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28/04/2010 - 11h48

Analistas traçam possíveis opções do Fed para executar sua estratégia de saída

SÃO PAULO – A expressão “estratégia de saída do Fed” traz à tona os piores temores dos investidores. E se a recuperação ainda não for sólida, e a retirada da liquidez injetada pelo Banco Central dos EUA na economia causar uma nova recessão, ainda pior?

Com isso em mente, os investidores esperam com apreensão as novas reuniões do Fomc (Federal Open Market Committee), procurando por dicas de quando a Fed Funds Rate sairá de seu patamar mínimo (entre 0% e 0,25% ao ano), e de quais são os próximos passos na estratégia de saída do BC norte-americano.

De maneira geral, os analistas afirmam que o Fed deve seguir o programa estabelecido para o encerramento dos programas de compra de ativos – como TALF (Term Asset-Backed Securities Loan Facility), TARP (Troubled Asset Relief Program), entre outros - e antes de dar outros passos para retirar a liquidez dos mercados. “As medidas quantitativas devem vir antes de qualquer mudança nos juros”, afirma o economista Dirceu Bezerra, da Rosenberg & Associados.

“O Fed ainda tem que desfazer alguns programas de liquidez. Eles já estão com algumas iniciativas no sentido de aperto das exigências de banco de compulsório, e também já começou um processo de diminuição de balanço – com a venda, por exemplo, das ações do Citi”, afirma João Pedro Ribeiro, economista da Tendências. “São coisas que devem preceder a alta de juros”.

Para Silvio Campos Neto, economista do Banco Schain, o próximo passo é a indicação do Fed em relação aos seus planos para a política monetária dos EUA. “Algumas medidas já foram retiradas, daqui em diante é mais uma questão de sinalização, comunicação com o mercado para o momento em que eles vão subir a taxa básica de juro”, afirma.

Próximos passos

Apesar do consenso em relação ao fim dos programas de compra de ativos como “próximos passos”, os analistas se mostram mais reticentes em apontar possíveis medidas adicionais que podem ser tomadas pelo BC norte-americano. Vale mencionar que, no início de março, o JP Morgan compilou um "manual da estratégia de saída", tentando antecipar os próximos movimentos do Fed. 

Uma nova elevação da taxa de redesconto - já alterada em fevereiro - é uma possibilidade aceita pela maioria dos analistas – que, entretanto, não afirmam categoricamente que ela vá ocorrer. “Alguns documentos do Fed já mostram que alguns dos membros defendem essa iniciativa, mas eu não sei avaliar exatamente a probabilidade de isso acontecer”, afirma Omero Guizzo, da LCA.

Ribeiro tem opinião semelhante. “É difícil dizer quando vão ser tomadas outras medidas. O Fed pode sim mexer na política de liquidez, como elevar a taxa de redesconto, mas precisar quando e o que vai ser é quase impossível. Os programas ainda têm que terminar, e parar as compras de securities – essas são as próximas medidas na fila”, afirma o economista.

A dificuldade em traçar um plano mais preciso é resultado, em parte, do grande leque de opções do BC. Além da taxa de redesconto, o Fed pode optar, por exemplo, por intensificar as reverse repos. “Já foram feitos testes, e isso pode se intensificar daqui pra frente”, explica Guizzo, que frisa que há ainda outras opções, como o pagamento de juros sobre reservas; “O Fed tem diversas medidas à sua disposição, que ele vai escolhendo conforme a evolução da economia”.

Indicadores

Para traçar sua estratégia de saída, o Fed se mantém atento à situação econômica como um todo – entretanto, o peso dos indicadores não é sempre o mesmo. Nesse caso, o mercado de trabalho é o mais importante deles, e sua recuperação deve ser o fio guia da estratégia de saída dos EUA.

“Enquanto a taxa de desemprego não recuar de maneira sólida, não vão mexer na taxa de juro”, explica Campos Neto. Vale lembrar que apesar das 162 mil novas vagas apontadas no Relatório de Emprego dos EUA de março, a taxa de desemprego se manteve estável em 9,7%.

Ribeiro também aponta o mercado de trabalho como termômetro da alta de juro. “A economia norte-americana mostra importante recuperação em diversos setores, inclusive no mercado de trabalho – apesar de ser apenas um mês de resultado positivo. Mas o avanço do PIB ainda é anêmico, e o Fed só vai promover uma reversão de política monetária quando a trajetória de contratações estiver mais consolidada, o que ainda não é o caso”.

Segundo Guizzo, historicamente o Fed inicia um ciclo de aperto monetário depois que o mercado de trabalho começa a reagir de forma decidida. “Ainda não vimos uma queda na taxa de desemprego. Quando o BC vir essa taxa recuando por algum tempo, ele vai começar a mexer na taxa de juro”, explica.

“Extenso período de tempo”

Na visão de Ethan Harris, Michael Hanson, Gary Bigg e Neil Dutta, do Bank of America Merrill Lynch, o próximo comunicado do Fed não deve trazer surpresas. “É como ver a tinta secar”, afirmam os analistas em relatório. Apesar das mudanças na Fed Funds Rate estarem descartadas pelo mercado, o banco espera que o BC norte-americano eleve suas projeções de crescimento, destaque a retomada lenta e contínua em alguns setores. Em termos de linguagem, o banco acredita na manutenção das frases já usadas para a inflação e para a taxa básica de juros.

Bezerra também não vê possibilidade de o Banco Central dos EUA retirar a frase referente ao “extenso período de tempo” por hora. “O comunicado pode ser mais otimista sobre a atividade", explica. Ribeiro também não espera que a frase seja retirada do comunicado tão cedo – para ele, esse passo virá somente depois do fim dos programas de compra de ativos do Fed.

Entretanto, a opinião não é unânime. Guizzo afirma que a supressão da frase não seria uma surpresa para o mercado, que já vem antecipando a mudança. “Alguns membros do Fomc têm dado a entender que, quando o Fed se refere a esse período prolongado, ele quer dizer algo em torno de seis meses – ou seja, até mais ou menos o último trimestre, pelo menos”, afirma.

Já o economista do banco Schahin se mostra mais cauteloso: “acho que a questão sobre se haverá ou não mudança no comunicado tem gerado incerteza em grande parte do mercado. Não sei se será agora – mas considerando os números da economia, a frase referente à Fed Funds Rate pode ser retirada nesse ou no próximo comunicado”.

Fed Funds Rate: inalterada até quando?

Para o Bank of America Merrill Lynch, a probabilidade de uma elevação da Fed Funds Rate em 2010 é bastante baixa – em torno de 20%. Esse número vai para 35% no primeiro trimestre de 2011, e 45% para depois disso. “Apesar do nosso otimismo, é uma recuperação anêmica em relação a padrões históricos, e há chances de que a mudança na taxa básica de juro venha ainda mais tarde do que a nossa projeção de março de 2011”, afirmam os analistas.

Campos Neto vê a possibilidade de o BC dos EUA mexer na taxa de juro ainda em 2010, apesar de admitir que uma mudança antes do final do ano é improvável.

Assim como o banco norte-americano, a LCA espera uma mudança na taxa para o começo do ano que vem. Já Bezerra e Ribeiro são mais enfáticos: “a probabilidade da Fed Funds Rate ser elevada em 2010 é nula”, diz o economista da Rosenberg. Ribeiro, por sua vez, coloca a alta da taxa básica de juro norte-americana apenas no segundo trimestre do ano que vem.

Liquidez

Entretanto, Bezerra vê a diminuição de liquidez nos mercados como um potencial risco – já que, na avaliação do economista, o otimismo em relação à economia norte-americana é exagerado.

“Não vemos um crescimento nem próximo dos 3% a 4% que estão sendo previstos para os EUA neste ano. A recuperação deve ser mais lenta, porque com a retirada da liquidez, a retomada cai por terra, com a economia pressionada pelo desemprego e pela ausência de crédito para as pequenas e médias empresas”, afirma o economista. “O Fed vai voltar atrás com a retirada de liquidez dos mercados”.

Apesar de ser um dos grandes temores dos mercados, a retirada da liquidez é, contudo, necessária. Mais do que impulsionar a economia de maneira artificial, ela afeta de maneira negativa o já enorme déficit fiscal do país.

“O déficit fiscal, apesar de ser um problema significativo no longo prazo, deve ter sua resolução adiada para depois da recuperação”, afirma o BofA Merrill Lynch, destacando que a retirada prematura das medidas de estímulo seria a pior medida para a recuperação. “O Fed aprendeu com a depressão e com a situação japonesa, e sabe que eliminar políticas de estímulo precocemente é a melhor maneira de causar uma nova recaída”, afirmam os analistas.

Fed Fakes

O BofA Merrill Lynch também publicou um relatório sobre os principais guias da política monetária do Fed. De acordo com o banco, tentar encontrar “sinais ocultos” nas mínimas mudanças de linguagem nos comunicados do BC é enganoso – e o mercado conseguiria projetar um cenário mais preciso se virasse seu foco para alguns fatores fundamentais na direção da política monetária do Fed. “Focando nesses fundamentos e procurando por sinais os investidores estão menos propícios a cair nos ‘Fed fakes’ que acompanham a estratégia de saída”, afirmam os analistas Michael Hanson, Neil Dutta e Ethan Harris.

Um exemplo dado pelo banco é a interpretação exagerada de alguns economistas ao discurso de Ben Bernanke ao Joint Economic Committee em 14 de abril, no qual o presidente do BC não mencionou política monetária. “Pode até ser que isso signifique uma abertura para mudanças nesse sentido, mas temos uma explicação mais simples: esse discurso é focado nas perspectivas da economia. É por isso que o título é ‘perspectivas para a economia’, e é por isso que ele não discute política monetária”, afirmam.

O núcleo da inflação é o primeiro desses fatores. Com taxas de juro excepcionalmente baixas, a tendência é que aumentem as pressões inflacionárias – o que ainda não tem acontecido nos EUA. Uma forte mudança para cima nas expectativas de inflação seria um sinal importante para o Fed.

O mercado imobiliário também deve ser observado com atenção – uma recuperação pode indicar elevação dos juros, enquanto uma piora pode levar o Fed a reiniciar seu programa de compras de hipotecas. O crédito a pequenas e médias empresas também deve ficar no foco do BC norte-americano, já que é necessário para uma recuperação sólida.

Assim como os demais analistas, o BofA Merrill Lynch também ressalta a importância do mercado de trabalho nas decisões do Fed. “Alguns meses de dados positivos nos balanços de pagamento não serão suficientes para que o Fed eleve a taxa de juro, mas pode desencadear o início das mudanças de linguagem do comunicado”, afirma o banco.

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