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18/09/2009 - 16h13

Mauá diz que recuperação no Brasil é "curiosa" e aponta estratégias de investimento

SÃO PAULO - Em um momento em que a percepção é de que a recessão chegou ao fim, baseada em dados macroeconômicos acima das expectativas e significativamente mais positivos do que as previsões apontavam no início do ano, a Mauá Investimentos faz em seu relatório de gestão mensal uma leitura da recuperação do mercado e das características dessa retomada no Brasil, "a estrela entre os emergentes", segundo os gestores - que, por ter características peculiares, exige uma estratégia de investimento também diferenciada.

De maneira geral, a recuperação da economia vem se consolidando nos últimos meses, conforme mostram os indicadores econômicos, e vem se espalhando dos emergentes para os países mais centrais, como Alemanha e França, além dos Estados Unidos. "Os mercados estão precificando que o pior já passou, que a crise não voltará, e que seus impactos se limitam a uma redução no crescimento potencial da economia", afirmam os gestores.

A globalização, assim como ajudou a disseminar a recessão nos mercados globais, também é um fator-chave na sua recuperação, segundo a gestora. Além disso, a recuperação se deve aos fortes estímulos de política econômica em todo o mundo, além de agressivos planos estatais de saneamento do sistema financeiro americano e europeu.

Fim da crise ou nova recessão a caminho?

Entretanto, as dúvidas sobre a solidez do crescimento para 2010 permanecem no ar. Na opinião dos gestores da Mauá, entretanto, nenhum dos dois cenários mais comentados (uma recuperação plena ou uma nova queda brusca) é o mais provável. "A resposta provavelmente está no meio do caminho", afirmam.

Para sustentar essa tese, os gestores colocam os argumentos de ambos os lados da questão, começando pelas notícias positivas. Entre elas, estão o bom espaço para crescimento de demanda doméstica em países emergentes; os sinais dos Bancos Centrais de que não pretendem reverter os impulsos monetários tão cedo; o baixo patamar de estoques nas economias do G3; e a retomada do crédito pelos bancos privados, especialmente nos EUA.

Por outro lado, o baixo crescimento previsto para o consumo das famílias nos EUA é um fator que restringe o crescimento não só nos EUA, mas em todo o mundo, já que também diminui a demanda por exportações.

Os gestores avaliam, contudo, que o processo é um movimento de longo prazo, que se traduzirá em taxas médias de crescimento mais baixas ao longo do tempo. "Assim, o que nos parece provável é que o mundo passe agora por alguns trimestres de arrancada e, mais à frente, se estabilize em torno do novo "voo de cruzeiro" em níveis mais baixos do que o observado na década de 2000", concluem.

Entretanto, a Mauá alerta que a possibilidade de uma nova recessão, desencadeada pelo fim dos estímulos financeiros, não pode ser completamente descartada, especialmente em momentos como o atual, em que os níveis de preços - na bolsa, principalmente - já parecem contemplar grande parte do cenário mais otimista. "Desta forma, o recomendado é uma postura ainda cautelosa na tomada de risco", afirma a gestora.

Brasil: um caso curioso

No caso brasileiro, os gestores reforçam a maior probabilidade de um cenário otimista, ajudado pela recuperação da demanda doméstica. "Como não havia alavancagem excessiva do setor privado, tudo indica que os impulsos monetários e fiscais já dados garantirão uma rápida retomada da atividade", afirmam. Em relação à inflação, a Mauá alerta para a possibilidade de que a demanda interna ameace as metas inflacionárias em médio prazo, exigindo alguma reversão dos estímulos dados, especialmente no campo monetário.

Entretanto, a gestora aponta que a recuperação no Brasil possui "características muito curiosas". Por um lado, ela ressalta que as empresas que vendem para o consumidor final reportam contínuas surpresas positivas em seus números - mesmo que muitas delas sejam alavancadas por incentivos governamentais, de fato o consumidor brasileiro segue gastando.

Por outro lado, os setores de bens intermediários não têm apresentado a mesma dinâmica. Atividades que dependam de investimento (excetuando-se construção civil) também saíram do fundo do poço, mas estão longe de mostrar o mesmo otimismo e dinamismo. "Em outras palavras, o Brasil B2C ("business to consumer") vai muito bem. Já o Brasil B2B ("business to business") ainda precisa consolidar a recuperação", concluem os gestores.

Estratégia de gestão

Ao traçar a sua estratégia de renda variável, a Mauá leva em consideração as características "curiosas" que atribuiu à recuperação da economia nacional. Assim, os gestores afirmam que a evolução recente dos preços dos ativos determinou a redução da preferência pelos setores dependentes do consumo doméstico, que foi reduzida a empresas selecionadas.

Por outro lado, a gestora afirma que aumentou a exposição ao setor de bancos, que "representa uma forma menos arriscada - e mais barata - de nos beneficiar deste cenário positivo". Em agosto, o stockpicking no segmento financeiro foi o que trouxe melhores resultados para a Mauá, que aumentou continuamente sua exposição no setor, passando para um overweight concentrado nos grandes bancos comerciais. As perspectivas também são positivas para o setor devido à reversão de expectativas com relação à inadimplência e a velocidade de crescimento das operações de crédito.

Ainda no mercado nacional de renda variável, a Mauá chama atenção para a volta das emissões de ações. Segundo a gestora, já foram registradas intenções de ofertas de pelo menos R$ 21 bilhões - e outras devem ser anunciadas em breve. "Embora saudável, este movimento aparece com uma fúria assustadora, mostrando que os 'insiders' querem aproveitar uma janela de mercado o mais rápido possível", afirmam os gestores. Uma notícia positiva em curto prazo, mas a gestora atenta para o efeito das novas ofertas em médio prazo, que podem exercer pressão negativa sobre o preço das ações.

Desempenho em agosto

Segundo a gestora de recursos financeiros, grande parte das perdas de seus fundos no mês de agosto foi decorrente da estratégia comprada em inflação implícita. "Essa perda foi gerada pela baixa inflação corrente que gerou um custo de carregamento elevado, e pela queda das expectativas de inflação, prejudicando principalmente a parte intermediária da curva de inflação, onde concentramos nosso risco", afirmam os gestores.

Entretanto, apesar das perdas no mês, a Mauá manteve sua posição nos fundos afetados pela estratégia, por acreditar que os níveis de inflação implícita estão baixos e pela composição atrativa com as estratégias de juros - segundo os gestores, o único ajuste foi alongar o prazo para minimizar os efeitos do carrego negativo nos próximos meses.

No stockpicking, a Mauá teve como destaques negativos o setor de energia (liderados pela OGX) e telefonia (afetados pelo anúncio de oferta pública secundária da GVT). O setor de construção também gerou perdas para a gestora, que acredita que as boas perspectivas para o setor já estão totalmente embutidas no preço das ações. Por outro lado, a Bradespar foi destaque entre os ganhos, além de ativos do setor de consumo.

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