UOL Notícias Economia

BOLSAS

CÂMBIO

 

11/08/2010 - 18h10

Na onda de cursos sobre investir em Bolsa, é preciso separar o "joio do trigo"

SÃO PAULO – O cenário econômico propício para o investimento em ações faz surgir um novo mercado: o de cursos voltados para quem quer ir para a Bolsa.

“Penso que este fenômeno é natural. O mercado de renda variável brasileiro está se popularizando agora, uma vez que os investimentos de renda fixa estão se tornando cada vez menos interessantes. Isso é um sinal positivo que indica um amadurecimento do brasileiro como investidor”, conta o fundador da Operação Consultoria e Treinamento, Rogério Passos.

Já o educador financeiro e fundador do Centro de Estudos e Formação de Patrimônio Calil e Calil, Mauro Calil, destaca que o brasileiro deve fazer dois tipos de investimento: no mercado de ações e também em educação financeira. “Não dá para ficar mais fora da Bolsa”.

Mas, em meio a este cenário, surgem muitas dúvidas por parte dos investidores, principalmente sobre que curso escolher, o que eles passam ao investidor e como não cair em armadilhas.

Ilusão dos investidores

Quando buscam esses cursos, muitos investidores acreditam que terão respostas para perguntas do tipo: “Em que empresa devo investir?”, “Qual setor vai deslanchar daqui para a frente?”, “A Bolsa vai atingir quantos pontos ao final do ano?”.De acordo com os entrevistados, isso é pura ilusão e, se quer essas respostas, é melhor o aplicador não fazer o curso.

“Eu, reiteradas vezes, recebo perguntas como 'O que você acha da empresa tal?' e, por ética, não falo de empresas. Tudo que coloco nos cursos é como exemplo, sempre com a ideia de que a Bolsa tem visão de longo prazo. Não é para dar nomes, senão a pessoa vai chegar em casa e sair comprando”, diz Calil.

Passos completa dizendo que, na ânsia por acertar, a maioria busca cursos no sentido de obter “dicas quentes”. “Na minha humilde opinião, essa é uma intenção bastante ingênua, já que ninguém pode prever o futuro. Nem a melhor das análises pode prever o futuro”.

Outra ilusão dos investidores é pensar que o curso mostrará como ficar rico. “Faz muito mais sentido centrar esforços no controle adequado da exposição ao risco do que na tentativa infrutífera de prever o futuro”, diz Passos, que acrescenta: “Acredito que o principal erro [do investidor] seja acreditar que existam fórmulas mágicas para se ganhar dinheiro no mercado. Não existem”.

O problema do mercado

De acordo com Calil, o problema é que existem muitos cursos livres com discurso comercial agressivo, que vendem a ideia de a pessoa ficar milionária. “A Bolsa de Valores não é isso e eles prestam um desfavor para o mercado”, afirma.

Outra prática nada legal é de apresentar uma forma de atuar no mercado que exija que o investidor adquira algum produto do promotor do curso.

“Esses cursos não têm regulamentação e nem vão ter. A CVM [Comissão de Valores Mobiliários] regula o mercado de capitais, não o mercado educacional. E o MEC [Ministério da Educação] vai fazer isso? Não, porque é um curso livre”, ressaltou Calil.

É por isso que o investidor deve ficar atento na hora de escolher o curso. E o preço, conforme diz Calil, não deve ser direcionador da escolha, já que “conhecimento não é commodity”, em suas palavras. Ou seja, não é possível comparar dois cursos. Ele contou que existem alunos que fazem a conta por hora/aula, mas que, enquanto existem gratuitos voltados a iniciantes, existem cursos caros para pessoas que já têm mais experiência. “As pessoas têm de ter certo discernimento”.

Além disso, procure cursos de instituições idôneas. Quando o objetivo de quem promove o curso é colocado de forma clara, fica mais fácil entender a mensagem que se quer passar. “Se uma corretora dá uma palestra gratuita, é obvio que ela tem interesse que você vire cliente. Nesse aspecto, não vejo nada de errado”, afirma Calil, com um exemplo que contrapõe o caso de cursos feitos para venda de produtos.

O objetivo do curso

De acordo com Passos, os objetivos de um bom curso sobre investimento em renda variável devem ser explicar em detalhes o funcionamento do mercado de capitais, apresentar alguma metodologia concreta de análise – seja técnica, fundamentalista ou estatística – e, sobretudo, ensinar o investidor a controlar sua exposição ao risco em cada operação que assume, sem se entregar às emoções.

“O investidor iniciante deve sempre procurar por cursos que tenham fundamentação científica e que priorizem o controle do risco, de preferência com validação estatística dos conceitos apresentados. Investimentos pessoais são coisa muito séria para não serem tratados com rigor matemático”, afirma Passos.

Além disso, ele disse que é interessante que o investidor procure a opinião de ex-alunos de cada curso antes de escolher um para se matricular. “É preciso separar o joio do trigo”.

Hospedagem: UOL Host