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02/09/2009 - 05h14

Maior favela da África busca atrair turistas no Quênia

José Miguel Calatayud.

Nairóbi, 2 set (EFE).- Cerca de 1 milhão de turistas visitam anualmente o Quênia atraídos pelas paisagens naturais, safáris e praias, mas o que talvez poucos sabem é que também se pode fazer turismo na maior favela da África.

Na parte sul de Nairóbi, o bairro de Kibera é o lar de 1 milhão de pessoas que vivem em barracos e casebres, a maioria sem água corrente e muitas também sem eletricidade.

Com elevado nível de pobreza e aspecto sujo e desordenado, Kibera não parece o lugar adequado para fazer turismo e, de fato, embaixadas e agências de turismo recomendam aos viajantes e clientes que não entrem ali.

No entanto, a organização Kibera Tours foi criada em setembro de 2009 justamente com a ideia de atrair turistas à comunidade, considerada a maior favela do continente africano.

"Nosso objetivo com a Kibera Tours é duplo: criar trabalho para os jovens da região e modificar a concepção de uma favela nos dois lados, os habitantes e os visitantes", declarou à Agência Efe Freddy Otieno, cofundador e guia da empresa.

Otieno, de 23 anos, nascido e criado em Kibera, ressalta que "não é bom acreditar nas críticas, mas no que se conhece por experiência".

O jovem criou a organização com Martin Akunya Oduor, também nascido em Kibera e morador da comunidade, e a holandesa Esther Bloemenkamp, que viveu seis meses em Nairóbi e apostou na ideia de tornar o bairro atrativo ao turismo.

Após pagar os 2.500 xelins (25 euros) que custa a visita, reinvestidos em Kibera pela organização, os turistas Antonio (italiano) e Eugenia (espanhola) acompanham Freddy e seu irmão Franky pelas ruas do bairro.

A visita começa no mercado ao ar livre de Toi, o segundo maior de Nairóbi, porta de entrada de Kibera. Dali, continua a caminhada pelos lodaçais que são as ruas da favela.

"A verdade é que, se eu vivesse aqui, não gostaria que turistas visitassem meu bairro neste sentido", diz Eugenia, de 32 anos, que está há apenas um mês no Quênia, mas já esteve em outros países africanos.

Freddy responde que "não é como um zoológico". Segundo ele, "há interação, os visitantes falam com os moradores de Kibera, estes lhes fazem perguntas, de onde são, e talvez conhecem alguma cidade espanhola ou têm algum amigo na Espanha".

Segundo a organização, 80% dos moradores de Kibera aprovam o turismo no bairro, que promove uma repercussão econômica positiva ao local.

Com o dinheiro pago pelos turistas, os guias recebem seus salários e a Kibera Tours mantém uma escola-orfanato, uma loja de bijuteria que emprega várias mulheres do local e outro negócio onde jovens elaboram enfeites com ossos de animais.

A organização da visita também participou da construção de um centro comunitário e que recicla os resíduos para produzir biogás.

Antonio, que está há dez meses no Quênia mas até agora não havia visitado Kibera, conta que surpreendeu os outros ao dizer que iria à comunidade. "Meus colegas de trabalho, quase todos quenianos, se surpreenderam e me disseram para ter cuidado neste bairro, mas eles nunca estiveram aqui e não entendiam por que eu queria vir".

O pequeno grupo percorre o bairro entre as saudações das crianças que brincam nas ruas e os olhares curiosos de adultos que vivem e trabalham ali.

A visita termina no barraco de 16 metros quadrados que Freddy e Franky compartilham com outros sete membros de sua família, onde os guias e visitantes conversam animadamente sobre o dia a dia na favela.

Antonio sorri e diz que "estava um pouco assustado e não teria vindo sozinho". "Mas vi que as pessoas são muito amigáveis, como em qualquer outro lugar", explica.

"Quando você viaja, deve ter experiências como essa. Não se deve visitar apenas o que é bonito e os museus, é preciso ver também como vivem o restante das pessoas. Para mim foi muito interessante", destaca Antonio.

Eugenia concorda e admite que imaginava Kibera mais perigosa. "Mas você não sabe o que é até ver. As pessoas o acolhem muito bem e as crianças são mais carinhosas que na Europa", opina a espanhola, enquanto brinca com duas meninas do bairro.
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