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09/02/2010 - 14h18

O desafio não acabou: o que está no caminho da recuperação econômica?

SÃO PAULO - Encerrado o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o mundo pôde tirar duas máximas das falas dos palestrantes presentes: realmente está ocorrendo uma recuperação na economia mundial e ela está sendo liderada pelos mercados emergentes. Contudo, a situação futura ainda permanece indeterminada conforme economistas enxergam problemas nas principais forças econômicas do planeta.

Conforme as discussões progrediam durante o encontro, ficou claro que há pouco consenso sobre como se dará a recuperação. Há quem veja motivos para uma recuperação em V - onde a economia global, passada a depressão, irá se recuperar rapidamente, atingindo os mesmos patamares pré-crise - ou talvez uma recuperação com formato de anzol - onde a recessão também é rapidamente superado, mas a economia se estabiliza em um patamar abaixo daquele anterior à crise.

Existem também outras variantes, como a recuperação em U - com uma depressão mais prolongada - e a temida recuperação em W - onde, após um período de prosperidade, a economia volta a se retrair. Tendo em vista o diagnóstico citado acima, de que a economia global está, de fato, passando por uma recuperação, o último formato citado é, atualmente, o principal motivo de temor dos analistas. E existem indícios de que este será o caminho que a economia mundial irá assumir.

China

Com projeções de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 10% em 2010, como calculou o Morgan Stanley, a China ocupa atualmente o centro das discussões econômicas e é vista como a possível redentora da economia mundial, cujo rápido crescimento irá ajudar a erradicar a recessão.

Porém, notícias recentes colocaram o país no hall dos vilões econômicos. Depois de muito se especular sobre os efeitos que o rápido crescimento chinês teria sobre a economia do país, a indicação de que as pressões inflacionárias estariam ganhando força levou o governo da China a adotar medidas para conter o seu crescimento, disseminando o pessimiso pelos mercados internacionais.

Outra questão que já frequenta há algum tempo as rodas de discussão econômicas é se existem ou não bolhas nos ativos do país asiático. De acordo com o professor de administração da Universidade de Wharton, Marshall W. Meyer, a China aparenta passar por uma bolha imobiliária,  com os preços dos imóveis já estando bem além do poder aquisitvo do chinês médio. "Se a bolha continuar a expandir, chegando a estourar, ela poderia liberar uma onda de pânico nos mercados financeiros internacionais", disse Meyer.

Além disso, ressalta o professor, a dinâmica da economia chinesa é propensa a ciclos de expansão e retração, sendo que os momentos de dilatação introduzem fatores nocivos à situação financeira global, como a pressão de alta sobre os preços das commodities.


EUA

Contudo, apesar da crescente relevância da China no cenário econômico, esta ainda não se compara com a importância dos EUA neste mesmo contexto e a preocupação com a saúde de sua economia. E, de acordo com a opinião de diversos economistas, a situação ainda não inspira grandes esperanças.

Fora o déficit fiscal, os problemas da economia real dos Estados Unidos, atualmente, podem ser reduzidos a três variáveis: crédito, preços dos imóveis e empregos, com um peso um pouco maior para o último deles. As outras duas problemáticas citadas, ainda que longe de terem sido equalizadas, já apresentam melhora frente a meses anteriores. 

De acordo com dados divulgados pelo Federal Reserve, em uma pesquisa feita com 50 bancos do país, nenhum disse ter dificultado o acesso ao crédito para companhias de grande e médio porte, sendo que apenas 2 dos entrevistados afirmaram ter elevado seus padrões para empresas pequenas. Corroborando com a pesquisa, o relatório Consumer Credit, divulgado na última semana, apontou um retração de US$ 1,73 bilhão no montante de crédito concedido ao consumidor norte-americano em dezembro em relação com o mês anterior, bem abaixo das projeções, que apontavam recuo de US$ 10 bilhões no período.

Porém, outra questão surge em meio a esta estabilização. Conforme o economista do UBS George Magnus ressaltou em seu artigo para o portal Fool.com, o sistema financeiro norte-americano continua altamente disfuncional. "Irá levar um longo tempo para que o setor bancário retraia e se desfaça dos ativos 'ruins' que ainda entopem os balanços trimestrais", afirma Magnus, iluminando outro ponto ainda pouco discutido - os Estados Unidos perderam a alavancagem financeira como um fator fomentador de crescimento.


Segmento imobiliário

"Nós também perdemos as famílias como um fator fomentador de crescimento", porque a dívida delas também se tornou excessiva e, de alguma forma, "dívidas têm que ser liquidadas ou reestruturadas", diz Magnus. Isto pode ser evidenciado pelo aceleramento do número de despejos no país por conta de inadimplência em hipotecas.

No entanto, vale lembrar, a situação já esteve pior: foi no mercado imobiliário dos EUA que a crise financeira teve seu início. "Parece que nós estamos formando um piso para o setor imobiliário", afirma a a professora da Universidade de Wharton, Susan M. Wachter, aludindo a melhora dos indicadores. "Nós temos uma estabilização do mercado imobiliário, o que é muito importante para o sistema bancário".

"O problema dos despejos é que vai impedir que uma recuperação em V aconteça no mercado imobiliário", diz Susan. Além disso, afirma que o altos níveis de desemprego também deverão dar sua contribuição negativa. "Pessoas que não têm empregos não irão comprar casas".

Mercado de trabalho

De acordo com o Employment Report divulgado na última sexta-feira (5), os Estados Unidos perderam 20 mil posto de trabalho em janeiro, fazendo com que o número de empregos eliminados desde o início da crise atingisse o patamar de 8,4 milhões. Para Bill Gross, da Pimco, esta fraqueza do mercado de trabalho irá dificultar a volta a prosperidade.

"Acredito que a situação é substancialmente diferente desta vez (em relação as crises passadas), uma vez que ao invés de alavancar, nós estamos desalavancando e ao invés de desregulamentar, nós estamos regulamentando", ressalta Gross. "Estas duas condições combinadas produzem uma economia muita fraca, um crescimento muito devagar e, em última instância, afeta mercados que dependem de apreciação de ativos".

Mas também há espaço para o otimismo. De acordo com Richard Marston, é muito improvável que as famílias norte-americanas alterem seu padrão de consumo, ou que elas retomem a sua rotina de compras, uma vez que a sua situação financeira se estabilize junto com o próprio país. "Não podemos descartar uma recuperação em W, mas acredito que ela seja altamente improvável", afirma Marston.

Dívida soberana

Por fim, conforme os economistas se permitem olhar mais à frente no horizonte da recuperação, outro problema já começa a preocupar. Para combater os efeitos da crise, governos assumiram dívidas privadas, injetaram grandes somas de dinheiro na economia em programas de estímulo e deixaram de auferir receitas de tributos através de isenções tributárias, o que pode criar dificuldades futuras.

"Não existe um precedente, em tempos de paz, para a rapidez ou a escala do aumento da dívida pública, e apesar de existirem precedentes de grandes ajustes fiscais em nações ricas - Canadá, Irlanda e Suécia, por exemplo - eles ocorreram sobre circunstâncias globais mais favoráveis. Desta vez, todos nós estamos tentando recuar simultaneamente", destaca George Magnus. "O desafio irá testar o ímpeto de nossos líderes políticos e instituições econômicas e sociais", completa.

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