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26/12/2009 - 11h52

Investimento na Copa de 2010 não tira África do Sul da crise

Por António Pina, da Agência Lusa

Johanesburgo, 26 dez (Lusa) - A realização da Copa do Mundo trouxe grandes injeções de dinheiro e modernizou as infra-estruturas fundamentais para o futuro da África do Sul, mas não é suficiente para fazer o país sair da crise econômica.

As últimas projeções do governo indicam que a maior economia africana não deverá crescer mais do que modestos 1,7% em 2010, o que, apesar de constituir uma aparente saída da recessão, estará longe de absorver o impacto criado por uma estimada quebra de entre 1,7% e 2,2% do PIB neste ano. Fora a perda de 959 mil empregos nos primeiros 9 meses deste ano.

Num cenário de crise global, os benefícios da Copa não podem ser ignorados em em relação ao enorme investimento feito pelo Estado na infra-estrutura rodoviária, ferroviária e aeroportuária. Além do setor de telecomunicações e outras áreas onde, desde a queda do regime do "apartheid", em 1994, os sucessivos governos pouco tinham investido, e que transformaram as grandes cidades sul-africanas em autênticos estaleiros.

Gillian Saunders, uma especialista da consultoria de finanças Grant Thornton, calculou que a Copa deverá contribuir com 55,7 bilhões de randes (cerca de R$ 13 bilhões no câmbio atual) e criar 415,4 mil postos de trabalho para a economia local.

Esses fundos, segundo Saunders, teriam sido investidos tanto pelo governo como por empresas privadas, através de patrocínios e direitos comerciais. Um acréscimo de 2,2 milhões de turistas no país entre 2008 e 2015, que deverão gastar cerca de 14,3 bilhões de randes (R$ 3,38 bilhões) será, segundo a mesma analista, outra das importantes contribuições da competição para a economia.

Impacto

Mas, muitos desses benefícios já se dissolveram ou estão sendo absorvidos pela grave crise financeira global, que colocou setores-chave da África do Sul, como as minas, a indústria automobilística e o setor transformador sob enorme pressão.

Com o fim das obras de construção dos cinco novos estádios e de renovação dos cinco já existentes e que serão palco da Copa, milhares de trabalhadores voltarão para o desemprego.

O investimento púlbico na infra-estruturas tem igualmente os seus preços: o déficit do Orçamento do Estado aprovado este ano na Assembleia Nacional atinge os 7,6% do PIB.

Apesar de o ministro sul-africano das Finanças ter garantido que a situação está sob controloe e que o déficit começará a ser reduzido no próximo ano para os 6,2%, e para 5% e os 4,2% nos dois anos seguintes, as perspectivas são para já sombrias. Um exemplo disso é a taxa de desemprego, um dos males crônicos da economia sul-africana, que deverá atingir 31%.

Inflação

Além disso, o governo investiu até ao momento 30 bilhões de randes (R$ 7 bilhões) nas obras do Mundial, 11,5 bilhões (R$ 2,6 bilhões) dos quais nos estádios. Os custos derraparam, desde 2006, para quase o dobro.

A grande preocupação das autoridades neste momento, para além do desemprego, é a inflação, que tem levado o banco central a manter as taxas de juro acima dos 7,5% para evitar novas pioras.

Economistas prevêem que a inflação, actualmente nos 5,9%, possa disparar em 2010 por causa do aumento previsto de 35% para as tarifas da eletricidade, anunciado pela empresa estatal Eskom. O aumento é fruto da necessidade de investir mais de 300 bilhões de randes (R$ 70,7 bilhões) em novas usinas para compensar a falta de investimentos da última década.
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