UOL Notícias Economia

BOLSAS

CÂMBIO

 

27/06/2010 - 21h06

G20 condiciona cortes a preservação do crescimento

Os líderes dos países do G20 (grupo das principais economias avançadas e em desenvolvimento) reunidos em Toronto, no Canadá, concordaram neste domingo em reduzir seus déficits orçamentários, mas sem ameaçar da consolidação do crescimento global.

No comunicado final da Cúpula do G20, divulgado na tarde deste domingo, as economias avançadas se comprometeram em reduzir em pelo menos a metade seus déficits até 2013 e em estabilizar ou reduzir a relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto) até 2016.

Essas metas haviam sido propostas pelo anfitrião do encontro, o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper.

O documento diz, porém, que os planos de consolidação fiscal serão diferenciados de acordo com circunstâncias de cada país e "focados em medidas para manter o crescimento econômico".

"O caminho do ajuste deve ser cuidadosamente calibrado para sustentar a recuperação da demanda privada. Há um risco de que ajustes fiscais sincronizados em diversas grandes economias possam impactar negativamente a recuperação", diz o texto.

"Mas também há um risco de que o fracasso em implementar a consolidação onde necessária possa minar a confiança e impedir o crescimento." O Japão, que tem um déficit muito alto, ficou de fora e não se comprometeu em cumprir a meta.

Emergentes A questão das medidas de ajuste fiscal e da retirada de estímulos vinha dividindo os países do G20.

No sábado, antes das discussões da cúpula, o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, que liderou a delegação brasileira em Toronto, havia dito que cortar o déficit pela metade até 2013 era uma meta "draconiana" e "exagerada".

O Brasil, assim como os Estados Unidos, alertaram antes e durante a cúpula sobre o risco de que ajustes fiscais drásticos demais e a retirada prematura de medidas de estímulo, especialmente em países da Europa, pudessem ameaçar a consolidação da recuperação da economia global.

No entanto, após a divulgação do comunicado, Mantega disse que, apesar de ainda considerar as metas "ambiciosas", acredita que os países emergentes foram "plenamente contemplados" no comunicado final.

"A posição dos países emergentes está contemplada no comunicado. Estávamos querendo enfatizar a necessidade de continuar com a recuperação mundial, enfatizando a consolidação do crescimento, e isso foi aprovado no comunicado, com forte apoio dos Estados Unidos e dos países emergentes", afirmou o ministro.

"Temíamos que alguns países enveredassem por uma desativação dos estímulos de crescimento", disse.

Segundo Mantega, não se pode "desconhecer" o problema fiscal enfrentado por países europeus, que vêm adotando medidas de austeridade para conter suas crises de déficit orçamentário e dívida pública.

"Há países com déficit acima de 10%, cujas dívidas cresceram muito, então eles também têm a preocupação de uma melhoria da situação fiscal, só que no documento foi colocado que essa política de ajuste fiscal não deve prejudicar a recuperação e a consolidação do crescimento", disse Mantega.

Mercado interno Durante a cúpula, os líderes também concordaram com a necessidade de estimular seus mercados internos, iniciativa que teve adesão inclusive da China, até então reticente.

Mantega voltou a criticar, porém, os países avançados e exportadores que, em vez de estimular seus mercados internos, fazem um ajuste fiscal muito severo, "às custas dos emergentes". O ministro citou a Alemanha e o Japão.

"Eles também têm que fomentar o mercado interno. E esse recado é para a Alemanha e para o Japão, que vivem dos mercados externos e agora querem fazer um ajuste sem estimular tanto a economia quanto deveriam", afirmou Mantega.

"Nós fazemos a nossa parte, eles também têm que fazer a parte deles", disse.

A Cúpula do G20 também voltou a discutir a reforma do sistema financeiro global, ponto já em debate em reuniões anteriores.

Os líderes concordaram em aprovar a regulação do sistema financeiro na próxima Cúpula do G20, marcada para novembro, em Seul.

Entre as medidas previstas estão maior controle de operações com derivativos, aumento de capital dos bancos e maior supervisão do sistema financeiro, com o objetivo de garantir mais transparência e evitar a ocorrência de novas crises econômicas como a de 2008.

Taxação e Doha Em pelo menos dois pontos, porém, não houve acordo em Toronto.

A proposta de taxação sobre os bancos, defendida por países como Grã-Bretanha e França, sofre resistências por parte do Brasil e de outras economias, e acabou descartada.

A decisão de implementar essas medidas ficará a cargo de cada país individualmente.

Também não houve avanço na questão sobre as negociações da Rodada Doha de liberalização do comércio mundial.

Em um almoço com os demais líderes, neste domingo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deixou claro que não concorda com a aprovação da atual proposta.

Segundo Mantega, a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi lamentada por vários líderes, mas todos manifestaram solidariedade pelo problema das chuvas no Brasil.

Lula cancelou a participação na cúpula na sexta-feira, véspera do encontro, para acompanhar de perto os esforços de auxílio às vítimas das enchentes no Nordeste.
Hospedagem: UOL Host