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26/05/2010 - 08h42

Crise na Europa pode atrapalhar a recuperação da economia americana

Michael Powell
The New York Times

Apenas meses após a maioria dos economistas prever que a Grande Recessão podia ser vista seguramente pelo espelho retrovisor, a crise fiscal europeia apresenta um novo desafio perturbador para a economia americana. 

Poucos economistas previram que os Estados Unidos entrariam em outra recessão tão cedo. Mas uma economia americana ainda enfraquecida poderia ser desacelerada pelos seus abalados aliados e parceiros comerciais europeus. Até mesmo os otimistas estão se perguntando em voz alta se os Estados Unidos encontrarão uma recuperação mais lenta e turbulenta do que o esperado. 

“Veja, uma recessão de mergulho duplo é um risco genuíno –eu o colocaria em 20%, em comparação a 5% poucas semanas atrás”, disse Robert J. Barbera, economista-chefe da ITG, que tem previsto uma alta na economia americana. “Nós temos alguns problemas crônicos na Europa, mas não vejo isso nos levando a um contágio ao estilo Lehman.” 

“A certa altura”, ele acrescentou, “você volta a se concentrar em nossos fundamentos, e eles estão decididamente melhores do que o saber convencional acredita”.

Talvez sim, mas quedas vertiginosas nos mercados de ações, posturas beligerantes da Coreia do Norte e uma economia americana enviando sinais ambíguos fazem com que os economistas caminhem com cautela. Raramente tantos bancos centrais adotaram tantas medidas extraordinárias para impedir colapsos de bancos e nacionais. O cuidado em relação ao que fizeram é palpável. 

James Bullard, presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis, viajou para Londres e fez uma defesa notadamente cuidadosa da economia global em um discurso. Ele não descontou o risco de um contágio financeiro pular para o outro lado do Atlântico, dada o estado enfraquecido das finanças globais e a natureza arriscada dos resgates. Os governos e bancos centrais devem lutar para restabelecer a credibilidade, ele disse, enquanto os mercados tremem e cambaleiam. “Esta nova ameaça à recuperação global provavelmente não chegará a se tornar um choque recessivo mundial”, ele disse. 

Não há falta de nuvens de tempestade para reforçar uma posição mais pessimista. O Japão e a Europa estão empoleirados à beira da deflação. Enquanto um líder europeu atrás do outro promete austeridade em meio à conversa de demissões e profundos cortes de gastos, os fabricantes americanos –que lideraram a recuperação doméstica– poderão ver seus bens se acumulando em depósitos e nos portos. 

“Nós contávamos com a desvalorização do dólar e com uma economia europeia forte; em vez disso, nós temos um dólar forte e uma Europa fraca –o que claramente não é bom para nossa economia”, disse Joseph E. Stiglitz, ex-economista-chefe do Banco Mundial e um professor de economia da Universidade de Colúmbia. “Isso certamente aumenta a probabilidade de uma recessão de duplo mergulho.” 

Da mesma forma, a taxa de juros básica de Londres para operações financeiras entre bancos, conhecida como Libor, tem aumentado constantemente nas últimas semanas, atingindo seu valor mais alto em 10 meses nesta semana. Esses empréstimos funcionam como a graxa fiscal que permite que os bancos emprestem livremente. A elevação do custo reduz os empréstimos –algo que Stiglitz diz ser consequência do resgate do governo aos bancos sem forçá-los a prestar contas sobre suas perdas e empréstimos ruins. 

“A reação dos mercados de crédito está enviando uma forte mensagem de que os bancos não confiam nos balancetes uns dos outros”, disse Stiglitz. 

Mas também há dúvidas persistentes sobre a força e sustentabilidade da recuperação americana –dúvidas que se tornam mais importantes do que nunca dada as fraquezas na Europa. 

A economia americana vem ganhando impulso ultimamente, com o aumento dos gastos dos consumidores e uma queda acentuada nas dívidas. O setor manufatureiro também voltou a contratar e os banqueiros estão exalando –apesar de não estarem emprestando nos níveis anteriores. 

Barbera especula que o comportamento instável dos dados federais não dá o devido peso às contratações. 

“Todas as medições da produção industrial estão melhores do que o esperado”, ele disse. 

Mas os governos estaduais, da Califórnia até Nova Jersey e Nova York, estão preparando cortes draconianos de gastos, com previsões de demissões de centenas de milhares de funcionários públicos estaduais. O estoque de imóveis residenciais continua crescendo e os preços continuam caindo. E as grandes empresas ainda não começaram a contratar em números significativos; as fileiras de desempregados a longo prazo incharam a um número não visto há décadas. 

“Esta é uma das recuperações econômicas mais frágeis da história registrada”, disse David Rosenberg, economista-chefe da Gluskin Sheff, uma firma de investimento. “Nós já tivemos recuperações sem novos empregos antes, mas esta recuperação está totalmente carente de crescimento de renda, o que é muito perturbador.” 

A salvação pode vir de cantos inesperados. Os Estados Unidos, nas palavras do presidente do Federal Reserve de Saint Louis, poderiam “se beneficiar involuntariamente com a crise na Europa”. Essa é a lição sugerida pela história recente. Quando as economias asiáticas estremeceram e as moedas quase entraram em colapso em 1998, muitos economistas previram que os tremores derrubariam a economia americana e a europeia. Aconteceu o oposto. 

Ocorreu uma fuga de dinheiro dos bancos asiáticos para títulos do Tesouro americano, e as taxas de juros caíram em consequência. Os preços do petróleo também caíram. E os Estados Unidos ficaram mais fortes. 

“Todo mundo competiu na redução de suas previsões do PIB e ele acabou sendo mais forte do que o previsto”, lembrou Barbera. 

Há evidência que sugere que isso poderia acontecer de novo. As taxas de juros americanas caíram nos últimos dias, enquanto os investidores aparentemente buscavam refúgio nos títulos do Tesouro. E as conversas de desaceleração causaram uma queda no preço do petróleo, o que ajuda o consumidor americano. 

Também há um risco aqui. A injeção de tanto dinheiro em uma nação pode ser como injetar adrenalina em um paciente doente –isso mascara uma infecção presente. 

É possível argumentar que a infusão de dinheiro em 1998 inflou ainda mais a bolha de ações de Internet, que estourou vários anos depois com consequências desastrosas. 

Bullard aumentou seu alerta de modo indireto em seu discurso na terça-feira, sugerindo que apesar dos Estados Unidos poderem tirar uma vantagem temporária da crise europeia, eles devem “tratar diretamente” de seus problemas fiscais caso queiram manter a credibilidade junto aos mercados de crédito. Afinal, assim como os países da zona do euro, o Reino Unido e os Estados Unidos apresentam déficits imensos, aumentados pelos gastos para estimular a economia.

A capacidade das autoridades americanas de fazer isso enquanto o mercado se agita representa um desafio considerável.

“Grande parte de nossa recuperação foi financiada pelos gastos do governo, e a sustentabilidade disso pode ser questionada”, disse Joshua Shapiro, um economista da MFR Inc. “Eu vejo muitos trancos e barrancos à frente.”

Tradução: George El Khouri Andolfato
Hospedagem: UOL Host