais ousado. Quando as coisas se normalizam, o pessoal perde um pouco o empenho", afirmou.

"Mas se você olha para Europa e os Estados Unidos, não se pode dizer que as coisas estão mais satifatórias. Pode estar melhor para os bancos, mas não para o resto da população, o que causa conflitos políticos."
"Então ainda existem condições políticas para impor ao sistema financeiro condições de maior regulação", completou.

Opiniões divididas
A proposta de Obama, a mais concreta e ambiciosa entre inúmeras ideias de controle do sistema que vêm sendo discutidas desde o início da crise, busca limitar o tamanho dos bancos americanos e os riscos assumidos por eles.

Bancos comerciais não poderiam, por exemplo, investir em fundos hedge para alavancar seu próprio lucro. O plano foi anunciado uma semana depois de Obama haver proposto uma nova taxação aos bancos para recuperar US$ 117 bilhões gastos no resgate a instituições financeiras.

O presidente disse que, com as medidas, quer evitar que o contribuinte americano volte a ser, no futuro, "refém de instituições financeiras que são grandes demais para quebrar".

A proposta, que ainda precisa ser aprovada pelo Congresso americano, dividiu opiniões nos Estados Unidos e entre os participantes do Fórum Econômico de Davos.

O chefe do banco Barclays Capital, Bob Diamond, afirmou que não via "nenhuma evidência para sugerir que encolher os bancos e diminuí-los seria a resposta". Já o representante do Morgan Chase, Jacob Frenkel, demonstrou sua preocupação com o que chamou de "má regulação".

Porém, a proposta foi apoiada pelo megainvestidor George Soros, para quem a mais recente crise econômica foi a culminação de "bolhas menores", causadas por 25 anos de crédito demasiadamente fácil e negócios arriscados.

O raciocínio de Mantega vai nessa linha."Com amenizacao da crise, houve uma recomposição dos capitais dos bancos e eles voltaram a operar. Mas voltaram aos velhos hábitos e operações, inclusive de risco, olhando sobretudo os lucros e bonus, e olhando menos a reativação da economia com créditos", disse.

"Tanto que o crédito continua escasso, tanto para setor privado e consumidores no mundo. Falta crédito, mas os bancos voltaram a ter lucros e distribuir bônus extraordinários."
Brasil
Porém o ministro fez questão de dizer que "esta situação não vale para o Brasil". Se o crédito no país crescia a um ritmo de 32% ao ano em 2008 - "e eu dizia na época que era demais", afirma Mantega, esse ano deve crescer por volta de 20%, patamar que o ministro considera apropriado.

"No ano passado, cresceu uns 14%, o que foi pouco", disse Mantega. "Agora está muito equilibrado, muito tranquilo, o processo brasileiro", avaliou.

No mercado financeiro, que já tocou os patamares do início da crise e voltou a cair, o ministro também não vê possibilidade de uma bolha. "No Brasil, nós acabamos com a festa quando colocamos o IOF (imposto sobre operações financeiras, que taxou em 2% o capital externo na bolsa). Isto segurou a enxurrada. Essa enxurrada de capital não houve."
Para Mantega, que na sexta-feira participa de um painel em Davos para falar sobre a "fórmula" brasileira de crescer apesar da crise, colocar em prática mecanismos de controle de risco passam por limitar o volume de capital para operações deste tipo, impor um teto de alavancagem e aumantar controle sobre fundos de hedge e derivativos.

"Isso já se faz no Brasil. Apertamos o cerco. Falta fazer no exterior, onde não podemos controlar. Mas temos de regulamentar."
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