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01/04/2010 - 06h05

Crise faz com que jovens poloneses busquem trabalho nas minas

EFE
Nacho Temiño.

Varsóvia, 1 abr (EFE).- A crise fez o trabalho nas minas voltar a moda na Polônia, onde milhares de jovens buscam uma oportunidade de emprego estável e bem remunerado no setor, apesar do risco de trabalhar sob a terra e das tentativas de Bruxelas de impor limites ao uso do carvão.

Em 2009 as minas da região de Slaskie, a principal zona mineira da Silésia polonesa, receberam mais de 40 mil currículos, e este ano esse número pode se repetir.

"A maioria das pessoas que entram em contato conosco estão atrás de trabalho", explica o porta-voz da empresa Carvão Katowice, Zbigniew Made, à Agência Efe. Ele lembra que uma situação assim não acontecia há uma década, quando a reconversão industrial e a recessão obrigaram muitos jovens a ganhar a vida nas profundezas da terra.

Embora as condições de trabalho nas minas já não sejam as mesmas da época do comunismo, quando o setor de mineração era um dos pilares do país e os mineiros gozavam de um status privilegiado, o certo é que continua sendo um dos trabalhos mais bem pagos na Polônia, com um salário médio superior aos 1,4 mil euro mensais.

Decepcionado com o salário baixo que recebe como operário em uma fábrica de doces, onde recebe 400 euros, Michal, de 22 anos, é dos milhares de jovens de Slaskie dispostos a empunhar a picareta e descer à mina.

"Meu pai (mineiro aposentado) insistiu desde o princípio que eu trabalhasse na mineração, mas não dei atenção. Agora me decidi", disse à EFE.

O certo é que com um salário médio abaixo dos 800 euros por mês, o salário de um mineiro é um luxo inclusive para os formados, que enviam seus currículos sem complexos em uma tentativa de fugir da crise.

"O salário médio oficial é na realidade mais baixo, e muita gente ganha bem menos", assegura Selwira, uma mãe divorciada de 38 anos que vive em Varsóvia, onde trabalha em uma pequena empresa em que o pagamento gira ao redor dos 600 euros.

"Não me importaria que meu filho fosse mineiro se em troca ele ganhasse bem e tivesse um trabalho estável", afirma.

Um estudo da Universidade de Silésia publicado recentemente pelo jornal "Gazeta Wyborcza" afirma que 80% dos mineiros jovens escolheram esta profissão por tradição familiar, embora agora as dificuldades econômicas façam com que o número de "vocações" tenha disparado.

O professor Marek Szczepanski, autor da pesquisa, afirma que, após vários anos o trabalho de mineiro voltou a ser valorizados pelos poloneses e ocupa o quarto lugar atrás dos empregos de professores universitários, médicos e policiais.

"Em 1997, quando perguntamos aos alunos do ensino médio o que queriam ser no futuro, nenhum disse mineiro. Hoje a história mudou", lembra Szczepanski.

A Polônia ocupa atualmente o quinto lugar no mundo em relação às jazidas reconhecidas de carvão de pedra e de lignito, além de ser um dos maiores produtores de carvão mineral da União Europeia, com um setor de grande peso e tradição na economia nacional que emprega a mais de 130 mil pessoas.

Assim um salário superior à média e a aposentadoria após 25 anos são razões suficientes para que os candidatos à mina esqueçam o risco para a saúde, os acidentes e as explosões de gás, tragédias que deixaram mais de 90 mortos nos últimos três anos.

Mas os aspirantes a trabalhar debaixo da terra enfrentam agora uma realidade diferente das épocas anteriores, inclusive mais desalentadora que a possibilidade de perder a vida nas galerias: o setor do carvão também está em crise. As ajudas públicas desaparecem, as reestruturações se multiplicam e cada vez é mais difícil competir com os preços do mineral estrangeiro.

O ano passado, o setor do carvão mineral fechou, segundo o Ministério da Economia, com um lucro exíguo de 70 milhões de zloti (cerca de 20 milhões de euros), e este ano ele pode ficar no vermelho, o que significa o fechamento de minas não-rentáveis.

Também é preciso somar a isso as diretrizes europeias para reduzir o uso de combustíveis poluentes e incentivar o emprego de energias renováveis, uma política que aumenta às dificuldades que já vive o carvão polonês.

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