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05/09/2008 - 17h28

PORTFÓLIO-O novo equilíbrio do Ibovespa: 50 mil pontos

Por Cláudio Gradilone

SÃO PAULO (Reuters) - O índice Bovespa caiu mais de 30 por cento entre seu ponto máximo no fim de maio e o meio-dia desta sexta-feira. No pior momento do dia, o principal indicador do mercado acionário brasileiro rondou o "nível psicológico" de 50 000 pontos. E, para mais de um especialista, esse deve ser o novo ponto de equilíbrio do mercado acionário por bastante tempo.

As principais casas bancárias que divulgam seus prognósticos sobre o mercado acionário ainda não admitiram esse novo cenário, pelo menos oficialmente. Mesmo assim, os melhores profissionais de tesouraria estão convencidos de que o mercado deverá permanecer nesse patamar por um bom tempo.

Há apenas três meses, os mais otimistas chegavam a prever um índice Bovespa rondando 80 000 pontos no fim de 2008, e chegando aos 100 000 pontos em algum momento do ano que vem. Como explicar uma reversão tão grande de expectativas em tão pouco tempo?

Há três razões para isso. A primeira, mais importante e significativa, é também a mais simples. Os investidores internacionais estão resgatando dinheiro aos borbotões de suas aplicações em países emergentes como o Brasil.

Segundo um levantamento da consultoria Emerging Portfólio Fund Research (EPFR), os resgates desde o início do ano somam 25 bilhões de dólares, o equivalente aos investimentos de todo o ano de 2006. Sem o suporte desse capital, as ações caem.

A segunda razão é que a saída do capital internacional é diferente dos resgates registrados nos últimos tempos. Agora, as perspectivas para o retorno dos fluxos internacionais também são ruins.

Ao longo dos últimos cinco anos, a bolsa brasileira sofreu com movimentos periódicos dos investidores internacionais. Em momentos de crise nos países emergentes, esses investidores resgatavam seu dinheiro em movimentos de fuga para ativos sem risco, o conhecido "fly to quality", para, logo em seguida, voltar em busca de preços baixos e rentabilidades apetitosas.

Hoje, a dinâmica desse movimento mudou. O dinheiro resgatado saiu por necessidade de cobrir perdas com ativos e derivativos de crédito no mercado norte-americano, e não por uma opção estratégica de reduzir riscos. Ou seja, é um dinheiro que voltou aos seus países de origem para ficar indefinidamente.

A terceira razão é que a desaceleração da economia norte-americana, cada vez mais explícita nos indicadores, deverá ter reflexos muito profundos sobre o principal parceiro comercial em potencial do Brasil, a China.

Essa razão requer uma explicação um pouco mais técnica. Mais da metade das ações negociadas na Bolsa brasileira têm uma correlação elevada com os preços internacionais das commodities --basta pensar em Petrobras, na Vale do Rio Doce e nas siderúrgicas, só para ficarmos nos exemplos mais evidentes.

Quando se fala em demanda por commodities como minério de ferro, as estimativas dependem basicamente de quanto o mercado imagina que a economia chinesa vai consumir. Estados Unidos em desaceleração querem dizer China vendendo menos produtos industrializados e demandando menos commodities, com reflexos ruins para empresas que representam metade da bolsa brasileira.

Há mais. A outra metade da bolsa, que destina-se basicamente ao mercado interno e depende menos da oscilação dos preços das commodities, também tem seus problemas.

Uma parte importante dessa parcela são os bancos. Apesar de a solidez do sistema financeiro brasileiro ser várias ordens de grandeza maior do que a dos concorrentes norte-americanos, a palavra "banco" ainda assustando os investidores.

Outro setor importante na economia, o de construção civil, está mal representado no mercado.

Há um excesso de empresas listadas na bolsa, não há capital para todos e a perspectiva de uma consolidação sem a concessão de benefícios para os minoritários como a participação no prêmio pago pelo controle, conhecida como "tag-along", reduz o interesse em quem quer comprar essas ações de olho nos ganhos não-recorrentes dos eventos societários.

Moral da história: não é hora de entrar na bolsa em busca de ações baratas. O Ibovespa ao redor de 50 000 pontos veio para ficar por um bom tempo.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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