UOL Notícias Economia

BOLSAS

CÂMBIO

 

06/10/2009 - 12h05

Trades de alta frequência: manipulação ou evolução do mercado?

SÃO PAULO - A preocupação com os impactos dos trades de alta frequência é uma constante nos mercados desenvolvidos desde meados deste ano. As críticas em relação às chamadas ordens relâmpagos foram direcionadas para as negociações em alta velocidade no geral, levantando novas questões acerca dos ganhadores e perdedores dessa modalidade.

As estimativas são de que os trades de alta frequência já contam com uma fatia entre 60% e 70% de todos os negócios realizados nas bolsas norte-americanas, o que explica o aumento do volume nos últimos anos. Os lucros obtidos com esse tipo de modalidade em 2008 são projetados entre US$ 8 bilhões e US$ 21 bilhões.

O senso comum diz que o mercado ganha liquidez, os investidores que possuem conhecimento e capital para adotarem a modalidade aumentam seus lucros e o pequeno investidor é quem sai perdendo. Entretanto, essa é apenas uma análise superficial da questão.

Ganhadores e perdedores

Enquanto fica claro que os investidores que utilizam as plataformas de alta frenquencia lucram bilhões, não está certo que os pequenos investidores estão perdendo dinheiro. De acordo com o professor de finanças de Universidade da Pennsylvania, Marshall Blume, essa não deve ser uma preocupação, já que esses bilhões representam somas pequenas espalhadas por milhões de trades.

Além disso, os pequenos investidores - especialmente aqueles que aplicam através de fundos - possuem outra vantagem com os trades de alta frequência: a redução dos custos. O CIO (Chief Investment Officer) do fundo mútuo Vanguard Group, Gus Sauter, afirma que os custos de negociação e impacto no mercado caíram pela metade na última década, beneficiando os pequenos investidores.

Liquidez do mercado

A questão do aumento de liquidez nos mercados também é vista com ressalvas por alguns economistas. Para eles, a elevação do volume de negociação não significa, necessariamente, que o ambiente está mais líquido. Quer dizer, se diversos negócios envolvem ordens simultâneas de compra e venda do mesmo investidor, então eles não estão realmente produzindo ofertas que outros players podem tomar.

Além disso, há sempre a preocupação acerca dessa enorme quantidade de ordens desestabilizar o mercado. "Este tipo de negociação pode gerar frenesi", afirma Itay Goldstein, também professor de finanças da Universidade da Pennsylvania. Para ele, se muitos investidores utilizarem as mesmas estratégias, como quedas de preço nas mesmas ações específicas, os programas podem agir da mesma forma ao mesmo tempo.

"Isso apenas desestabiliza o mercado - se as pessoas começarem a seguir umas às outras, coordenando expectativas. Eu vejo outros vendendo, então eu também começo a vender", afirma Goldstein, acrescentando que, no final, ainda não há uma resposta definitiva sobre se a modalidade desestabiliza o mercado.

Manipulação do mercado

Outro ponto frequentemente avaliado em relação aos trades de alta frequência é a possibilidade de manipulação do mercado. Embora não haja indícios de que isso ocorra, a dificuldade de documentação do assunto eleva o temor. A sensação de que a SEC (Securities Exchange Commission) não está adequada para fiscalizar esse tipo de operação também preocupa o mercado.

Ao mesmo tempo Gus Sauter explica que os trades de alta frequência não devem ser vistos como algo ilegal, já que o mecanismo é o mesmo utilizado pelos formadores de mercado - com a diferença de que é feito em alta velocidade. Segundo ele, os traders de alta freqüência trouxeram o processo de formador de mercado para o século XXI.

Mesmo com todas as discussões, as dúvidas envolvendo os trades de alta frequência ainda são grandes - e relevantes. Há sugestões para que os reguladores proíbam essa modalidade em ações específicas e compare com outros papéis depois de alguns meses, para saber se houve diferença nos padrões de precificação.

"Eles precisam tentar realizar um estudo e checar exatamente de onde esses lucros estão vindo. Eles estão vindo de manipulação? Ou eles estão vindo de melhoras no funcionamento do mercado?", questiona o professor Franklin Allen. Esta é a pergunta de um milhão.

Compartilhe:

    Hospedagem: UOL Host