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26/01/2010 - 17h10

As dez questões do BofA ML para o Brasil em 2010 - e suas respectivas respostas

SÃO PAULO – Novo ano, velhas questões: passado o auge da crise financeira, temas como aceleração do crescimento, controle da inflação e trajetória dos juros ressurgem à tona quando o assunto é o rumo da economia brasileira. É com o objetivo de responder às principais indagações dos investidores que o BofA Merrill Lynch lançou relatório intitulado “Brasil: 10 questões para 2010”.

Entre as considerações emitidas pela equipe de analistas do banco de investimentos norte-americano, algumas surpreendem – como a de que o mercado está excessivamente preocupado acerca do cenário inflacionário. Abaixo, você confere as dez questões e suas respectivas respostas.

1. O crescimento econômico continuará se acelerando?

Não. Embora aposte em uma expansão econômica de 7% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no primeiro trimestre deste ano, a equipe do Bank of America Merrill Lynch pondera que tal crescimento será sobretudo um reflexo defasado. “O crescimento trimestral já teve seu pico nos últimos três meses de 2009, quando deve ter atingido 7,4% frente ao trimestre anterior”, preveem os analistas.

Embora as taxas de consumo devam permanecer robustas, certa queda é esperada para os níveis de produção da indústria. “Em 2010, à medida que a atividade econômica se aproxima de seu potencial, será cada vez mais difícil alcançar as taxas de crescimento reportadas na segunda metade de 2009”, afirma.

2. A inflação é algo a se preocupar?

Não. “Na nossa visão, o mercado está excessivamente preocupado com os efeitos sazonais desfavoráveis sobre os preços dos consumidores típicos da temporada de começo de ano”, afirmam os analistas.

Para o BofA ML, ainda que os preços devam reportar uma alta de 0,6% neste mês de janeiro, não há motivos para grandes temores, uma vez que tal aceleração deve-se a pressões sazonais vindas dos itens “transporte” e “educação”. A expectativa da equipe é de que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) feche 2010 com alta de 4,3%, abaixo das expectativas consensuais do mercado de 4,5%.

3. Quando e em quanto o Banco Central elevará a Selic?

Um aperto monetário é praticamente dado como certo pelos analistas – os do Bank of America Merrill Lynch não são exceção. A grande questão é saber quando o ciclo terá início e qual será a sua magnitude. Na opinião do banco, as elevações no juro básico brasileiro deverão começar em junho, com uma alta inicial de 25 pontos-base.

Inicial porque tal aumento não deverá vir sozinho: os analistas projetam três outras elevações consecutivas na Selic, estas, por sua vez, da ordem de 50 pontos-base, o que levaria a taxa ao patamar de 10,50% ao ano no mês de outubro, “em um ciclo relativamente curto, uma vez que a economia já estará se arrefecendo”.

4. As contas fiscais continuarão sob deterioração?

Não. Na opinião do BofA Merrill Lynch, o governo deverá somar no quarto trimestre do ano passado um aumento de 25% em sua receita, após três quedas trimestrais consecutivas. Ademais, a equipe recebe positivamente declarações recentes do secretário do Tesouro Arno Augustin de que o governo está comprometido em atingir a meta de um superávit primário de 3,3% do PIB.

“Se ela de fato for atingida, o déficit fiscal nominal poderia cair para abaixo de 1% em 2010, o menor nível desde 1991”, afirmam os analistas.

5. O déficit em conta corrente é uma força desestabilizadora?

Não. Embora anteveja uma trajetória crescente nos rombos em conta corrente do País nos próximos anos (US$ 24 bilhões em 2009, US$ 42 bilhões em 2010 e US$ 92 bilhões em 2011), a equipe da Merrill Lynch não enxerga isso como um fator negativo, pelo contrário.

“O déficit nada mais é do que a percepção de que há diversos investimentos atrativos a serem feitos no País. Isto, por sua vez, estimula o crescimento do PIB”, explicam os analistas.

6. O crescimento continuará sendo sustentado pelo consumo doméstico?

Sim. De acordo com os cálculos do banco de investimentos norte-americano, o consumo privado no País deverá reportar uma alta de 4,9% em 2010, “uma vez que as condições no mercado de trabalho permanecem fortes e o crescimento na concessão de crédito segue acelerando”.

7. Qual será a trajetória do real?

Resumidamente, a expectativa do banco é de que a moeda brasileira encerre o ano a R$ 1,65. Entretanto, o número por si só não reflete o caminho conturbado a ser trilhado pela divisa até lá. “O real deverá continuar negociado em torno de R$ 1,75 por um certo tempo, refletindo um cabo de guerra entre o forte ingresso de capitais no País e as intervenções do governo no mercado de câmbio”, afirmam os analistas.

Ainda assim, a visão do BofA Merrill Lynch é de que todos os fundamentos que vêm sustentando a tendência de valorização da moeda nacional permanecem inalterados. “E enquanto o déficit em conta corrente deva aumentar, o balanço de pagamentos deverá manter-se favorável”, preveem.

8. Qual a melhor estratégia no mercado de juros?

O mercado de juros futuros vem precificando um aperto monetário muito maior do que o que provavelmente se configurará. Entre as taxas destacadas pelo banco está a de janeiro de 2011, que atualmente implica um ciclo de elevações na Selic 220 pontos-base superior ao projetado pelo Bank os America Merrill Lynch. “Consequentemente, mantemos nosso call em favor do recebimento dos futuros de janeiro de 2011”, sugerem os analistas.

9. A política irá afetar o cenário macro?

Não, “mas achamos que o mercado está subestimando o risco de mudanças nas políticas adotadas pelo governo após as eleições”, pondera. Ainda que o cenário mais provável para as eleições presidenciais em 2010 – o de José Serra (PSDB) contra Dilma Rousseff (PT) – seja considerado pelo banco como “favorável”, algumas incertezas permanecem.

A principal dúvida  é quanto à autonomia do Banco Central em ambos os possíveis governos, tanto de Serra quanto de Dilma. Já os candidatos Ciro Gomes (PSB) e Marina Silva (PV) são vistos com mais cautela e receio pela equipe do banco.

10. Onde as coisas podem dar errado?

“Como mencionamos na questão anterior, as eleições podem trazer mudanças nas políticas conduzidas pelo governo que não necessariamente serão positivas”, respondem os analistas.

Outro fator cogitado pela equipe é o de um aumento maior que o esperado nas cotações das commodities lá fora, o que representaria um grande risco para um aperto monetário mais incisivo e demorado que o previsto por aqui.

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