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27/05/2010 - 11h51

Para investidor, há grande chance de crise europeia virar nova recessão global

SÃO PAULO - Mesmo com um pacote de € 750 bilhões acordado entre a União Europeia e o FMI (Fundo Monetário Internacional), as perspectivas dos investidores ainda são de cautela em relação à crise fiscal na Europa. O temor é que a crise que começou na Grécia continue contaminando outros países do continente com economias mais frágeis e endividamento em alta, como os PIIGS (acrônimo formado pelas iniciais de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha em inglês).

A percepção, no início, era de que essa seria uma crise restrita à região, mas a intensificação da aversão ao risco e a falta de resposta dos investidores ao noticiário em torno das medidas tomadas para sanar a crise fiscal europeia começam a incitar dúvidas se não haverá contágio a ponto de a economia global ingressar novamente em recessão, a exemplo da chamada crise do subprime, em 2008, nos Estados Unidos.

Em meio a este cenário, a InfoMoney coletou as respostas de seus leitores à seguinte pergunta: qual a chance de a crise fiscal europeia levar a economia global novamente à recessão? O resultado mostrou que, do total de 3.189 respostas, 498 (ou 15,62% dos leitores) acreditam que as chances deste quadro se confirmar são de 50%. Já 14,08% dos leitores foram ainda mais negativos, destacando a possibilidade de uma nova recessão global é de 100%. Apenas 7,71% dos votos descartam chance deste cenário recessivo se concretizar novamente por conta da crise fiscal na Europa.

Contágio

A economista-chefe da Link Investimentos, Marianna Costa, acredita que existe a possibilidade de o problema se estender para uma crise global. As medidas tomadas pelas economias europeias para conter o aumento do déficit, deverão, segundo a economista, representar um crescimento econômico ao continente menor que o projetado.  

 

Com isso, a expansão global pode ser prejudicada. Em meio a este cenário, o euro ficaria mais fraco e prejudicaria as cotações da commodities, atrapalhando o desenvolvimento de economias dependentes de exportações de matérias-primas, como é a brasileira. "Isso tudo combinado poderia levar a um novo mergulho da economia mundial", avalia a economista da Link. Contudo, Marianna ressalta que a probabilidade disso acontecer ainda é pequena, mas tem aumentado.

Espanha em foco

Deixando um pouco a Grécia de lado, a Espanha tem chamado maior atenção do mercado nos últimos dias. Recentemente, o FMI listou uma série de desafios que a economia espanhola tem pela frente, e entre eles estão um mercado de trabalho defeituoso, uma bolha imobiliária se desfazendo, alto endividamento público e privado e o crescimento anêmico da produtividade. O órgão afirma que o país precisa de reformas amplas – que se estendam além do âmbito fiscal.“Uma ambiciosa consolidação fiscal está em curso, e ela precisa ser complementada por reformas estruturais para elevar o crescimento, que dê continuidade ao progresso feito no setor imobiliário, e em especial no mercado de trabalho”. A projeção do FMI para a economia espanhola é de uma recuperação “frágil e fraca”.

De acordo com o órgão, os desequilíbrios já começaram a se estabilizar, com o grande déficit fiscal em queda e melhoras na competitividade. O avanço das exportações também conta pontos a favor da Espanha, assim como a inflação sob controle. A expectativa é que o crescimento do país avance gradualmente, atingindo 1,5% a 2% no médio prazo. “Baixo crescimento da população, alto desemprego e fracos investimentos pesam no crescimento potencial, e reiteram a importância de reformas estruturais”, completou o fundo.

A Espanha aprovou na última semana o pacote de medidas de austeridade fiscal que já havia sido anunciado anteriormente pelo primeiro ministro José Luiz Rodriguez Zapatero, que envolve € 15 bilhões. De acordo com o projeto ratificado, os salários dos trabalhadores públicos receberão um corte de 5% em junho, ficando congelados neste patamar até 2011. As mesmas condições se aplicarão a pensões e aposentadorias. Além disso, o chamado "cheque-bebê", que dava € 2.500 por cada nascimento no país, será suprimido.

Alemanha e Itália 

Mesmo sendo o país em melhores condições financeiras dentro do bloco econômico, a Alemanha já adotou medidas para defender sua economia. A BaFin - reguladora do mercado de capitais alemão - restringiu parcialmente este mês as operações de naked short selling (vendas a descoberto sem confirmação do aluguel) e especulação com CDSs (Credit Default Swaps) dos títulos europeus. Na última terça-feira (25), o governo da Alemanha propôs estender esta restrição. O novo plano proibiria o naked short selling em ações de todas as empresas alemãs listadas em índices domésticos, assim como especulação com CDSs em alguns títulos de dívida da Zona do Euro e derivativos de câmbio. 

Já o governo italiano aprovou um plano de austeridade fiscal no valor de € 24 bilhões, a fim de controlar as finanças públicas do país e, assim, restaurar a confiança dos mercados, que se mostram preocupados com os altos déficits fiscais.

Cautela no Brasil não se justifica, segundo FMI

Para Dominique Strauss-Kahn, diretor-geral do FMI (Fundo Monetário Internacional), o Brasil não corre o mesmo risco que outros países com altos déficits públicos. “Gostaria de ver outras das 86 economias do FMI se saindo tão bem quanto o Brasil”, disse Strauss-Kahn durante o 'VI Fórum Globo News – A economia global no mundo pós-crise', realizado pela emissora homônima.

Para Strauss-Kahn, a dívida pública dos países mostrou elevação em meio a crise, porém “curiosamente”, não pelos pacotes de estímulo, mas sim pela desaceleração na atividade econômica, o que reduz a tributação. O diretor-geral destacou ainda o papel do crescimento econômico dos emergentes para a recuperação mundial. “O fato é que todos os países do mundo devem estar gratos pela parcela de crescimento que provém dos países emergentes”, concluiu.

Reunido com o diretor-gerente do FMI, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, exaltou a situação da economia brasileira. Ele também afirmou que o País vem sendo pouco afetado pela crise europeia. "Um problema para discutir entre nós é a crise europeia, que preocupa todos. É uma crise localizada na Europa, porém traz consequências para o mundo como um todo, embora no Brasil elas sejam pequenas e, no momento se restrinjam à diminuição dos fluxo de capitais", disse Mantega. 

Strauss-Kahn e o ministro avaliaram que o temor dos mercados deverá ceder no futuro, devendo retroceder depois que as medidas dos países europeus para resolver a crise forem efetivamente adotadas. Mantega também criticou as medidas anunciadas até o momento, dizendo que um ajuste fiscal clássico, apenas com cortes de gastos públicos, não é o melhor modelo a ser adotado. "Não chego a propor um PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas é disso que eles precisam", afirmou, destacando que as condições de crescimento devem ser preservadas.

Qual a chance de a crise fiscal levar a economia global novamente à recessão? Votos Percentual
0% 246 7,71%
10% 167 5,24%
20% 340 10,63%
30% 253

7,93%

40% 392 12,26%
50% 498 15,62%
60% 261 8,18%
70% 256 8,03%
80% 189 5,93%
90% 140 4,39%
100% 449 14,08%
Total: 3.189 100%

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