UOL Notícias Economia

BOLSAS

CÂMBIO

 

26/02/2010 - 09h30

Análise: compulsório não descarta juro maior em março

Paula Laier

SÃO PAULO, 26 de fevereiro (Reuters) - A decisão do Banco Central de reverter boa parte das medidas de alívio no compulsório não chega a ser uma surpresa, tendo em vista os níveis de liquidez no mercado financeiro, mas não descarta a chance de um aumento da Selic em março.

Foi esta a avaliação vista na curva de juros, que reagiu com alta nas taxas dos contratos de DI nesta quinta-feira à decisão anunciada pelo BC na noite passada. O aumento das taxas também foi reforçado por números mais fortes de inflação e do mercado de trabalho.

No mercado financeiro, o volume em operações compromissadas do BC serve como parâmetro para indicar o nível de liquidez. No final de janeiro, essas operações somavam 508,7 bilhões de reais, ante 427,9 bilhões no fechamento de 2009.

Ao salientar que a medida vai enxugar apenas a liquidez excedente no sistema bancário e não deve alterar a oferta de crédito na economia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também chamou atenção para as operações compromissadas, afirmando que estão próximas de 600 bilhões de reais.

No final de setembro de 2008, mês que marca o aprofundamento da crise e antecede as mudanças para aliviar o compulsório, as operações compromissadas estavam em cerca de 280 bilhões de reais.

"Nossa primeira leitura é do ângulo da regulação prudencial: há de fato muita liquidez no sistema, e nem tudo isso é necessário neste ponto. Mas o BC também sinalizou uma direção para a política monetária, em um momento em que as expectativas de inflação estão subindo", destacaram Ilan Goldfajn e Guilherme da Nóbrega, economistas do Itaú Unibanco, em relatório.

"Isso sugere preocupação com a inflação e reforça nosso cenário de que o aperto monetário é iminente e começará na próxima reunião (do Comitê de Política Monetária) em 17 de março."

Tal preocupação com a inflação também foi citada pelos economistas Paulo Leme e Luis Cezario, do Goldman Sachs, que revisaram a projeção para o início do ciclo de alta da Selic de abril para março após a divulgação das mudanças, que eles previam apenas que acontecessem no segundo semestre.

A decisão "indica que o Copom está preocupado que o estímulo à economia pode estar excessivo, o que levou ao recente aumento na inflação corrente e projetada", argumentam os profissionais. "Atribuímos uma probabilidade de 70 por cento de que o ciclo de aperto terá início em março, reduzindo a probabilidade de abril para 30 por cento."

Mesma visão tem Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC e economista do Santander. "Podemos interpretar as medidas de liquidez como uma indicação de que o BC considera que o sistema financeiro está superando o impacto da crise, mas não um sinal de que estas medidas podem substituir o iminente processo de aperto monetário."

NÃO DESCARTAR DIFERE DE ENDOSSAR
Já os economistas Fabio Akira e Julio Callegari, do JPMorgan, mantiveram as projeções de alta da Selic em março, citando a inflação corrente e as expectativas, além do ritmo de crescimento da demanda, mas ponderaram que tal estimativa fica mais arriscada.

"Se, por um lado, a medida claramente confirma a apreensão do BC com um eventual excesso de liquidez (e expansão do crédito) no sistema bancário, também significa um passo importante na 'estratégia de saída' e isso pode eventualmente induzir parte da diretoria (do Copom) a esperar por mais informação antes de começar a elevar o juro."

Na mesma direção, os economistas do Credit Suisse avaliaram "por um lado, que se pode argumentar que o aumento do compulsório substituiu a necessidade de antecipação da alta de juro e, por outro,... que é um sinal de que o BC entende ser necessário um aperto monetário e que, portanto, o Copom elevará o juro já na reunião de 16 e 17 de março."

A equipe do Credit Suisse prevê aumento da Selic em abril. Houve ainda análises na direção de que as medidas afastam a chance de alta. A equipe do BofA Merill Lynch Reserach avaliou para clientes que o BC "provavelmente desejará um melhor entendimento de como a economia responde ao aperto das condições de crédito antes de agir na Selic".

A instituição mantém estimativa de alta em junho, embora avalie como elevada a chance de aumento em abril.

Compartilhe:

    Hospedagem: UOL Host