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11/01/2010 - 17h19

Compras do BC deixam poucos dólares para Fundo Soberano

Por Silvio Cascione

SÃO PAULO (Reuters) - A compra de dólares pelo Fundo Soberano, diante da atual política do Banco Central no mercado de câmbio, pode elevar a volatilidade se as atuações ocorrerem de forma paralela.

E o combate à volatilidade é justamente o objetivo declarado do governo, conforme reforçou Arno Augustin, secretário do Tesouro Nacional, em entrevista à Reuters na sexta-feira. Ele também afirmou que não há teto para as compras de dólar pelo fundo.

O Banco Central já tem comprado praticamente toda a sobra de moeda estrangeira no mercado brasileiro.

Entre maio e dezembro de 2009, o BC comprou 27,4 bilhões de dólares, quase todo o superávit cambial de 28,7 bilhões de dólares registrado no ano. Em dezembro, chegou a adquirir 1,5 bilhão de dólares a mais do que a entrada líquida de moeda norte-americana no país.

Para alguns analistas de mercado, é possível que o superávit cambial diminua neste ano, com a piora das transações correntes por conta do aumento das importações.

Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Corretora, espera, por exemplo, um superávit cambial de cerca de 14 bilhões de dólares em 2010. "É pouco para você imaginar o BC e o Fundo Soberano atuando", disse. "Pode criar uma confusão."

Analistas também descartam o fim dos leilões do BC no momento. As compras têm sido usadas para reforçar as reservas internacionais, atualmente em cerca de 240 bilhões de dólares.

Nesta segunda-feira, o dólar subia 0,35 por cento, para 1,736 real.

RISCO DE EFEITO CONTRÁRIO

Ao comprar mais que o superávit cambial, o governo se arrisca também a alimentar a própria queda do dólar: com a liquidez garantida pelo governo, os bancos podem se sentir estimulados a captar moeda no exterior, engrossar artificialmente o fluxo e ganhar com a valorização do real, como já ocorreu no passado.

"Aí o dólar vem para baixo, porque os bancos vão operar para ficar vendidos (na moeda norte-americana)", disse Nehme.

No fim de dezembro, segundo os dados mais recentes do BC, os bancos carregavam pouco mais de 3 bilhões de dólares em posições compradas. O aumento das compras pelo governo sem a contrapartida de aumento do fluxo reduziria esse estoque até deixar os bancos em posições vendidas, em condições melhores para apostar na queda da moeda norte-americana.

O professor José Francisco de Lima Gonçalves, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), ponderou que ainda há muita incerteza a respeito da atuação do Fundo Soberano.

"Há uma regra implícita (do Banco Central) que foi combinada: o que entrar, ele vai comprar. O que o Tesouro está falando não é isso. Não é 'o que entrar eu compro'. É 'talvez eu compre'", comentou Lima Gonçalves, que também é economista-chefe do Banco Fator.

Além disso, para que a ação do governo induza novamente à queda do dólar, é preciso que haja boas condições de liquidez no exterior --e isso não está garantido para 2010.

Com uma piora no mercado internacional, as compras pressionariam o dólar para cima, disse o gerente de câmbio de um banco internacional, que preferiu não ser identificado. "Tem que ver qual é o objetivo dele (do governo). Se é puxar o dólar, pode ter sucesso", afirmou.

"NO GRITO"

Na visão de alguns analistas, o poder do Fundo Soberano pode apenas servir como ameaça contra a especulação pela queda do dólar.

Na entrevista à Reuters, Augustin reconheceu a utilidade da estratégia: "Basta, às vezes, o mercado saber que há o instrumento para que não haja volatildiade excessiva".

No fim de 2009, muitos profissionais de mercado atribuíram a manutenção do dólar acima de 1,70 real, em parte, à incerteza sobre as ações do governo, que ameaçava adotar novas medidas além do IOF sobre capital estrangeiro para ações e renda fixa caso a queda dólar se aprofundasse.

"Só a possibilidade (de compra) já é um fato. Já faz um pouco de preço", afirmou Lima Gonçalves.

André Sacconato, economista da Tendências Consultoria, concorda que a estratégia de deixar o mercado em dúvida tem resultado no curto prazo. Mas ponderou: no longo prazo, o aumento da incerteza implica em uma piora no prêmio de risco do país. "Aí você aumenta o custo de captação das empresas lá fora", criticou.

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