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05/10/2009 - 20h02

PORTFÓLIO-Os juros vão subir em 2010; resta saber em que momento

Por Cláudio Gradilone

SÃO PAULO (Reuters) - O relatório Focus divulgada pelo Banco Central nesta segunda-feira mostra que os profissionais do mercado financeiro esperam uma elevação do juro em 2010. A pergunta é como essa elevação vai se desviar do calendário eleitoral.

A razão para se esperar uma alta, que já está refletida no mercado futuro de juros, é o aquecimento da economia e a continuidade das políticas contracíclicas do governo. O Focus mostrou prognósticos positivos para a economia brasileira em 2009.

Na ponta do lápis, os números não são relevantes. A expectativa de crescimento em 2009 é de magro 0,01 por cento --número que, na prática, indica uma economia do mesmo tamanho. Mas é a primeira vez em meses que os prognósticos não apontam uma contração do Produto Interno Bruto (PIB).

Não por acaso, a mesma pesquisa mostrou uma elevação prevista para a Selic no fim do ano que vem. A pesquisa anterior apontava expectativa de que 2010 acabasse com juro de 9,50 por cento ao ano e o levantamento mais recente indica 9,75 por cento.

A diferença de 25 pontos-básicos não terá efeitos práticos muito pronunciados, mas o que realmente importa é que o mercado formalmente indica uma mudança de direção que já vinha sendo sentida nos contratos futuros de juros.

A mudança não veio por acaso. No mês passado, o governo federal indicou que a meta de superávit primário pode cair de 2,5 por cento para 1,56 por cento do PIB.

Além disso, a expansão do crédito pelos bancos oficiais e as medidas para estimular a economia, como redução das alíquotas de imposto sobre produtos industrializados e aumento dos gastos com a máquina pública, vêm elevando a quantidade de dinheiro na economia.

O mercado de câmbio também influencia a inflação. As cotações do dólar vêm caindo sistematicamente, e só não caem de maneira mais abrupta porque o Banco Central é um comprador quase compulsivo da moeda norte-americana, injetando mais reais na economia.

Um dólar em queda ajuda a combater a inflação, reduzindo os preços dos produtos cujos preços são referenciados pela moeda norte-americana e facilitando as importações. Também ajuda em relação aos preços administrados, em sua maioria corrigidos pelo IGP-M.

O IGP-M de 2009 deverá indicar deflação ou, quanto muito, um resultado próximo de zero. Mau para empresas de energia, telefonia e proprietários de imóveis, mas bom para a economia como um todo.

No entanto, os preços dos serviços não-administrados mostram uma trajetória consistente de alta. Em alguns casos, a variação prevista para o ano aproxima-se de dois dígitos, o que contribui para pressionar os índices de inflação e pode estimular o zelo monetarista do BC.

CAPACIDADE INSTALADA

Há mais. Segundo as estatísticas industriais mais recentes, a utilização média da capacidade instalada brasileira está em cerca de 82 por cento. À primeira vista, o percentual mostra uma folga razoável, mas essa é uma conclusão apressada.

O cálculo da capacidade instalada é uma média dos diversos setores. Se essa média é de 82 por cento, alguns setores estão perto de operar a plena carga, ou seja, esbarrando em limites físicos para atender a demanda. Some-se a essa situação as deficiências crônicas da infraestrutura brasileira, e o resultado é mais pressão sobre os índices.

Todas essas condições já estão mais do que expressas no mercado futuro de juros. Os contratos para janeiro de 2011 recuaram um pouco nesta segunda-feira, para 10,21 por cento ao ano. Os contratos ainda mais longos, de janeiro de 2012, recuaram para 11,33 por cento.

Ambas as cotações embutem prêmios razoavelmente generosos em relação ao dinheiro de curto prazo, remunerado pouco abaixo de 9 por cento ao ano. Ou seja, o juro referencial deverá voltar para perto dos dois dígitos em 2010.

A pergunta de um bilhão de dólares é como essa correção vai se desviar do calendário eleitoral: se o BC vai mostrar seu zelo no início do ano, elevando o juro mais cedo para ter de aumentar menos, ou se vai esperar até meados de 2010, arriscando-se a uma perigosa politização de uma questão que, até agora, tem sido conduzida de maneira exemplarmente técnica.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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