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26/05/2010 - 10h59

Por que empresas de telecomunicação e energia podem ser defensivas?

SÃO PAULO – Nos últimos 30 dias, o Ibovespa, afetado pela turbulência externa envolvendo a crise fiscal europeia, recuou pouco menos de 15%. Ao mesmo tempo, as ações de CPFL (CPFL3), Telesp (TLPP4) e Sabesp (SBSP3) apresentaram, nesse mesmo período, oscilações bem mais animadoras.

O que essas companhias têm em comum? As três são integrantes de setores tidos pelo mercado como defensivos. Ou seja, em tempos instáveis para a bolsa, as utilities, ou prestadoras de serviço, o que engloba companhias fornecedoras de energia elétrica, de telecomunicação e de saneamento básico, por exemplo, tendem a ter um desempenho melhor do que o Ibovespa, explica Leonardo Zanfelicio, analista da Concórdia Corretora.

Cash cow

Mas por que essas empresas se destacam em cenários turbulentos? Zanfelicio explica que elas apresentam um conjunto de fatores que faz com que os investidores migrem para esses papéis nessas horas, o que acaba contribuindo para que, na contramão do Ibovespa, empresas desses segmentos apresentem, em alguns casos, até altas.

Uma das características positivas é a geração de caixa. As companhias desses setores costumam apresentar uma geração de caixa elevada, e por isso são conhecidas como cash cow (ou vacas leiteiras, na expressão em português). As receitas das empresas são apenas levemente afetadas por ciclos recessivos porque os indivíduos continuam a consumir energia elétrica, a usar o telefone, a beber água e utilizar a rede de esgoto.

Além disso, são empresas que requerem um nível de investimento em geral abaixo da média do mercado. Pedro Galdi, estrategista-chefe da SLW, explica que no caso das companhias elétricas, todo o investimento de peso é feito antes do início das operações, e depois recursos são necessário apenas para manutenção da estrutura, e nesse caso a escala é bem menor.

Mesmo quando é necessário expandir a capacidade instalada ou melhorar o serviço, as companhias costumam tomar empréstimos com taxas subsidiadas via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento) ou Banco Mundial, justamente porque apresentam garantias como sua receita futura na hora de acertar essa tomada de capital, explica o analista da Concórdia.

Dividendos

Com tanto dinheiro em caixa e pouca necessidade dele, as ações defensivas costumam ter um dividend yield (relação entre os dividendos pagos e o preço da ação) bastante elevado. Todas as empresas com capital aberto são obrigadas, por lei, a distribuir 25% do lucro obtido em proventos, mas algumas empresas de energia elétrica chegam a pagar 100% aos seus acionistas, lembra Galdi.

Mas não vale olhar só para o dividend yield de uma empresa para detectar se ela pode ser classificada como defensiva, alerta Zanfelicio. Na crise, a desvalorização dos preços dos ativos de uma série de companhias que mantiveram a mesma distribuição anterior de dividendos levou essa relação a patamares semelhantes aos das companhias elétricas, que costumam ser as melhores distribuidoras de proventos na bolsa.

Só que esse foi um efeito temporário, porque a retomada dos preços logo fez com que essa relação voltasse aos níveis normais, abaixo do yield de cerca de 10% comum para essas companhias. 

Estabilidade

Outro fator levado em conta na hora de classificar uma empresa como defensiva é a estabilidade. Zanfelicio explica que são empresas cujo negócio é muito mais estável do que o setor de commodities, que depende do cenário de oferta e demanda e do crescimento econômico mundial. Mesmo a indústria de bens supérfluos, como vestuário, acaba sofrendo bem mais do que companhias que produzem bens essenciais para o dia a dia.

Por isso, essas companhias também oscilam menos que o Ibovespa, o que não significa que elas não possam cair, explica o analista da Concórdia. "E o diferencial é que como os dividendos são elevados, tende a amenizar esse tipo de impacto", declara. Já Galdi atribuiu essas variações mais leves também à liquidez menor que apresentam esses ativos.

Falta de crescimento

Por um lado, se o recuo é menor em um cenário de alta volatilidade, tanto Galdi quanto Zanfelicio relembram que, em momentos de bonança, essas empresas também não costumam apresentar as valorizações expressivas das companhias baseadas em crescimento. 

Isso porque os ciclos econômicos positivos não costumar ser acompanhados por essas empresas. Como grande parte delas depende de concessões governamentais, o crescimento do negócio só acontece por duas vias: aquisições, como tem feito a Cemig (CMIG4), ou por participação em leilões. "As possibilidades são limitadas", avalia Zanfelicio. E mesmo empresas consideradas defensivas fora dos setores citados, como a Souza Cruz, não apresentam expansão porque o número de fumantes não tende a aumentar mesmo que a economia esteja aquecida.

Estratégia

Desse modo, o investidor que optar por apostar nessas ações tem que ficar ligado a sua estratégia. Zanfelicio recomenda aumentar a exposição a esses ativos em períodos como o que a bolsa atravessa agora, porque as perdas são menores, mas acredita que o investidor tem que ficar atento, já que quando o mercado voltar a subir, o ideal é apostar em papéis que irão acompanhar esse movimento. 

Além disso, o analista aponta para o reinvestimento desses dividendos, ao invés de simplesmente utilizá-lo para outros gastos, pois isso potencializa o rendimento desse montante. "O investidor aumenta sua posição e assim terá uma performance melhor no longo prazo do que aquele que não reinveste os dividendos", declara.

Para Luíz Augusto Pacheco, analista da Omar Camargo, é preciso que o investidor decida também contra o que ele está se defendendo. No momento, uma possível recessão na Europa não irá afetar o Brasil, cuja perspectiva de crescimento em 2010 é de 5,5%, acredita. As varejistas com forte exposição ao consumo doméstico, como Hering (HGTX3), Lojas Renner (LREN3) e Marisa (MARI3), caíram forte e estão apresentando preços atraentes, avalia Pacheco. 

Pedro Galdi, da SLW, acredita que essas ações formam um bom colchão na carteira do investidor, mas relembra que este deve ficar posicionado nesses ativos por um bom período de tempo, como dois a três anos, caso queira usufruir dos bons dividendos pagos. 

Riscos

E, embora sejam pontuais no setor, é sempre bom ficar atento aos riscos. Para empresas de telecomunicações, diz Galdi, os principais riscos dizem respeito a problemas estruturais, como reclamação e queda do sistema. Vale lembrar que a Telesp, por exemplo, ficou temporariamente proibida de vender seus serviços de banda larga pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) por dois meses no ano passado, o que afetou a receita e os custos da empresa.

Para energia elétrica, o estrategista da SLW comenta sobre ingerência na administração de empresas estatais. Por último, Leonardo Zanfelicio cita a Cielo (CIEL3), que poderia ser encaixada como defensiva, já que mesmo com uma queda do consumo a receita deveria permanecer estável, porque as pessoas ainda utilizariam seus cartões de crédito e débito, mas fica de fora por causa das oscilações enfrentadas frente às mudanças nas regras para o setor. 

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