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01/03/2007 - 19h24

Efeito do ajuste global pode ser menor no Brasil que há um ano

Por Daniela Machado

SÃO PAULO, 1o de março (Reuters) - O risco de crescimento mundial menor entrou no radar dos mercados financeiros, provocou forte ajuste em portfólios e atingiu o Brasil.

O cenário incerto ganhou mais um ingrediente nesta quinta-feira: a alta do iene forçou investidores a vender ativos de elevado rendimento, como de países emergentes, para honrar empréstimos, se desfazendo de operações conhecidas como 'carry trade'.

O Brasil, um dos principais destinos do dinheiro que busca maior rentabilidade, pode ser um dos mais afetados entre os emergentes, segundo analistas.

Alguns ponderam, no entanto, que a situação do país é mais confortável que há pouco menos de um ano, quando outra onda de correção atingiu os mercados.

"Os fundamentos da economia e os fundamentos técnicos (do mercado) apontam que a propagação do ajuste será menor que em maio passado", avaliou o estrategista-chefe do BNP Paribas no Brasil, Alexandre Lintz.

Na terça-feira, quando a turbulência teve início, os estrangeiros tiraram da Bovespa 222,48 milhões de reais, mas o saldo em fevereiro ainda ficava positivo em 599,2 milhões de reais.

Em maio e junho do ano passado, com o ajuste de portfólios pelo mundo, os estrangeiros sacaram 3,7 bilhões de reais.

Os analistas não chegam a uma estimativa sobre o montante de recursos estrangeiros que pode deixar o país no desmonte dessas operações de arbitragem, mas buscam pistas no fluxo de recursos para as bolsas brasileiras.

Lintz citou como referência para esse raciocínio a diferença de volume nas posições vendidas em dólar na bolsa de futuros --um indicador de aposta na queda da moeda norte-americana frente ao real, mediante entrada de recursos no país.

As diferenças entre maio de 2006 e fevereiro deste ano sugerem que o "potencial" de ajuste agora é menor.

Em maio, quando o juro norte-americano estava em alta e o temor inflacionário era forte, essa posição passou de 10 bilhões a 4 bilhões de dólares. Em fevereiro deste ano, a posição vendida era de 1 bilhão de dólares.

"Nós estamos sendo afetados pelo desmonte de carry trade. Quem está perdendo num mercado, acaba saindo de outro (para tentar compensar)", resumiu o ex-diretor do Banco Central e professor do Ibmec Carlos Thadeu de Freitas.

Para a estrategista de câmbio da RBS Greenwich Capital Markets, em Nova York, Flavia Cattan-Naslausky, o movimento tem pouco a ver com os fundamentos do Brasil. Mas "o carry trade no Brasil é certamente um dos maiores nos mercados emergentes e algumas pessoas estão reduzindo posições."

MERCADO SENSÍVEL

Outros dados de movimento de investidores estrangeiros na Bovespa também dão sinais de que o espaço para desmonte de posição era maior no ano passado.

Em maio, o movimento de compra e venda de ações por estrangeiros alcançou 52,65 bilhões de reais. Em fevereiro deste ano, até o dia 26 (portanto, antes das turbulências), a movimentação foi de 46,86 bilhões de reais, segundo dados da bolsa paulista.

Analistas também consideram que é cedo para afirmar se a série de incertezas que atingiu os mercados financeiros vai afetar a economia real.

"Olhando cada (incerteza) isoladamente parece que dá para contornar, mas o medo é que determinado problema acabe provocando um ajuste geral das economias", avaliou o economista-chefe da Fator Corretora, Vladimir Caramaschi. "Isso está longe de ser concretizado... mas, provavelmente, (o mercado) vai continuar sensível."

(Colaborou Terry Wade)

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