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26/02/2010 - 18h03

Dólar cai para perto de R$1,80 mas mantém olhos na Europa

Por Silvio Cascione

SÃO PAULO (Reuters) - A situação fiscal na Europa e o nível de apetite por risco de investidores internacionais devem continuar com papel central no mercado de câmbio do Brasil em março, após o dólar ter caído 4,14 por cento em um mês marcado pela volatilidade.

A moeda norte-americana terminou fevereiro cotada a 1,807 real, após ter oscilado entre 1,799 e 1,897 real ao longo do mês. Somente nesta sexta-feira, a baixa foi de 1,31 por cento.

A queda acumulada não foi suficiente para anular toda a alta de janeiro e, no ano, o dólar ainda registra avanço de 3,67 por cento.

"No curto prazo, (a taxa de câmbio) vai ser determinada, muito, sobre como esse assunto da Grécia vai evoluir", avaliou André Sacconato, economista da Tendências Consultoria.

Nesta sessão, por exemplo, a baixa da moeda norte-americana se acentuou na metade do dia, quando surgiram informações, não confirmadas, de que o banco estatal alemão KfW comprará bônus da Grécia como parte de um pacote de ajuda europeu ao país.

O enorme déficit fiscal da Grécia, de 12,7 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, tem assombrado a zona do euro, com o temor de uma recaída da recente crise financeira. O governo alemão não quis comentar a possível ação do KfW.

Nas próximas semanas, o mercado aguarda notícias sobre a possível ajuda europeia à Grécia e sobre novas medidas do país para frear os gastos e aumentar as receitas. Além disso, deve haver em breve uma emissão de bônus do país.

Além da Grécia, outros fatores podem contribuir para um aumento da aversão a risco, como problemas fiscais em outros países e o ritmo do aperto monetário nas principais economias, como os Estados Unidos. Na próxima sexta-feira, por exemplo, serão divulgados dados oficiais sobre o mercado de trabalho norte-americano referentes a fevereiro.

SEM SUSTOS, GRÉCIA PODE AJUDAR REAL

Mas os problemas na Europa não elevam necessariamente o dólar. Milton Wagner, diretor da Wagner Investimentos, argumenta que, caso a situação continue ruim mas sem grandes sustos, é provável que haja uma fuga de recursos do continente europeu rumo a outros ativos, como commodities e até o real.

Isso chegou a ser registrado na metade de fevereiro, quando a atuação de estrangeiros permitiu que o real se valorizasse mesmo com o euro ainda fraco ante o dólar. Ao final do mês, a moeda única acumula queda de 1,7 por cento.

Nas palavras de um gerente de câmbio de um banco local, que preferiu não ser identificado, "o que o mercado tem falado muito é que a aversão ao risco europeu tem trazido fluxo para o dólar e também para outras moedas de emergentes".

Outros fatores podem contribuir para forçar o dólar abaixo de 1,80 real. De acordo com Sacconato, da Tendências, a balança comercial costuma ter superávit maior em março, quando aumentam os embarques da safra de soja.

Além disso, o possível aumento do juro básico no Brasil pode tornar mais atrativos os investimentos em renda fixa no país, embora com influência menor.

"A maior probabilidade para o dólar no mês que vem é que fique entre 1,85 e 1,75 real. Mas, quando oscilar, acho mais fácil ir para baixo do que para cima", avaliou Wagner.

A possibilidade que o dólar ceda abaixo de 1,80 real em um cenário de menor aversão a risco no exterior, porém, reacende a discussão sobre possíveis compras de dólares pelo Fundo Soberano. Em janeiro, a incerteza sobre a atuação do governo afastou o dólar do patamar de 1,70 real.

Por enquanto, o Tesouro sinaliza que não intervirá no mercado de câmbio. Mas, com as compras já autorizadas após a criação do Conselho Deliberativo do Fundo, é possível que o tema volte à pauta.

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