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22/12/2009 - 14h33

Após um ano ruim, 2010 deve ser de recuperação para setor de papel e celulose

SÃO PAULO - Intenso. Essa é a palavra que define o ano de 2009 para o setor de papel e celulose. A confirmação da tendência de consolidações, a instabilidade dos mercados cambiais, a grande demanda chinesa pela commodity e a alta volatilidade nos preços foram, sem dúvida, os principais drivers do setor no período. Mesmo afetado negativamente por esses efeitos, o desempenho das empresas brasileiras de papel e celulose neste ano não ofuscou a percepção do mercado de que 2010 será um ano de recuperação, projetando alta para o setor no próximo ano.

“O ano de 2009 foi ruim para o setor, que sofreu com a forte recuperação brasileira na crise, derrubando o câmbio e prejudicando os exportadores”, avaliou o analista Leonardo Alves, da Link Investimentos. Contudo, Alves ressalta que o cenário para 2010 é favorável às companhias. “Somos otimistas com o setor, o custo de produção no Brasil é bastante baixo, as nossas empresas tem bons projetos, e continuaremos a ver um bom cenário de demanda e de preços em 2010, o que deve trazer um bom ano para as empresas conseguirem lucros no período ”. 



Ásia puxa demanda por celulose e preços sobem

O agravamento da crise econômica no segundo semestre de 2008 afetou diretamente o mercado de celulose. Com o fechamento de muitas fábricas no hemisfério norte em decorrência do elevado custo e preço baixo, as exportações brasileiras foram beneficiadas pela demanda extra chinesa, que segurou os preços no mercado internacional ao longo do ano.    

De acordo com os índices semanais publicados pela empresa finlandesa Foex, que são utilizados como referência pelos investidores, os preços da celulose voltaram a ficar praticamente estáveis no mercado internacional nos segmentos de fibra longa e curta na última semana, após meses seguidos de altas constantes.

Para o analista Pedro Galdi, da SLW Corretora, esta tendência de estabilidade deve prevalecer no curto prazo, visto que os estoques da commodity já estão "bem reduzidos, a demanda continua forte e os mercados que estavam mais afastados estão voltando a comprar também, principalmente a Europa".  Contudo, Galdi vê um novo movimento de alta nos preços em 2010. 



Fibria: uma gigante endividada

Empresa Código Preço-alvo Recomendação
Link Investimentos
Fibria FIBR3 R$ 21,00 Underperform
Suzano SUZB5 R$ 25,00 Outperform
SLW Corretora
Klabin KLBN4 R$ 6,30 --- 
No cenário corporativo, o nascimento da Fibria (FIBR3) chamou atenção dos investidores, que devem manter o foco na empresa ao longo dos próximos anos. Fruto da aquisição da Aracruz pela VCP, a Fibria surgiu como a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo, com ganhos de sinergias, escalas, tecnologias, além de representar o Brasil como um player global, capaz de se fazer presente no mercado de celulose mundial.

Mas, se estas características mostram o lado positivo da operação, o nível de endividamento da companhia fica responsável por trazer os mais animados à realidade. Completada a fusão, a Fibria totalizou o montante de R$ 15,7 bilhões em dívida bruta em setembro último, preocupando os analistas com relação aos próximos resultados.

"É uma dívida expressiva. A exemplo da venda da unidade de Guaíba, acho que a estratégia deles de acelerar a redução desse endividamento será foco de trabalho para os próximos dois anos", afirmou Galdi em entrevista à InfoMoney. O analista lembrou que em 2010 a companhia terá de honrar compromissos financeiros importantes, pressionando as projeções para desempenho de seus papéis listados em bolsa. Neste sentido, a SLW ainda não possui um preço-alvo definido para a companhia no próximo ano, mas alerta os investidores de possíveis vendas de ativos de papel da Fibria ao longo de 2010. Para equilibrar as dívidas, a corretora também acredita na possibilidade de uma emissão de ações por parte da companhia em 2010.

Também mantendo uma postura cautelosa para as ações da Fibria, a Link Investimentos acredita que os papéis da companhia "ainda são um tanto arriscados, e deverão sofrer uma realização" em 2010. Porém, o analista Leonardo Alves chama atenção para a melhora do cenário econômico brasileiro, que é favorável à Fibria. "Já vemos uma empresa mais segura, com o mercado mais saudável, o que facilitou para a companhia rolar suas dívidas", destacou. 

Em números, a Link espera que a Fibria obtenha lucro líquido de R$ 778 milhões ao final deste ano, reduzindo este montante para R$ 203 milhões em dezembro de 2010. O movimento estimado vem em conformidade com as projeções da dívida líquida da corretora, que deve encerrar 2009 em R$ 13,52 bilhões e chegar aos R$ 14,40 bilhões no final do próximo ano. O preço-alvo para os papéis ordinários da produtora de celulose é de R$ 21 cada em 2010, segundo Alves, com recomendação underperform (abaixo do desempenho do setor). As ações da Fibria acumulam em 2009 valorização de 86,28%, cotadas a R$ 36,70 cada - abaixo do target previsto para o próximo ano. 



Suzano: a top pick do setor

Enquanto o cenário para a Fibria é cauteloso, os analistas não poupam otimismo em relação à Suzano (SUZB5). Apontada como top pick do setor em 2010 pela Link, SLW, Gradual e o Safra, a companhia animou os investidores por mostrar forte desempenho em 2009. "Sua postura neste ano foi de acreditar na rápida recuperação da crise. Ao contrário da maioria das empresas do setor, e até do mundo, a companhia manteve seus planos de investimentos, apostando na retomada do mercado, e na sua vantagem competitiva", destacou Alves. Mesmo otimista, a Link ressalta que a Suzano acertou em sua estratégia ao longo deste ano, "mas não está sendo recompensada por isso". O preço de cotação atual dos papéis da Suzano é de R$ 20,33 cada, sendo que o preço-alvo da Link para 2010 é de R$ 25. A recomendação de Alves é de outperform (acima do desempenho do mercado). 

Em relação aos próximos resultados da Suzano, Alves espera que a produtora de celulose feche 2009 com receita líquida de R$ 3,88 bilhões, lucro líquido de R$ 836 milhões e Ebitda (geração operacional de caixa) de R$ 1,06 bilhão. Para 2010, as expectativas da Link são de que a companhia obtenha, respectivamente, R$ 3,91 bilhões, R$ 274 milhões e R$ 1,27 bilhão. "A Suzano manteve os investimentos no período da crise e deverá entregar mais rapidamente seus projetos, tendo um crescimento mais forte", afirmou Alves. 

A resiliência do setor de celulose no Brasil, com preços altos e boa demanda, assim como a alta produtividade das florestas brasileiras e a percepção de um bom crescimento no futuro apoiado na maior estabilidade do mercado de papel, são catalisadores positivos para o desempenho da Suzano no próximo ano, segundo a Link. Contudo, a corretora destaca que os papéis preferenciais classe A da produtora de celulose não apresentam tag along. No acumulado de 2009, as ações da Suzano somam alta de 69,43%.



Melhora econômica beneficia Klabin

Maior beneficiada entre as empresas do setor de papel e celulose da melhora econômica que o Brasil vem experimentando, a Klabin (KLBN4) também estimula expectativas positivas para 2010. Segundo revelou o analista Pedro Galdi à InfoMoney, é importante salientar que as ações da companhia apresentaram um desempenho bastante fraco na primeira metade deste ano, visto que a economia brasileira enfrentava o choque causado pelo agravamento da crise. Uma vez que as operações da Klabin são em sua maioria voltadas ao mercado interno de papel, as perdas do primeiro semestre podem ser explicadas pela deterioração do cenário econômico. "A partir do terceiro trimestre a ação começou a ter uma valorização bem expressiva", afirmou Galdi. Atualmente, os papéis da Klabin totalizam ganhos em torno de 55,92% em 2009, "patamar que não pode ser desprezado, mesmo estando abaixo do Ibovespa", avaliou o analista da SLW. 

De fato, as ações da Klabin também se beneficiam da melhora das expectativas para o mercado de papel brasileiro no próximo ano. De acordo com Galdi, 2010 deverá ser de recuperação para este segmento, após ter sentido reflexo ligeiramente negativo em 2009 com a queda na demanda e nos preços. Neste sentido, a SLW Corretora estipulou seu preço-alvo para as ações da Klabin em R$ 6,30 cada em 2010.

A Link Corretora também vê melhora no mercado de papel para os próximos trimestres. "O mercado interno de papel sofreu em parte com a demanda, mas a recuperação está rápida, e realmente se mostrou um segmento bem menos volátil que o de celulose. A queda na demanda e nos preços foi bastante baixa, e o varejo brasileiro se recuperou rapidamente, e neste final de ano já estamos vendo um bom crescimento do mercado interno", ressaltou Alves. 



Câmbio prejudica as produtoras brasileiras de papel e celulose

Se a melhora econômica pode, em partes, ajudar as produtoras brasileiras de papel e celulose no próximo ano, a variação cambial tem potencial para se tornar um empecilho ainda mais intenso no desempenho das companhias em 2010. A forte valorização do real frente ao dólar em 2009 foi apontada pelos analistas como principal driver negativo para as exportações brasileiras no ano, que em partes foram compensadas pelo aumento na demanda chinesa. Para o próximo ano, porém, as projeções se voltam para a estabilidade do câmbio, ajudando na recuperação operacional das companhias do setor de papel e celulose.

"Estamos projetando a manutenção do câmbio em patamares próximos a R$ 1,80, mostrando que o setor sofrerá pouco impacto cambial no período, o que deve facilitar para as empresas brasileiras explorarem as vantagens competitivas do setor", avaliou a Link. Apesar disso, a Link destacou que "caso sejamos surpreendidos com uma taxa de câmbio ainda mais baixa, as ações das produtoras de celulose sofrerão".



O que monitorar em 2010?

Como espera-se um ano de recuperação ao setor de papel e celulose em 2010, muitos são os pontos que devem ser monitorados. Segundo os analistas, os investidores devem se manter atentos no próximo ano aos movimentos dos preços da commodity e do câmbio, que podem vir a afetar negativamente o desempenho das produtoras de celulose, caso apresentem variações abaixo do esperado. Além disso, a Link Investimentos acredita que é importante monitorar possíveis novos investimentos. "A Suzano tem um terceiro projeto que ainda não foi divulgado, e a Fibria poderá anunciar o começo de alguns de seus projetos de crescimento, que no momento estão paralisados", destacou Alves.

Com relação à fusões, o ano não deve trazer novidades. "Não vemos que grandes movimentos de fusão deverão acontecer em 2010, porém, depois de VCP e Aracruz, agora espera-se a formação de uma grande e única produtora de celulose brasileira, ou seja, a união de Fibria e Suzano, mas não vemos que essa possível fusão aconteça em 2010", concluiu a Link Investimentos. 

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