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25/02/2010 - 16h46

ANÁLISE-Com 'benchmark' ameaçado, Vale olha para mercado à vista

Por Brian Ellsworth

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O sistema de contratos de longo prazo para fornecimento de minério, também conhecido como "benchmark" e que governa o mercado da commodity há mais de 40 anos, pode estar acabando mais rápido do que o previsto.

Oficialmente, a Vale, maior produtora mundial de minério de ferro, diz que o sistema que define o preço anual por meio de negociações entre mineradoras e siderúrgicas está de pé.

Mas comentários recentes de executivos da empresa indicam que esse ano poderia marcar uma transição definitiva para um novo modelo de definição de preço.

O diretor de Ferrosos da Vale, José Carlos Martins, afirmou recentemente que a diferença de preço do mercado à vista (spot) para o do contrato de referência --atualmente de mais de 100 por cento-- era insustentável.

"Precisamos ter a definição de um sistema que tenha flexibilidade para lidar com essas variações. Essa é a nossa estratégia nas negociações", disse Martins.

"Nós sempre mantemos nossa política de vender no benchmark, mas não podemos manter essa diferença de preço para o spot, que hoje está o dobro do valor do benchmark. Esperamos que nossos clientes entendam isso", acrescentou.

A posição oficial da Vale é de que apenas quer um valor de benchmark maior e que está disposta a vender em qualquer dos dois sistemas.

Mas analistas interpretaram os comentários como se a empresa estivesse propensa a adotar o mercado spot como preferencial. As outras duas grandes mineradoras do setor, BHP e Rio Tinto, já deixaram claro que pretendem elevar o volume comercializado no mercado spot.

"A aparente aceitação da Vale de abandonar o mecanismo atual de formação de preço é um fato significativo, uma união das mineradoras na direção de um novo sistema", informou a Eurasia Group em um relatório.

As grandes compras de minério da China a tornaram o elemento mais podereso do mercado, ameaçando modelos que já existiam.

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Clique no link abaixo para ver um gráfico das importações de minério da China:

http://graphics.thomsonreuters.com/0210/CN_IRNORIM0210.gif

Muitas siderúrgicas chinesas abandonaram o sistema benchmark em um momento em que os preços no mercado físico estavam menores.

NAVIOS

A Vale está procurando um melhor posicionamento para vender no mercado spot por meio de encomendas de novos navios, que poderão fazer com que a companhia evite grandes flutuações no mercado de frete e possa competir com os australianos, que possuem um custo muito menor de transporte para a China.

E a caótica negociação dos contratos de longo prazo no ano passado sugere que nesse ano as conversas sejam longas e de resultado incerto.

Alguns dizem que a Vale perdeu dinheiro ao não elevar o seu volume de vendas no mercado spot.

"A Vale honrou os contratos de longo prazo para seus clientes, e no processo deixou de levar toneladas de dinheiro. Seus lucros poderiam ter sido o dobro se tivesse ido para o spot", afirmou um analista que pediu anonimato.

"Eu não acho que a empresa vai deixar isso ocorrer de novo".

A mineradora brasileira não fornece dados sobre quanto de minério vende no mercado spot, mas ela divulga números sobre vendas no sistema C&F (custo e frete), quando o vendedor arca com o transporte, modalidade que muitos analistas encaram como mercado à vista.

A Vale embarcou 6,8 milhões de toneladas de minério na modalidade C&F no quarto trimestre, ante 22,5 milhões no trimestre anterior -- reduzindo o volume justamente quando eles seriam mais lucrativos, já que os preços no mercado spot subiram.

"Eu sempre achei que preço estável por meio de negociações anuais faziam sentido, mas quando o valor de contrato de longo prazo fica tão abaixo do preço spot, deve-se colocar isso em questão", afirmou Chuck Bradford, analista da área de metais da Affiliated Research Group, em Nova York.

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