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16/11/2009 - 19h27

PORTFÓLIO-As palavras de Bernanke e as cotações do dólar

Por Cláudio Gradilone

SÃO PAULO (Reuters) - Banqueiros centrais são pessoas que medem milimetricamente suas palavras, por isso vale a pena registrar as incomuns declarações do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, sobre o dólar.

Bernanke disse que o compromisso do Fed será garantir "que o dólar seja forte e uma fonte de estabilidade financeira global", acrescentando ainda que o banco central norte-americano vai "acompanhar de perto" as cotações do dólar.

As declarações de Bernanke, durante um discurso no Economics Club em Nova York nesta segunda-feira, são significativas por duas razões. A primeira é que os banqueiros centrais de países desenvolvidos costumam dar pouca atenção ao câmbio.

Como as economias são bastante abertas, não costumam ter restrições aos fluxos de capital e, em geral, seus governos não têm muitos problemas para rolar a dívida pública, as peraltices da taxa de câmbio são um assunto para exportadores, importadores e profissionais do mercado financeiro.

A segunda razão de importância das declarações de Bernanke é a relação entre os Estados Unidos e sua moeda. Washington adotou como política de Estado manter o dólar forte. Apesar de a valorização cambial ter gerado um déficit comercial triliardário, o dólar funciona como reserva de valor para grandes investidores (leia-se China).

Assim, durante os dois governos Clinton (1992 a 2000) e no primeiro mandato de George W. Bush (2000 a 2004), os secretários do Tesouro foram soporíferos ao repetir, sempre que possível, que manteriam um dólar forte. O recado era para os investidores internacionais, essenciais para manter a demanda por títulos do Tesouro.

A crise bancária de 2008 obrigou o governo norte-americano a rever sua posição de manter o dólar valorizado. As vultuosas injeções de dinheiro no sistema financeiro ampliaram tanto os agregados monetários que provocaram uma depreciação da moeda norte-americana em nível mundial.

Moedas de ampla circulação como o euro, e mais restritas como o real, todas ganharam valor em relação ao dólar. Nada que desbancasse a moeda norte-americana como a reserva definitiva de valor, mas um movimento que fez os investidores procurarem alternativas mais rentáveis.

Além das moedas, os preços das commodities também se distorceram. Os preços do petróleo subiram 77 por cento desde o início do ano, e as cotações do ouro em Nova York avançaram 54 por cento, registrando o quarto recorde em seis pregões nesta segunda-feira.

Apesar das declarações de Bernanke, porém, o dólar não se apreciou. A moeda norte-americana oscilou pouco em relação ao euro e voltou a se depreciar em relação ao real, fechando a R$ 1,711 real para venda.

CETICISMO

A fraca repercussão decorreu da continuidade do discurso do próprio Bernanke. O presidente do Fed disse que os juros norte-americanos permanecerão baixos por "um longo período". Bernanke também demonstrou estar cético com relação aos indicadores mais recentes.

No início desta segunda-feira, o Produto Interno Bruto (PIB) japonês do terceiro trimestre apresentou um inesperado crescimento de 1,2 por cento. Do outro lado do Pacífico, as vendas no varejo norte-americanas cresceram 1,4 por cento em outubro, acima dos prognósticos de 0,9%, mostrando uma retomada do consumo.

Segundo Bernanke, apesar dos bons números, ainda há muitos desafios. Em sua linguagem deliberadamente anódina e cifrada, o presidente do Fed advertiu que ainda não é possível esperar que o sistema financeiro funcione a plena carga. Para o presidente do Fed, ainda há restrições ao crédito.

Pior do que isso, Bernanke disse com todas as letras que a atividade econômica está fraca e o desemprego ainda está elevado demais para que se possa contar com uma recuperação econômica sustentável. A economia norte-americana, disse ele, deverá permanecer com uma atividade moderada ao longo de 2010.

Os bancos também deverão continuar assumindo uma atitude cautelosa na hora de emprestar dinheiro, o que é mortal para uma economia tão dependente do crédito como a dos Estados Unidos.

"A relutância dos bancos em emprestar deve dificultar o crescimento e a contratação por parte das empresas", disse Bernanke. Ou seja, poucos sinais de dólar forte, apesar das declarações do presidente do Fed.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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