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06/05/2010 - 20h55

Mercado sensível demais a pequenas mudanças levou a forte queda, dizem analistas

SÃO PAULO – A brusca queda dos mercados assustou muitos investidores nesta quinta-feira (6). No meio da tarde, as principais bolsas norte-americanas despencaram – o Dow Jones perdeu quase mil pontos (recorde histórico), recuando 9,2% na mínima do dia. O movimento foi acompanhado pelo Ibovespa, que bateu nos 60 mil pontos durante a sessão.

Apesar de os índices terem amenizado as perdas, a forte pressão vendedora surpreendeu ao mostrar que a volatilidade pode ser muito maior do que a que os mercados já vinham enfrentando desde o início do ano. Outro ponto a se destacar do movimento da sessão é o seu gatilho: praticamente nenhum.

O aumento da aversão ao risco foi atribuído a temores em relação à Grécia, e ao contágio das demais economias do continente europeu. Entretanto, a sessão trouxe poucas novidades que justificassem tamanha reação: após colocar os ratings dos bancos gregos em revisão, a Moody’s afirmou que a crise fiscal europeia pode impor ameaças a instituições bancárias de países como Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e Reino Unido.

Ainda no continente, o parlamento grego aprovou as medidas de austeridade fiscal para melhorar a situação de suas contas públicas – o que gerou novos protestos no país. Comparado com o recente fluxo de notícias, as novidades não deveriam ter caído como uma bomba no mercado e desencadeado tamanho pânico.

Mercado sensível

“No caso de um mercado muito sensível a novidades ruins, notícias como essas começam a aumentar a percepção de que os piores cenários possíveis podem acontecer, e as bolsas reagem com muita violência”, afirma Omero Guizzo, da LCA. Para ele, o desempenho do mercado seria ruim com ou sem as notícias – e com ou sem o possível erro de ordem na NYSE, que está sendo investigado.

“Eventos espetaculares à parte, é a combinação de um mercado muito suscetível a pequenas mudanças, vendo que os piores cenários possíveis em relação à Europa podem se concretizar”, explica o economista da LCA.

Sérgio Manoel Correia, da LLA também não acredita que um erro nas negociações seja o culpado pela forte queda das bolsas. “O erro pode ter ajudado, mas não foi só ele”, diz Correia.

Para o economista, as discussões acerca da reforma do sistema financeiro norte-americano também prejudicaram as bolsas nessa sessão. “Na incerteza, prejuízo bom é aquele que a gente conhece, então as pessoas resolveram vender no meio do nervosismo, cortando as perdas”, destaca.

Segundo ele, um exemplo de que o principal problema era a percepção, e não os fundamentos, é que os mercados amenizaram as perdas. “O cenário de indefinição e incerteza sempre pesa no mercado acionário – como já tem feito nos últimos dias. É um pouco o movimento de manada, o que é normal”, afirma Correia.

Default grego e contágio

Os problemas na Grécia, apesar de não serem novidade, parecem estar preocupando cada vez mais o mercado. “Parece que há uma crescente percepção de que a Grécia vai declarar um default”, afirmou o analista Dick Bove à rede norte-americana CNBC. O país precisa receber parte do dinheiro até 19 de maio.

Entretanto, a volatilidade deve permanecer mesmo depois da aprovação do pacote pelos demais membros da UE – a Alemanha, por exemplo, aprova nesta sexta-feira (7) a liberação do dinheiro do resgate.

“Mesmo se o contágio não é mais iminente e se a situação da Grécia está ‘resolvida’, Portugal também tem a sua lição de casa. Infelizmente, a história grega demorou muito para ser resolvida, e isso já trouxe Portugal e Espanha para o foco. O mercado vai passar a olhar pra eles”, explica Correia. Guizzo também acredita que o foco segue sendo a dívida soberana. “O temor dos mercados é de um replay do Lehman Brothers”, afirma.

“Vimos a crise começar em um país, a Grécia, e se tornar regional, impactando toda a Zona do Euro. Agora, o problema está quase se tornando global”, afirmou Mohamed El-Erian, CEO da Pimco, à CNBC.

Volatilidade à frente

Os próximos dias não devem ser mais calmos nos mercados. “Os alemães votam a ajuda nesta sexta-feira – as expectativas são boas, e é potencialmente uma boa notícia, mas pode mexer sim com o mercado”, diz Correia, frisando que, mesmo com a ‘solução’ em médio prazo dos problemas gregos, a questão fiscal segue em foco. “Podemos esperar mais volatilidade, com certeza. O contágio dos PIIGS segue sendo monitorados, apesar da situação não ser igual a da Grécia”.

O economista da LCA, contudo, tem uma projeção mais otimista para as próximas sessões. “Essa queda de quase 10% eu excluiria da amostra – é um evento isolado. Na sexta-feira eu espero alguma correção de exageros – mesmo se a Europa não melhorar, acho que essas quedas fortes não se justificam”, afirma Guizzo – que, entretanto, faz uma ressalva. “A volatilidade continua”.

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