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28/09/2009 - 19h36

PORTFÓLIO-Não vale a pena investir no dólar

Por Cláudio Gradilone

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar comercial fechou com queda de 0,47 por cento nesta segunda-feira, na BM&FBovespa. No ano, a moeda norte-americana acumula uma depreciação de mais de 23 por cento em relação ao real. O dólar está tentadoramente barato, vale a pena investir nele?

A pesquisa Focus com as expectativas do mercado financeiro para o dólar divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central indica que os prognósticos para o fim de 2009 são de um dólar cotado a 1,80 real. Na ponta do lápis, isso quer dizer que, para o mercado, o dólar ainda terá uma valorização de pouco mais de meio por cento este ano.

Um dólar em queda constante traz à memória a situação em meados de 2007, antes de a crise econômica desabar sobre o mercado. A moeda norte-americana chegou a ser cotada a um mínimo de 1,5593 real no início de agosto de 2008, pressionada pelo aparentemente irresistível fluxo de divisas para a economia brasileira.

Quando a crise mostrou toda a sua força, o dólar chegou a um máximo de 2,50 reais no início de dezembro passado, uma apreciação de 60 por cento em menos de quatro meses. Qual o risco de isso voltar a ocorrer? O dólar está barato demais e pode voltar a surpreender os investidores? Ou, indo direto ao ponto, vale a pena investir no dólar?

TRÊS RAZÕES

Para os especialistas, a resposta é não. A moeda norte-americana deverá apresentar alguns momentos de turbulência até o fim do ano, mas a causa antecedente dos solavancos de 2008 está afastada. O mercado sempre poderá apresentar alguns trancos, mas, estruturalmente, há menos motivos para o dólar voltar a surpreender.

A maior previsibilidade do dólar pode ser explicada por três grandes motivos. O primeiro é que o grau de alavancagem do mercado financeiro hoje é várias ordens de grandeza menor do que o em 2007 e no primeiro semestre de 2008.

Um bom exemplo foi o comportamento das cotações do petróleo no mercado internacional. Antes da crise, as cotações do barril chegaram a 140 dólares, nível mais alto da história. Uma parte dessa sobrevalorização era a expectativa com o aumento da demanda. Outra parte, porém, era especulação, especialmente dos fundos de hedge.

Com a ruptura dos diques do sistema financeiro, o petróleo retrocedeu a um mínimo de 40 dólares por barril, e só agora estabilizou-se numa faixa entre 65 e 70 dólares por barril. Tanto os 40 quanto os 140 dólares representavam uma distorção, provocada pela especulação financeira.

O mercado internacional do petróleo continua tão imprevisível quanto sempre foi. A diferença é que há menos dinheiro, menos profissionais gerindo fundos de hedge e menos apetite por risco dos gestores sobreviventes. O que ocorre com o petróleo vale para todos os ativos, especialmente o dólar.

O segundo motivo é que a economia brasileira vai continuar a ser um contraponto para a crise mundial. Mais uma vez, o acompanhamento sistemático das pesquisas Focus mostra uma lenta porém segura melhoria das expectativas com relação ao comportamento do Produto Interno Bruto (PIB).

Os prognósticos para 2009 deverão mostrar uma projeção de crescimento, ainda que de centésimos de ponto percentual, a partir das primeiras pesquisas de outubro. Para 2010, as projeções voltaram a subir e agora são de 4,5 por cento, ante os 4,2 por cento da semana passada.

Até o Fundo Monetário Internacional (FMI) está mais otimista e elevou sua projeção do crescimento médio mundial em 2010 para 3 por cento, em vez dos 2,5 por cento anteriores. Tudo isso reflete-se em um fluxo maior de dólares para o Brasil, especialmente no caso de investimentos diretos.

Finalmente, apesar de todos os cenários positivos, os juros brasileiros continuarão a ser bastante superiores à média mundial, drenando uma fração, ainda que pequena, da elevada liquidez internacional.

Com tudo isso, há poucas razões para acreditar em uma alta estruturada e persistente do dólar. A moeda norte-americana deverá manter sua trajetória de depreciação em relação ao real brasileiro, exceto em movimentos pontuais de alta provocados pelo noticiário --que deverão ser esporádicos, limitados e de curta duração.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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