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01/06/2010 - 11h55

Boas perspectivas e dívida forte colocam Plascar entre maiores altas da bolsa no ano

SÃO PAULO - Uma empresa com exposição direta em um dos setores mais prejudicados durante a crise de 2008, líder em seu mercado de atuação, com um ótimo histórico no quesito "Recursos Humanos" mas um perfil não tão favorável no tocante de seu endividamento e com perspectivas positivas para os próximos anos devido à necessidade de investimento do País em infraestrutura. Conheça a Plascar (PLAS3), a 14ª companhia com melhor desempenho na bolsa brasileira em 2010.

Desde o início do ano até a última segunda-feira (31), as ações da empresa líder na fabricação de peças de automóveis acumulam ganhos de 30,45%, estando cotadas atualmente a R$ 3,17. Embora já seja uma boa rentabilidade - levando em conta que o Ibovepsa acumula perdas de 8,08% no mesmo período -, vale destacar que, dentro destes cinco meses, elas chegaram a valer R$ 3,94, patamar visto no fechamento dos pregões de 18 de fevereiro e 2 de março, o que indicava uma valorização de 62,14%.

No entanto, diferentemente de outras empresas listadas entre as maiores altas da bolsa brasileira em 2010, como Telebrás e IGB (antiga Gradiente), que vez e outra ganham destaque no noticiário corporativo, a Plascar possui uma exposição midiática bem mais "tímida".

Diante disso, o que justifica o bom desempenho das ações em 2010?

Maiores altas da Bovespa em 2010 (até 31/05)
Empresa Código Var. 2010
IGB IGBR3 +188,29%
Telebras ON TELB3 +139,24%
Pet Manguinhos ON RPMG3 +130,30%
Telebras PN TELB4 +116,00%
Marisa MARI3 +66,86%
Cobrasma CBMA3 +63,64%
Direct to Company DTCY3 +54,55%
Pet Manguinhos PN RPMG4 +42,42%
Cia. Hering HGTX3 +41,73%
Vivo ON VIVO3 +41,73%
João Fortes JFEN3 +40,00%
Hotéis Othon HOOT4 +40,00%
Teka PN TEKA4 +32,26%
Plascar PLAS3 +30,45%
Exposição ao setor automobilístico

Dentre as diversas vítimas da crise financeira de 2008, a indústria de automóveis foi uma das mais prejudicadas, chegando ao seu ápice com o pedido de concordata da tradicionalíssima General Motors. Com a contração na demanda por automóveis tanto aqui quanto no exterior - a Plascar possui atuação em países do Mercosul e da Europa, assim como no México, Canadá, EUA e Austrália -, as ações da companhia estavam fadadas a serem duramente penalizadas pelo mercado.

E foi exatamente isso que ocorreu. Ao longo de 2008, os ativos PLAS3 passaram de R$ 9 - cotação do dia 1 de janeiro daquele ano - para R$ 1,40, o que mostra uma desvalorização de 84,4% - como base comparativa, o Ibovespa teve queda de 41,2% no mesmo período.

No entanto, o ano de 2009 foi marcado pelas pacotes de incentivo à economia mundial. Nos Estados Unidos, o "Cash for Clunkers" concedia benefícios ao cidadão que quisesse trocar seu carro velho por um mais novo. Por aqui, o anúncio de redução da alíquota do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) impulsionou as vendas de veículos. Em consequência disso, os papéis da companhia subiram 85,5% no ano, indo de R$ 1,31 para R$ 2,43, e esta tendência tem se alargado durante 2010.

"A Plascar está exposta a um dos setores que mais iria sofrer com a crise financeira. Mas com a redução do IPI, as vendas de automóveis no Brasil atingiram recordes, impulsionando as ações da companhia", afirma José Goes, consultor financeiro da corretora WinTrade.

Infraestrutura "obrigatória"

Outro driver considerado para as ações da companhia está associado diretamente ao desenvolvimento econômico brasileiro. Além do cenário macroeconomicamente favorável em torno do Brasil - espera-se que a economia local cresça 6,5% e 4,5% em 2010 e 2011, respectivamente, segundo as projeções mais recentes do relatório Focus -, existe a necessidade do País investir mais em infraestrutura para que esta expansão possa ser mantida nos próximos anos.

Segundo o analista Guilherme Paiva, do Morgan Stanley, o Brasil precisa dobrar sua taxa de investimento em infraestrutura para 4% do PIB (Produto Interno Bruto) se quiser crescer 5% ao ano na próxima década. Paiva diz que esse patamar, se for investido nos próximos 20 anos, será suficiente para alcançar o Chile, benchmark norte-americano nesse quesito. No entanto, se o País quiser alcançar o benchmark asiático - a Coreia do Sul, o percentual investido por ano teria que ser entre 6% a 8% do PIB.

Antes que os números possam desanimar alguns investidores, o economista do banco norte-americano, Marcelo Carvalho, diz que a expectativa dessa meta ser atingida é positiva, tendo em vista quatro fatores que deverão influenciar no futuro próximo: a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016, o desenvolvimento das reservas de petróleo do pré-sal e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Contudo, para que esta meta seja alcançada, o Morgan Stanley coloca alguns percalços que deverão ser vencidos pela economia brasilera. Problemas relacionados ao ambiente corporativo, prioridades dadas aos gastos fiscais, reformas no sistema tributário e a estrutura fiscal são as possíveis barreiras para o crescimento no nível estimado. A equipe de análise do banco ainda listou 20 empresas expostas às boas perspectivas para a infraestrutura, tendo dentre elas a Plascar.

Histórico de resultados limita otimismo

Apesar das concretas possibildades de a empresa tirar proveito do cenário de crescimento do Brasil, um ponto adverso tem mantido os investidores em alerta sobre o futuro da fabricante de peças: seus resultados. Embora ela venha de quatro anos consecutivos reportando lucratividade, os prejuízos acumulados ao longo de sua história inibem a companhia de remunerar seus acionistas via dividendos - a última vez que isto ocorreu foi em abril de 1998. No primeiro quarto de 2010, a companhia reportou um modesto prejuízo líquido de R$ 13 mil.

Principal limitador para que os lucros acumulados não sejam repassados aos acionistas da empresa é o seu forte endividamento acumulado. "A empresa tem muita falha na administração. Ela tem uma dívida muito grande e ainda possui extrema dificuldade de gerar resultados positivos", disse Goes.

Para o consultor da WinTrade, a Plascar possui uma posição de destaque em um setor que ainda tem muito a crescer, mas destaca a necessidade de melhorias na parte administrativa da empresa. "Há uma desconfiança muito forte em relação à companhia porque ela promete resultados positivos há muito tempo, mas não tem conseguido", complementa.

Evolução dos Exercícios da Plascar

(R$ em Milhões) 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 1T10
Lucro/Prejuízo Líquido

(45,2) (40,4) (35,4) (2,74) 45,7 51,1 15,0 10,1 (0,013)
Variação anual (%) - -10,6% -9,9% -92,3% - +11,8% -70,7% -32,7% -
Recursos Humanos

Embora a capacidade em reverter suas dívidas em ganhos não seja sua principal qualidade, a habilidade da Plascar em gerir pessoas acaba sendo algo que merece destaque, embora este não seja o assunto mais explorado nos calorosos debates sobre ações em fóruns da internet.

Total de Ações Cotação (31/05/10) Valor de Mercado
166.430.436 R$ 3,17 R$ 527,6 milhões
Composição Acionária (Atualizada em 03/05/10) 
Permali do Brasil* 56,52%
Máxima Asset Management 10,97%
Outros** 32,51%

*Subsidiária da International Components Group Brazil
**Acionistas cuja fatia de capital é inferior a 5%

Dentre as diversas conquistas da companhia na área de recursos humanos, vale ressaltar o prêmio Melhor Empresa em Gestão de Pessoas do Brasil, entre companhias com 2.001 a 4.000 funcionários, alcançado pela segunda vez consecutiva em 2009. Fora dos limites do território nacional, a Plascar também ganhou reconhecimento no México, onde ficou entre as 100 melhores empresas para se trabalhar na América Latina, concorrendo com 1.100 corporações espalhadas em nove países.

Para Goes, essas certificações mostram o diferencial da empresa na capacidade de desenvolver um capital intelectual singular, o que acaba refletindo numa melhor utilização da matéria-prima e no desenvolvimento de produtos ou serviços inovadores. Ademais, isso também pode ser traduzido como um ambiente organizacional mais agradável, o que diminui o risco de rotatividade no quadro de funcionários da empresa.

Rali mantido?

Fechando sua análise, Goes acredita que o patamar atual em que se encontram os ativos PLAS3 - entre R$ 3 e R$ 3,50 - está bem próximo do que ele considera justo. "Contudo, novas valorizações não são descartadas, levando-se em consideração mudanças favoráveis tanto no âmbito econômico quanto no corporativo", completa o consultor.

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