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19/07/2010 - 11h18

Mercado revê projeções para a Selic, mas impacto no Ibovespa será modesto

SÃO PAULO - Embora o consenso ainda seja de que o Copom (Comitê de Política Monetária) irá elevar a Selic em 75 pontos-base na reunião da próxima quarta-feira (21), de acordo com o relatório Focus publicado pelo Banco Central, o mercado de juros futuros nesta última semana abriu a possibilidade de que talvez a intensidade do aperto monetário em curso seja menor.

No entanto, para os economistas consultados pelo Portal InfoMoney, uma alteração na política econômica traçada pelo Banco Central não deve acontecer já nessa reunião, embora certezas em relação ao encontro de setembro parecem ter se dissipado da mesma forma com que os indicadores econômicos nacionais mostraram arrefecimento. 

Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora, cita alguns dados que têm levado o mercado de juros futuros a reprecificar suas apostas. Um deles é o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor - Amplo), que marcou variação nula em junho e garantiu revisão para baixo das expectativas para a inflação em 2010, agora mais próximas dos 5%. 

Outro é a desaceleração observada nos indicadores referentes ao comércio e à indústria. Além disso, o indicador de atividade industrial do Banco Central registrou estabilidade entre abril e maio, "o que estaria ratificando o processo de desaceleração detectado e também esperado em nossa avaliação", menciona Velho. 

Diminuição do ritmo?

Por isso, alguns começam a acreditar que o comitê, analisando informações que serão divulgadas até então, irá diminuir o ritmo do arrocho com uma alta de 50 pontos-base na reunião subsequente, marcada para o dia 1º de setembro. Silvio Campos Neto, economista-chefe do Banco Schahin, por exemplo, fez uma revisão do panorama para a Selic nos próximos meses, em função do cenário observado até aqui, que ainda conta com deterioração da situação no front internacional. 

De 11,75% ao ano, Campos Neto acredita que a Selic ficará em 11,5% ao ano ao final de 2010, com um último aumento de 0,5 ponto percentual em setembro, quando então a autoridade monetária deverá interromper o ciclo de altas iniciado em abril. No entanto, nem todos compartilham desse consenso. 

Cenário ainda em aberto

O Barclays, por exemplo, trabalha com mais duas elevações consecutivas da taxa em 75 pontos-base, alegando que os números relativos ao desaquecimento da atividade econômica no País estão em linha com o esperado para esse segundo trimestre. Marianna Costa, economista da Link Investimentos, adota a mesma linha. 

Marianna também lembra que essa "surpresa" com inflação mais controlada e atividade negativa era amplamente esperada pela maioria dos economistas, tanto por fatores sazonais quando por causa de efeitos estatísticos, com a base de comparação muito forte que foram os três primeiros meses desse ano. 

Após esse período de atividade econômica intensa, explica Marianna, "era esperado que houvesse acomodação de atividade, justamente o que aconteceu. Por enquanto, não dá pra dizer que houve desaceleração", completa a economista. A percepção que ainda existe, em sua opinião, é de que o segundo semestre de 2010 continuará a ser um período de atividade forte e de pressões inflacionárias importantes.

A economista ainda completa, avaliando que, se porventura os próximos dados indicarem que há desaceleração da atividade em maior escala e ampla acomodação de preços, "aí sim o Banco Central pode talvez rever e sinalizar alta de juros menor do que o mercado esperava", até mesmo porque a autoridade monetária deixa sempre claro que leva todos os números à sua disposição na tomada de decisão.

Efeito sobre renda variável

Se o cenário desenhado nos próximos meses for mesmo de Selic mais baixa, com teto de 12% ao ano, ainda assim esse não deverá ser um fator de alívio para a renda variável, que apresenta desempenho negativo de cerca de 9% em 2010 até o momento, utilizando como medida o Ibovespa.

Para Ricardo Martins, economista da Planner, a taxa de juros sempre é uma inimiga do investimento em ações, e por isso não é possível avaliar que o impacto seja nulo, "embora tenhamos que admitir que não é isso que vai definir nosso mercado, com o cenário na Europa e agora nos EUA piorando", aponta. 

Silvio Campos Neto é da mesma opinião, ao avaliar que o mercado pode até receber bem uma decisão tomada sem unanimidade, com alguns membros votando por reajuste mais ameno nesta reunião, mas a conjuntura externa, com todas as incertezas que envolvem a retomada do crescimento global, devem pesar mais sobre o Ibovespa. 

"O efeito ficaria diluído e seria compensado pelo fato de que as demais informações não estão ajudando a renda variável nas últimas semanas", explica o economista do Banco Schahin. Ainda assim, o peso que o ciclo de aperto monetário terá sobre o Ibovespa, ao contrário de momentos de arrocho ocorridos no passado, será bem menos negativo, ao menos na opinião de Marianna Costa. 

Autoridade monetária comprometida

A economista da Link Investimentos percebe que a leitura feita pelo mercado do atual ciclo é de que temos uma autoridade monetária bastante presente e comprometida com o regime de metas de inflação. "Esta austeridade do BC é algo muito bem visto tanto pelo mercado de renda variável quanto de renda fixa. Uma alta de juros no Brasil não prejudica a renda variável, pelo contrário, ratifica que temos um comitê comprometido com a política monetária", conclui Marianna. 

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