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24/06/2010 - 15h13 / Atualizada 25/06/2010 - 08h10

Corretoras deixam grandes investidores de lado e focam na classe média

SÃO PAULO – O crescimento da classe média brasileira nos últimos anos tem atraído as atenções de governo e empresas, interessados no potencial de consumo oferecido por esse novo mercado. Mas esse maior interesse não para por aí e atinge também o mercado financeiro. 

Cada vez mais as corretoras têm se voltado para o segmento de varejo, ainda muito incipiente no Brasil em comparação aos Estados Unidos, por exemplo, mas com uma trajetória recente de forte crescimento. 

Entre 2002 e 2009, o número de CPFs cadastrados na Bovespa aumentou em mais de seis vezes, passando de cerca de 85 mil para mais de 550 mil. Em maio deste ano, esse número estava em 556.133, de acordo com os dados mais recentes disponibilizados pela bolsa de valores. 

Já a participação das pessoas físicas na bolsa aumentou 8,6 pontos percentuais nesse período, atingindo 30,5% dos negócios no ano passado e superando os 25,7% representados pelos investidores institucionais. No mês passado, a participação delas foi de 26,5%, contra 34,3% dos institucionais, também segundo dados da BM&F Bovespa. 

Mudança de foco Em 10 anos de mercado, o carro chefe da corretora Alpes sempre foi o investidor institucional. Entretanto, uma parceria com a Win levou a uma mudança de foco na base de clientes, atualmente composta em sua maior parte por pessoas físicas. 

“Hoje não dá para comparar. São milhares de clientes pessoas físicas contra centenas no institucional. Nossa rentabilidade atual vem mais de 80% da pessoa física”, explicou à InfoMoney o diretor de varejo do Win Trade, home broker da Alpes, Paolo Mason. 

Na mesma linha, a corretora Codepe passou por uma reformulação no início do ano, também visando o crescimento no segmento de varejo. “Nossa ideia é dobrar nossa base de clientes (atualmente em torno de 4 mil) até o início do ano que vem. Meu sonho de consumo é chegar em 20 mil clientes em dois anos. É um objetivo agressivo”, avaliou à InfoMoney o gerente de varejo Rafael Moreira, recém-chegado à corretora para liderar esse projeto. 

Respaldo Questionados sobre as perspectivas para o mercado de pessoa física no Brasil, tanto Mason quanto Moreira citaram as projeções da BM&F Bovespa, que projeta que o número de pessoas físicas cadastradas na bolsa chegue a 5 milhões em cinco anos. 

Vislumbrando esse novo mercado potencial, a BM&F Bovespa vem ampliando suas ações educacionais, como o programa de televisão “Educação Financeira” e o desafio para estudantes de Ensino Médio, que antes era restrito a estudantes do sstado de São Paulo e passou este ano a atingir o Brasil como um todo através da internet. 

Os lançamentos recentes de novos produtos financeiros também têm contado com as pessoas físicas como público-alvo relevante. Em entrevista à InfoMoney, o diretor de renda variável da bolsa, Julio Carlos Ziegelmann, disse que, no futuro, os BDRs não patrocinados também serão oferecidos a esse público e manifestou interesse na maior participação das pessoas físicas em fundos de índice, como o INFC. 

A porta de entrada De volta às corretoras, o maior interesse no segmento de varejo tem estimulado uma maior preocupação com os sistemas de home broker, tidos como a porta de entrada das pessoas físicas no mercado financeiro. 

Na semana passada, a TOV lançou uma versão atualizada para seu sistema. “Qualquer home broker tem um ambiente um pouco mais limitado (em comparação com as plataformas profissionais). Então, podemos colocar como uma tendência no mercado a diminuição dessa diferença (entre os sistemas)”, avaliou o gerente de canais eletrônicos da corretora TOV, André Jorge. Praticamente todos os 41 mil clientes da corretora são pessoas físicas. 

Paolo Mason, do Win Trade, também considera o home broker fundamental em um cenário de expansão da participação de pessoas físicas no mercado. “Hoje você consegue atender 100 clientes por telefone. Quando você tiver 1 milhão, vai ficar impossível. Esses 5 milhões que a bolsa planeja não é para quem vai querer tê-los, mas para quem vai ter condições de tê-los.”

Desafios No Brasil, a falta de cultura de investimento, aliada ao desconhecimento do mercado estão entre os principais fatores a serem superados para a consolidação dos investidores pessoa física nos mercados de renda variável. 

“Nos Estados Unidos, as pessoas já nascem com um papel e têm aulas no High School (equivalente ao Ensino Médio brasileiro) sobre mercado financeiro. Se popularizarmos o mercado aqui também, começaremos a pegar nichos maiores da população”, explicou Jorge, da TOV, acrescentando que a corretora está preparando um programa educacional para oferecer a seus clientes. 

Já, Mason afirmou que a Alpes/Win não tem foco em programas educacionais, por avaliar que a participação da pessoa física no mercado financeiro não deve envolver operações muito complexas, como arbitragem e derivativos, por exemplo. A corretora defende que os investimentos desse público devem focar o mercado de ações e serem feitos para o longo prazo. 

“Não tem como a pessoa sair de casa e dar uma de especulador sem conhecer o mercado. Se você pegar uma base de clientes de pessoas físicas que começaram a investir cinco anos atrás, quem foi especulador perdeu dinheiro, se frustrou e parou. Quem segurou o papel está feliz ganhando dinheiro.”

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