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08/04/2010 - 20h18

Mesmo com desistência, usina de Belo Monte terá dois consórcios

Por Carolina Marcondes

SÃO PAULO (Reuters) - Mesmo diante da desistência do consórcio encabeçado pelas construtoras Camargo Corrêa e Odebrecht em participar do leilão da usina hidrelétrica de Belo Monte, especialistas no setor de energia ainda acreditam na participação de dois grupos no evento, mesmo que um deles seja formado apenas por empresas da estatal Eletrobras.

A possibilidade do cancelamento ou adiamento do leilão, previsto para 20 de abril, é descartado tanto por estes especialistas como por fontes do próprio governo, que agora corre para formar um novo grupo para concorrer com o consórcio integrado por Andrade Gutierrez, Neoenergia, Votorantim, Vale e CPFL Energia.

Além disso, a própria participação de Camargo Corrêa e Odebrecht no leilão ainda não é uma carta fora do baralho. O presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, disse nesta quinta-feira que ambas podem ter saído da posição de investidoras, mas poderão participar do projeto como construtoras.

"Se você faz um anúncio desses (de desistência do leilão) é porque você quer mudança, quer que olhem os seus argumentos", afirma o consultor do setor de energia Silvio Areco, da Andrade & Canellas. "É colocar uma carta forte na mesa em um jogo que ainda não está acabado", disse ele, que já foi um dos diretores da geradora paulista Cesp.

Para ele, é possível que os próximos dias sejam marcados por negociações nos bastidores entre as duas companhias e o governo. "O preço-teto em Belo Monte pode não recuar, mas o governo pode ceder em outros projetos para garantir a participação do grupo no leilão."

Caso o grupo realmente não participe do leilão da usina que será construída no Rio Xingu, no Pará, Areco afirma que ao menos a Camargo Corrêa é uma boa opção como construtora até mesmo se o outro grupo vencer o leilão. "A Andrade Gutierrez pode querer dividir o risco da construção", completa o especialista.

O presidente do instituto Acende Brasil, Cláudio Sales, afirma que o preço-teto do leilão, cujos investimentos previstos são da ordem de 19 bilhões de reais, é uma barreira que prejudica a entrada de mais competidores. "E quanto mais competidores, melhores resultados. Não faz sentido um preço-teto ser capaz de tirar participantes da disputa", afirmou.

Para Sales, se o governo de fato não aumentar o preço, motivo de tantas divergências, é preciso que uma contrapartida seja oferecida. "Algum benefício tem que existir, como a redução do risco do projeto, por exemplo."

O analista do setor de energia da Ativa Corretora, Ricardo Corrêa, afirma que "Belo Monte é o pré-sal das usinas hidrelétricas", dada a complexidade da sua engenharia. "E Camargo Corrêa e Odebrecht têm todo o conhecimento necessário para construir a usina". Ambas foram responsáveis pelos estudos prévios da obra.

"Quando o presidente afirmou que o leilão vai acontecer mesmo sem a participação do setor privado, isso não foi uma afirmação: foi uma constatação", disse.

PERDAS PARA A ELETROBRAS

No caso da Eletrobras entrar sozinha no leilão de Belo Monte, o acionista pagará a alta conta. "A visão sobre o resultado de Belo Monte para a Eletrobras sempre foi ruim", diz o analista da Ativa.

Para ele, o empreendimento significa perdas econômicas para o interessado apenas na energia a ser produzida pela usina, que será a terceira maior do mundo e que deve entrar em operação em 2015.

"A Eletrobras vai ter problemas em qualquer cenário, seja entrando sozinha ou com 49 por cento de participação em um consórcio. Entretanto, as ações da estatal já precificam este tipo de risco: o investidor sabe que ela possui um histórico ruim de investimentos", afirmou.

Mesmo diante desta percepção, logo após o leilão as ações da Eletrobras serão invariavelmente penalizadas, diz Corrêa. "Mas não acredito na possibilidade de que a companhia entre sozinha no leilão: ela conseguirá parceiros", acredita.

Diante dos problemas, a Eletrobras voltou atrás da decisão de divulgar nesta quinta-feira lista de empresas que estariam interessadas em uma parceria com a estatal para o leilão.

O grupo Bertin, um dos citados como interessados em disputar o projeto, afirmou em comunicado que definiu as áreas de energia e de infraestrutura como prioridades para os próximos anos e que "tem estudado diversas opções de investimento".

Enquanto isso, o grupo Queiroz Galvão afirmou que também registrou junto à Eletrobras interesse em ser parceiro da estatal na construção, mas informou que não está, no momento, integrando nenhum consórcio.

As empresas interessadas em construir Belo Monte têm até 14 de abril para se registrar na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), promotora do leilão. Vence quem oferecer a menor tarifa.

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