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14/09/2009 - 20h50

PORTFÓLIO-Investidores com apetite para a renda fixa

Por Cláudio Gradilone

SÃO PAULO (Reuters) - As empresas brasileiras atravessaram bem a crise de 2008. Embora a turbulência cambial tenha abatido nomes famosos como Sadia e Aracruz, a maioria das corporações sobreviveu à queda dos lucros. A retomada dos negócios, no entanto, mostrou uma cautela redobrada na hora de captar recursos.

Várias empresas estão financiando seu caixa e as eventuais necessidades de crescimento sem recorrer ao mercado internacional de crédito. A preferência é por dinheiro que fala português, custa mais barato e oferece menos surpresas desagradáveis. Essa tendência vem sendo reforçada pelo apetite inesperado dos investidores brasileiros.

Quem tem dinheiro para investir está mais propenso à coragem e à paciência. Os investidores estão mais dispostos a correr os riscos maiores e a esperar os prazos mais longos dos títulos de empresas privadas.

A motivação para essas virtudes é o ganho. Em um cenário de juros reais cada vez mais baixos, os poucos pontos percentuais de prêmio pagos em relação aos juros de mercado fazem cada vez mais diferença no bolso do investidor.

Vários bancos vêm lançando fundos de investimento dedicados aos títulos de renda fixa. Antes vistos quase como uma excentricidade do mercado, esses papéis agora atraem muito os investidores.

FAZENDO AS CONTAS

Na ponta do lápis, um ponto percentual a mais na remuneração representa um prêmio impossível de conseguir no mercado sem correr enormes riscos. Daí a perspectiva de que o mercado doméstico continue aberto para as empresas domésticas.

Esse movimento vem sendo reforçado por outro fenômeno, a queda do apetite dos bancos para captar dinheiro no mercado. A confluência entre o forte ingresso de recursos internacionais e a decisão do Tesouro Nacional de reduzir a dívida mobiliária deixou o mercado literalmente encharcado de dinheiro.

De acordo com as estimativas do mercado, os bancos têm mais de 400 bilhões de reais em dinheiro para emprestar. Essa situação foi piorada pela resistência natural das instituições financeiras em captar novos clientes, que com certeza oferecerão riscos maiores de inadimplência.

Com isso, os prêmios das taxas pagas pelos bancos para os investidores vêm caindo aceleradamente. Como resultado, há um estímulo adicional para os investidores comprarem papéis de empresas. Não por acaso, esse mercado vem crescendo.

Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a emissão de debêntures dobrou nos oito primeiros meses de 2009 em relação ao mesmo período de 2008. Ainda é um valor pequeno, mas que, somado às aberturas de capital já realizadas e em processo, mostra uma recuperação do mercado interno de capitais.

Entre janeiro e agosto, as companhias brasileiras captaram quase 13 bilhões de reais com títulos de renda fixa. No mesmo período do ano passado, esse montante havia sido de 6,5 bilhões. Mais do que isso, as empresas estão mostrando uma disposição crescente para fazer frente às suas necessidades recorrendo a empréstimos em reais.

PREÇO E RISCO

Há três grandes justificativas para essa mudança no perfil do endividamento corporativo. A primeira é o custo. Em 2008, a média da taxa de juros superou 16 por cento ao ano. Em 2009, esse percentual caiu, até agora, para menos de 10 por cento ao ano.

A segunda justificativa foram exatamente as experiências ruins. Empresas como Sadia e Aracruz tiveram de, em última análise, trocar de dono devido a uma exposição cambial excessiva. Ao apostarem contra a moeda norte-americana, elas foram surpreendidas com a alta do dólar em meados de 2008.

A terceira justificativa para a preferência pelo produto nacional é que o crédito externo ainda está longe dos patamares registrados antes da crise, se é que o mercado verá tanta abundância de recursos antes de 2015. Assim, as empresas brasileiras vêm encontrando os interlocutores lá fora muito mais reticentes na hora de emprestar dinheiro. Dessa forma, recorrer ao mercado interno é uma saída natural.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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