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05/05/2010 - 21h53

De volta aos anos setenta?

- Porque é imperativo um resultado decisivo na eleição - Precisamos de 'Ação hoje' - Temos que atacar o déficit - um parlamento travado resultará em perigosa indecisão LONDRES, 5 de maio /PRNewswire/ -- O eleitorado britânico precisa ser decisivo em 6 de maio, já que é imperativo que o governo sinalize sua intenção positiva para os mercados, tomando ação imediata e decisiva sobre o excessivo gasto público e a crescente dívida nacional. No meio de tempestuosos mares econômicos, a última coisa que o navio do estado britânico precisa é de desentendimentos na ponte de comando e desmoralização na casa de máquinas. "Nunca faça previsões", diz a famosa frase de Sam Goldwyn, "especialmente sobre o futuro". Seu conselho é especialmente oportuno justamente alguns dias antes daquela que é certamente a eleição geral britânica mais imprevisível dos últimos 30 anos.

Porém achamos que uma suposição pode ser feita com considerável certeza: nenhum dos partidos deverá sair da eleição com algo melhor do que uma maioria muito pequena. Um "parlamento travado" -- no qual nenhum partido tem maioria absoluta -- parece há muito tempo ser o resultado provável. Uma corrida tão disputada é um material fascinante para os especialistas políticos e os fanáticos das tensões no estilo Eurovision da noite da eleição. Mas -- em uma época na qual a Grã-Bretanha está acumulando um déficit de orçamento sem precedentes e o débito do reino está na linha de fogo por todo o mundo desenvolvido -- quais são as possíveis implicações da indecisão para a economia e os investidores? Acreditamos que serão potencialmente desoladoras, considerando que um governo efetivo e determinado nunca foi tão essencial antes, quanto é para 2010. O melhor cenário para a Grã-Bretanha seria, de longe, a volta de um governo forte, preparado para cortar os gastos públicos em GBP 20 bilhões anualmente e colocando, desta forma, as finanças da nação de volta no caminho da sustentabilidade e, ainda mais importante no curto prazo, sinalizando para os mercados que gastar além dos recursos do país foi uma aberração e que isso não se transformará em norma.

Por outro lado, a indecisão seria o pior resultado possível. O fracasso em se tomar ação decisiva dentro de, no máximo, três meses poderia apontar para uma crise total da moeda e das taxas.

De volta para o futuro? O que poderia significar um resultado indeciso? Bem, os precedentes neste caso são limitados, mas existentes. A última vez que as eleições britânicas produziram um parlamento travado foi em fevereiro de 1974, quando as calças boca-de-sino, as camisas floridas e solas plataforma eram o rigor da moda e Suzi Quatro acabara de ultrapassar a banda Mud no topo das paradas de sucessos. Se as diferenças culturais entre os dias atuais e 1974 são enormes, as semelhanças, tanto econômicas quanto políticas, são assustadoramente quase exatas. De forma mais importante, a consequência daquele quase empate na eleição foi extremamente desconfortável, contribuindo, como aconteceu, para a deterioração fiscal a qual culminou com a injeção de liquidez feita pelo FMI em 1976. A semelhança econômica é que, como em de 1974, a eleição deste ano acontece em um clima macroeconômico muito problemático, e o paralelo político é que, enquanto o governo incumbente não era popular, a oposição não conseguiu mobilizar apoio suficiente para uma vitória decisiva. Porém é o subsequente curso dos eventos, e não as semelhanças imediatas, que deveria causar mais preocupação aos investidores.

A eleição de fevereiro de 1974 resultou numa instabilidade política, tanto que uma segunda eleição foi conclamada em outubro. A paralisação das políticas e a falta de tomada de decisão efetiva daquele período de oito meses, levaram   uma rápida deterioração das finanças públicas, tanto que, dentro de dois anos, a crise da libra e sterlina de 1976 forçou o Reino Unido a ir com seu chapéu na mão ao FMI pedir desesperadamente pela injeção de liquidez. Isto não poderia acontecer novamente -- ou poderia? Bem, sim, poderia. Apesar de que diversas outras questões atraíram a atenção popular, a eleição de 2010 está o mais perto possível de ser uma eleição geral de questão única, mesmo que nenhum dos políticos líderes tenha sido suficientemente corajoso (ou talvez imprudente) para atacar esta questão de frente. A questão é, obviamente, o déficit no orçamento o qual, a quase 12% do PIB, não tem precedentes (e o qual, por contraste, faz com que o déficit de 7% de meados dos anos 70 se pareça com tempestades em um copo d'água realmente pequeno). Vamos determinar as questões com absoluta clareza. Entre 2000 e 2008, a Grã-Bretanha desfrutou de uma explosão econômica, a qual agora sabemos ter sido quase que inteiramente ilusória e que resultou em uma bolha de preços das propriedades que, devido ao nível ridículo da poupança interna durante o mesmo período, foi necessariamente construída quase que inteiramente com imensa quantidade de empréstimos do exterior. Longe de reconhecer a natureza essencialmente ilusória deste ímpeto econômico, o governo proclamou um fim para o "aumento e queda", e viveu de acordo (na verdade, muito além) com os aparentes recursos da Grã-Bretanha, aumentando as despesas públicas em mais de 50% em termos reais. Quando, de forma inevitável, a bolha estourou, a maré fiscal abaixou, deixando as finanças públicas encalhadas.

No ano passado, o governo gastou 48% do PIB mas recebeu somente 36% em impostos e outras receitas. Chegando a quase 12% do PIB, o déficit da Grã-Bretanha é comparável com o da Grécia e pior do que o da Espanha ou da Itália. Na verdade, o observador terá algumas vezes que se esforçar para compreender como o Reino Unido pode, pelo menos até o presente, escapar de tal desregramento sem ver o preço de sua moeda e de seus títulos passarem por pressão muito maior.

Defesas com tempo limitado Conforme explicamos em um relatório recente [1], a libra esterlina vem sendo apoiada por 'três suportes', cada um deles com tempo limitado. O primeiro destes suportes é o afrouxamento quantitativo (QE-quantitative easing, em inglês), através do qual o governo criou GBP 200 bilhões de dinheiro novo. De acordo com o governo, o QE não aumentou a capitalização da dívida e a simetria entre o QE e o requerimento CGNCR[2]de levantamento de caixa do governo (de GBP 201 bilhões) é uma mera coincidência. Está certo.

O segundo suporte tem sido a própria situação política. Percebendo que decisões duras provavelmente não seriam tomadas com a proximidade das eleições gerais, os mercados internacionais trataram a libra esterlina com considerável tolerância, assumindo que ação decisiva será tomada logo após a eleição. Em terceiro lugar, foi assumido amplamente que a grande deterioração da libra esterlina durante os últimos dois anos, iria promover uma recuperação liderada pela exportação.

Atualmente, cada um destes suportes chegaram ao seu limite de tempo. Repetir o recurso do QE implicaria em níveis de risco de mercado e inflacionários, os quais podem, certamente, serem considerados como inaceitáveis. Com a anêmica recuperação da Grã-Bretanha muito mais fraca do que aquelas de outras economias desenvolvidas, mesmo um especulador desiludido teria pouca ou nenhuma confiança no aumento do estímulo   desvalorização. Aqui, de forma mais pertinente, a defesa do 'hiato político' obviamente não irá funcionar após 6 de junho.

Resumindo, é necessário ação rápida e decisiva caso a Grã-Bretanha queira evitar pagar o preço total pela irresponsabilidade fiscal do passado. E a perspectiva de um parlamento travado -- ou, aliás, uma maioria muito pequena, dificilmente viável de um dos partidos, o que também não seria bom -- torna tal ação rápida e decisiva assustadoramente improvável.

Lutando na guerra errada Enquanto a necessidade nacional imperativa é a redução do déficit, um parlamento travado teria maior probabilidade de produzir posicionamento dos partidos e prevaricação das políticas. Primeiramente, uma implicação distintamente possível do precedente de 1974 é que um parlamento travado será inviável, tanto que uma segunda eleição geral deverá suceder   primeira dentro de alguns meses. Se os políticos no mínimo suspeitarem de que este possa ser o caso, eles permanecerão numa posição eleitoral segura, o que significa que ninguém irá arriscar perder a popularidade tomando decisões drásticas.

Alguns comentaristas exploraram os perigos de um parlamento travado e se convenceram de que um 'parlamento equilibrado' poderia ser uma coisa boa. Isto, em nossa opinião, se equipara a Pollyanna colocando sua confiança no 'Jogo do Contente'[3]. Enquanto a maioria dos sistemas europeus de governança realmente produzem coalizões de vários graus de eficiência, o sistema político britânico é essencialmente confrontacional e não é adequado para a política consensual.

Fig. 1: Dívida externa, países selecionados, final-2009* Dívida Externa Dívida Externa Dívida Externa como per capita (Bilhões de US$) % do PIB (US$) Reino Unido $9.088 423% $148.708 França $5.021 238% $78.382 Alemanha $5.208 185% $63.258 Espanha $2.410 176% $59.469 Grécia $553 162% $51.486 Portugal $507 218% $47.348 EUA $13.450 94% $43.781 Itália $2.328 132% $40.051 Canadá $834 65% $24.899 Japão $2.132 52% $16.777 *Fonte: CIA World Factbook Além disso, o sistema eleitoral do Reino Unido é perigosamente desequilibrado -- se cada um dos principais partidos obtiver 30% dos votos, por exemplo, o Partido Trabalhista ganharia 315 assentos, comparados com 206 para o Partido Conservador e apenas 100 para o Partido Liberal-Democrata[4]. (o completo absurdo desta aritmética deve estar presente no pensamento de todos aqueles que acham que o Reino Unido não necessita de uma reforma eleitoral). Qualquer investidor que acredita que o Reino Unido pode bancar um longo período de indecisão deveria levar em consideração o seguinte: Primeiramente, a dívida interna reportada da Grã-Bretanha (de GBP 761 bilhões, ou 54% do PIB) não revela a verdadeira escala das obrigações do governo as quais, incluindo as pensões do setor público e compromissos da iniciativa financeira privada PFI[5], que calculamos ser de GBP 2,1 trilhões (150%).

Em segundo lugar, o frequentemente citado padrão de comparação da dívida interna não é, de nenhum modo, a questão mais importante. As dívidas existentes dentro do país não representam um problema incontrolável e a escala real do desafio fiscal deveria ser medida através da análise das dívidas existentes com investidores internacionais.

No final de 2009, a dívida externa da Grã-Bretanha era de US$ 9,1 trilhões. Em 432% do PIB, este endividamento internacional é muito pior do que o da França (238%) ou da Alemanha (185%), sem falar no da Grécia (162%) ou da Itália (132%). A dívida externa equivale a US$ 149.000 por cidadão britânico o que, novamente, é muito maior do que os números equivalentes para a Espanha (US$ 59.000), Grécia (US$ 51.000) ou Portugal (US$ 47.000) (consultar Fig.1). Portanto, fica completamente claro que a ação decisiva é necessária imediatamente após a eleição, independentemente do resultado. Muitas permutações políticas possíveis foram sugeridas pelos comentaristas mas, quando se trata do investidor, a questão predominante não é nem os rótulos nem as personalidades. A exigência é -- nas palavras de Winston Churchill -- de 'ação hoje'.

Dr. Tim Morgan Chefe global de pesquisa --------------------------------- [1] Consultar Tullett Prebon Strategy Insights, Quarta Edição, Britain at the Crossroads -- The Case for Fundamental Change [2] Central Government Net Cash Requirement (Requerimento de caixa líquido do governo central) [3] Pollyanna, escrito por Eleanor Porter, foi publicado em 1913. O "jogo do contente" significava que, se Pollyanna fingisse que tudo estava bem, um final feliz estaria assegurado. Esta não é uma boa filosofia de investimentos.

[4] Para cálculo dos assentos, consultar o Web Site da BBC, http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/election_2010/8609989.stm [5] Private Finance Initiative (Iniciativa financeira privada) Termo de Isenção de Responsabilidade As informações contidas neste comunicado são fornecidas somente com propósitos informativos e demonstrativos e também não tem como objetivo a oferta ou solicitação com respeito   compra ou venda de nenhum título nem servem como base para nenhuma decisão sobre investimento. No Reino Unido, este material tem por objetivo ser usado somente por pessoas que possuem experiência profissional em assuntos relacionados com investimentos, de acordo com os Artigos 19(5) e 49(2) de (a) a (d) da Lei de Serviços Financeiros e de Mercado de 2000 (Promoção Financeira) Ordem de 2005 (conforme emendada), ou pessoas para as quais, de outra forma, podem ser legalmente distribuídas. Qualquer referência   'Tullett Prebon' se refere   Tullett Prebon plc e/ou companhias subsidiárias e afiliadas, conforme aplicável.

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Esta publicação foi produzida e distribuída de acordo com o capítulo 'COB 12.2 -- Pesquisa de Investimentos' do Manual da FSA. Os destinatários devem observar que todas publicações deste tipo são objetivas e imparciais em seu conteúdo, a menos que seja claramente especificado ao contrário. O(s) autor(es) agiu(ram) de acordo com a 'Política de Gestão de Conflitos' da Tullett Prebon, cujos detalhes completos podem ser visualizados em nosso Web Site, no endereço http://www.tullettprebon.com .

FONTE Tullett Prebon 05/05/2010 CONTATO: Tullett Prebon, +44(0)20-7200-7000

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