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23/07/2010 - 06h50

Fim do reajuste de energia ligado à inflação é negativo, mas improvável

SÃO PAULO - O possível fim do ajuste inflacionário na renovação dos contratos de concessões das companhias geradoras e distribuidoras de energia elétrica, sinalizado recentemente pelo presidente da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Nelson Hubner, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, teve impacto negativo entre os analistas.

Atualmente, os contratos de concessões de energia elétrica preveem reajustes anuais nos preços, de acordo com a inflação do País. Mas por que o fim destes reajustes trazem tanto pânico ao mercado? Acontece que os analistas olham além de simples contratos, e veem na proposta um possível risco ao caráter defensivo do setor. 

Além de, em geral, as utilities serem boas pagadoras de proventos, com o reajuste anual dos preços em relação à inflação, os analistas podem fazer suas projeções à medida em que acompanham a movimentação inflacionária da economia, garantindo uma maior previsibilidade ao cenário das empresas do setor, o que possibilita a criação de valuations mais certeiros pelos bancos e corretoras.

Um vez adotada, a proposta de Hubner pode, então, denegrir este caráter defensivo das utilities, o que alimenta as preocupações dos analistas. Contudo, o consenso de mercado é que as chances desta medida ser efetivada de fato são muito pequenas. Cabe mencionar que a maioria das concessões de energia elétrica no País deverá ser renovada em 2015.

Surpresa!

De acordo com Marcos Severine, Mariana Coelho e Marcel Shiomi, da Itaú Corretora, a declaração de Hubner foi uma "surpresa". Eles destacaram que a Aneel "há tempos é uma referência no Brasil". Porém, depois da fala de Hubner, eles "não mais acreditam que a entidade possa ser intitulada dessa maneira".

A equipe da Itaú se mostrou indignada com a situação. "Absurdo! Isto não pode ser verdade", disseram. Os analistas defendem que não há um argumento econômico capaz de dar suporte à ideia proposta pelo presidente da Aneel. Eles lembraram que, nas décadas de 1970 e 1980, as tarifas de eletricidade foram utilizadas para manter a inflação do País sobre controle, resultando na deterioração da geração de caixa das companhias do setor e em investimentos escassos, acarretando em uma "precária infraestrutura elétrica".

Para a corretora, porém, não é provável que voltemos àquela época, principalmente se considerarmos os grandes desafios que o Brasil terá de enfrentar para atender às necessidades de infraestrutura nos próximos quatro anos. "Embora o discurso de Hubner aumente as preocupações, nós acreditamos que ainda seja muito cedo para precificar tal cenário irracional", completaram os analistas. 

Impactos à economia...

Mesmo partilhando da ideia de que será muito difícil a aprovação da medida proposta pelo presidente da Aneel, os analistas Maria Carolina Carneiro e Marcio Prado, do Santander, avaliam que, uma vez adotada, ela traria impactos negativos não apenas para as companhias, como também para a economia brasileira como um todo.

Segundo eles, o equilíbrio financeiro e econômico das concessões seria afetado seria afetado pela adoção dos preços fixos. "O retorno menor implicado nestas concessões poderia reduzir o apetite dos players privados em continuar suas operações e investimentos", argumentou a equipe do Santander.

Além disso, as possibilidades de o governo não aprovar a proposta também são reduzidas se pensarmos pelo fato de que a Eletrobras (ELET3, ELET6) - que é uma companhia pública - deverá ter sua geração de caixa "seriamente afetada", na análise do Santander. "A eliminação do ajuste inflacionário e a garantia de remuneração adequada pelas concessões pode levantar muita discórdia entre as companhias do setor elétrico e o governo", alertou o banco.

...e aos preços!

 Sem comentar muito sobre o assunto, a analista Lilyanna Yang, do UBS Pactual, destacou que vê a proposta como "desnecessária", uma vez que na análise do banco a fórmula atual de parâmetro para os preços já protege os consumidores de reajustes abusivos por parte das companhias elétricas. 

"O que é mais importante é que as propostas de Hubner ainda não foram formalmente apoiadas pela Aneel e pelo governo brasileiro, o que deve ser o primeiro passo para debatermos este assunto em público", avaliou a analista do UBS.

De acordo com a equipe de análise do Barclays Capital, formada pelos analistas Felipe Mattar, Sergio Conti e Bruno Pascon, a adoção da medida de Hubner com o intuito de preservar o consumidor de possíveis reajustes abusivos poderia ter efeito contrário. "Nós destacamos que revender concessões sem cláusulas de inflação aos players privados poderia gerar um aumento nos preços (uma vez que o risco inflacionário seria precificado nas contas)", afirmam os analistas. 

Quais empresas poderão ser afetadas?

Se o reajuste anual dos preços em relação à inflação do País for realmente excluído dos contratos de concessões, muitas companhias, segundo os analistas, deverão ser atingidas negativamente. "A lista é longa, e inclui em sua maioria papéis de empresas controladas pelo governo: Cesp (CESP6), Eletrobras (ELET3, ELET6), Cemig (CMIG4), Copel (CPLE6)", destacaram os analistas da Itaú Corretora.

O Santander, por sua vez, destaca que as companhias que seriam mais afetadas caso o reajuste inflacionário fosse retirado dos contratos de concessões seriam a Cesp e a Eletrobras. "A Cesp tem 67% de sua capacidade com concessões terminadas em 2015, enquanto a Eletrobras possui 33% de sua capacidade na mesma situação", destacaram os analistas do banco.

Recomendações

No setor, a equipe do Santander destacou que a Light (LIGT3) e a Copel aparecem como as duas opções que não possuem muita exposição à renovações de concessões. O preço-alvo do banco para estas duas companhias é de R$ 27,60 e R$ 39,20, respectivamente, com recomendação de compra.

Destacando que permanece positivo com o setor elétrico no Brasil, a analista do UBS Pactual revelou que os nomes preferidos do banco neste segmento são Tractebel (TBLE3), AES Tietê (GETI3) Transmissão Paulista (TRPL4) e Energias do Brasil (ENBR3). 

Já os três analistas do Barclays Capital possuem recomendação overweight (desempenho acima da média do mercado) para oito papéis: Light, Coelce (COCE5), Cesp, Transmissão Paulista, Equatorial Energia (EQTL3), Energias do Brasil, Copel e AES Tietê. 

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