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09/04/2010 - 10h56

"Aprenda a investir na Bolsa": vale a pena participar de cursos para investidores?

SÃO PAULO – A popularização do mercado de ações entre o investidor pessoa física trouxe consigo um novo nicho de mercado: os cursos para investidores. Eles abrangem desde os temas mais básicos, como “conheça a Bolsa de valores” e finanças pessoais até assuntos mais complexos, como operações alavancadas e com derivativos.

Se a BM&F Bovespa for atingir a sua meta de 5 milhões de investidores pessoa física nos próximos 5 anos, a tendência é que esses cursos continuem à disposição de quem quer saber mais sobre a bolsa e renda variável. Mas com tantas opções disponíveis, também são muitas as chances de o investidor cair numa armadilha, que mais atrapalha do que ensina.

As opiniões ouvidas pela InfoMoney são divergentes: de um lado, investidores que já participaram de diversos cursos tecem elogios aos materiais e aos professores. Entretanto, alguns profissionais do mercado alertam para a qualidade duvidosa de muitas das opções disponíveis, que oferecem muito mais do que estão preparadas a ensinar.

Os investidores

A maioria dos entrevistados, como o investidor Paulo Batista, afirma que os diversos cursos pelos quais já passaram foram bons e, de certa forma, até necessários. “Participei de seminários apresentando diferentes abordagens do mercado financeiro, o que me permitiu um conhecimento macro de conteúdo e players, e possibilitou com que eu me identificasse com profissionais que mostraram maior correlação com consistência de retorno no longo prazo”, diz Batista.

A investidora Nina Wurzmann também classifica os 2 cursos pelos quais passou como “ótimos”. “Os instrutores, além de serem profissionais de mercado, que já tomaram os seus tombos e então conseguem dar noções práticas, continuaram acessíveis depois do final do curso, o que foi muito positivo”, explica.

Um investidor de Porto Alegre, que preferiu não se identificar, também tem uma boa avaliação sobre os cursos dos quais já participou – foram 6 deles, entre cursos de corretoras e universidades. “O ambiente de troca de experiências com outras pessoas também é sempre produtivo, mesmo que hoje em dia eu não aplique mais alguns dos conceitos que aprendi”, afirma.

Maximiliano Mendonça, de Natal, destaca a importância dos cursos on-line para os investidores fora do eixo Rio - São Paulo, já que a quantidade de cursos presenciais nessas regiões cai drasticamente. Atualmente aluno de um MBA em gestão de ativos financeiros, Mendonça escolheu um curso on-line mas que permitisse contato em tempo real com o instrutor – que o agradou bastante.

Mas nem tudo são flores

Apesar da visão positiva dos investidores, não faltam reclamações sobre os cursos. A simplificação excessiva dos conteúdos é uma das ressalvas, assim como a falta de menção sobre as reais possibilidades e dificuldades de se ganhar dinheiro operando na bolsa.

“Os palestrantes dificilmente estão dispostos a revelar os resultados que obtêm com a técnica que eles ensinam, especificamente em termos de rentabilidade. Então existem muitos renomados especialistas que divulgam uma técnica, mas não a utilizam – ou só em segundo plano – nos seus próprios investimentos”, afirma o investidor de Porto Alegre.

Garantir que os instrutores tenham algo a acrescentar também é uma dificuldade. “Alguns instrutores são ótimos analistas do passado, porém não conseguem efetivamente analisar o presente e muito menos estimar probabilidades de futuro”, afirma Batista.

Do arco da velha

Fabio Calderaro, responsável pela área educacional da Link Investimentos, também é mais cauteloso em sua análise dos cursos de mercado. “Com o auge da entrada do varejo na bolsa, começou a surgir um mercado periférico não só de cursos mas também de ferramentas. As pessoas queriam se informar, aprender – mesmo porque a bolsa até então era vista como um bicho de 7 cabeças”, afirma.

Esse movimento, apesar de positivo, deu origem a muitos cursos sem preparo algum. “Começaram a aparecer pessoas que faziam um curso no final de semana, e na semana seguinte estavam eles próprios dando um curso, misturando as suas próprias teorias no meio”, diz Calderaro. “O mercado foi se apegando a noções do arco da velha, como achar que análise técnica é tudo o que há no mercado, é tudo o que o investidor precisa saber”.

Apesar de muito útil e de simples compreensão, o analista explica que a análise técnica deve ser acompanhada de operações quantitativas, como análise fundamentalista. “Não é somente que os cursos ensinem ‘verdades erradas’; às vezes, são ‘verdades insuficientes’”, aponta. “Não adianta o instrutor ensinar só o que ele sabe e falar que aquela é a ferramenta mais importante. Isso é iludir quem está começando, e não é tão fácil assim”, afirma.

Com o uso disseminado da internet, a situação só piorou. “O sistema interativo e os baixos preços acabam se sobrepondo à qualidade”, diz Calderaro, que defende uma regulamentação dos cursos oferecidos aos investidores. “Para trabalhar na corretora tem que ser agente autônomo ou ter um certificado da Anbid; para dar um call como analista tem que ter CNPI; mas para ministrar cursos não há regulamentação nenhuma”, afirma.

Paulo Portinho, do INI (Instituto Nacional de Investidores), alerta para outro tipo de armadilha: “Você paga R$ 500 reais no curso, mas só consegue aplicar o que aprendeu se comprar uma ferramenta de R$ 1.000 reais por mês. Aí não vale a pena”, frisa.

Para onde ir?

Apesar das opiniões divergentes sobre a qualidade dos cursos, as análises são unânimes na hora de apontar onde o investidor deve encontrar cursos de confiança. Instituições regulamentadas ou de ensino reconhecidas devem ser as primeiras opções, já que as chances de um material didático apropriado e instrutores bem preparados aumentam consideravelmente dependendo do porte e nome da instituição.

As corretoras também estão na lista de possibilidades na hora de procurar um bom curso, mas Portinho lembra que é preciso ter cautela. “Para algumas corretoras o objetivo é ter o investidor como clientes. Tem corretoras que conseguem ter áreas educacionais completamente separadas da área comercial, mas nem todas”, diz.

Mas além disso, o investidor deve primeiro avaliar o que ele espera do curso. “O que o investidor precisa ter em mente é que se ele quer ser um investidor de longo prazo, ele precisa procurar um curso de análise fundamentalista. Se ele quer especular, ele precisa de um curso de análise técnica, para que ele não se decepcione”, afirma Portinho. Controlar a impulsividade e a autoconfiança também é importante – não esperar que um curso de 10 horas sobre investimentos seja a solução para se ficar rico. “Não se forma um investidor em um final de semana”, frisa Calderaro. “Não existe curso que faça você duplicar seu capital em 1 ano”, decreta Mendonça.

Para o investidor de Porto Alegre, esse foi o caso. “Só quase 6 anos após o meu contato inicial com bolsa comecei a gostar do estágio de amadurecimento que atingi, e hoje em dia consigo focar melhor nas abordagens mais compatíveis com o meu perfil. Passei a correr menos atrás do mapa do tesouro (que não existe) e comecei a fazer apenas o que entendo e me sinto melhor em fazer”, conclui.

O tempo de mercado do investidor também é uma vantagem na hora de optar por um curso. “Um aprendizado diversificado, através de bons livros, aumenta o senso crítico individual possibilitando que, a cada oferta de um novo curso, possamos diferenciar melhor aqueles com efetivo conteúdo e potencial, dos restantes”, diz Batista. “Com o tempo vamos aprendendo a diferenciar bons instrutores de outros que classifico como ótimos profissionais de marketing”.

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