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23/08/2010 - 06h09

Praga anuncia plano para remover sem-tetos do centro da cidade

Gustavo Monge.

Praga, 23 ago (EFE).- Uma iniciativa da Prefeitura de Praga pretende criar abrigos periféricos aos sem-tetos para removê-los do centro da cidade, medida que gerou polêmica na capital tcheca, um dos destinos turísticos mais importantes da Europa.

Segundo o vereador de Assuntos Sociais de Praga, Jiri Janecek, "as pessoas que não quiserem colaborar em sua volta à vida normal ou aqueles que hoje não têm ninguém que se ocupe deles" serão transferidos para os abrigos, afastados do centro de Praga.

"Acho que os vereadores não entendem a problemática dos sem-tetos. Segregar essas pessoas é uma medida radical, violenta, e não é solução para eles", disse à Agência Efe o empresário Robert Kleinhampl, que administra um edifício comercial na Avenida Nacional, tradicional ponto de concentração dos sem-tetos.

Segundo ele, "90% (dos sem-tetos) são normais, e não fazem nada ruim, no máximo mendigam. Apenas um pequeno grupo cria problemas".

O empresário, no entanto, concorda com o plano da Prefeitura de usar um antigo navio, com capacidade para 250 pessoas, para abrigá-los, e que permanece atracado no rio Moldávia.

Estima-se que na capital tcheca há cerca de 3,5 mil pessoas que vivem nas ruas, sem moradia fixa. O acampamento planejado pela Prefeitura abrigaria 350, indicou à Efe Jan Kadlec, da organização beneficente Nadeje (Esperança, em português).

Atualmente, "só há 700 camas (para os sem-tetos) e, por isso, a maioria fica na rua sem lugar", assegurou Kadlec, quem se mostrou crítico às medidas coercitivas incluídas no novo plano.

A iniciativa, que a Prefeitura pretende iniciar em um prazo de seis meses, não obrigará os sem-teto a irem para o acampamento, mas os assistentes sociais terão de aplicar meios de pressão para que as instalações sejam usadas.

"A intensidade do controle aumentará até que se deem conta de que ali terão maior tranquilidade", sustentou Janecek, sem especificar quais seriam as medidas de pressão.

Entre os afetados, as opiniões não são unânimes quanto ao projeto. Milos Kolbinger e Jana Nagy, dois eslovacos que vivem da esmola no centro de Praga, afirmam não ter necessidade de sair dali. Ela está há três anos na rua e ele há dez.

"Não acho que o façam. Como removê-los? Além disso, só vão comer e depois voltarão para cá. Entendo que os sem-tetos venham ao centro da cidade", declarou à Efe Nagy, que ocupa junto com seu companheiro um banco de pedra na Avenida Nacional, repleta de turistas, até que a Polícia os desloque a outro lugar.

Os dois dormem em uma tenda num parque de Barrandov, próximo à estação ferroviária de Smichov, e compartilham moradia com outros tchecos, um eslovaco, um ucraniano e um polonês.

A comida e a roupa que usam eles encontram nas lixeiras dos supermercados. A cada dois dias, eles passam pelos centros de atendimento de organizações beneficentes, onde tomam banho e recebem refeições quentes.

A Administração de Praga prevê três locais para os futuros abrigos: no distrito industrial de Malesice, ao leste da capital; no distrito de Dablice, ao norte; e na Cidade do Sul, onde existe a maior concentração de construções de concreto.

O projeto não agradou os habitantes desses distritos. Suas respectivas autoridades já levantaram voz de protesto: "Não me agrada nem um pouco", indicou o subprefeito de Praga 15, em Malesice.

Já o subprefeito de Praga 11, Dalibor Mlejnsky, opina que "o lugar assinalado não é adequado, pois se trata de uma zona muito povoada".

Por sua vez, as organizações civis criticaram o "plano de repressão", como disse Kadlez, já que inclui a criação de uma agência de segurança para o abrigo.

A proposta de instalar os sem-tetos vem à tona durante a pré-campanha eleitoral às eleições municipais de 15 e 16 de outubro, na qual os conservadores buscam usar esse assunto como uma de suas principais bandeiras políticas para não perder votos em seu tradicional bastião.
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